Cristologia

A ORAÇÃO DO PAI NOSSO EXPLICADA NO MAGISTÉRIO DA IGREJA.

rezando

Cristo renovou todas as coisas, e como não poderia ser diferente, renovou inclusive, a maneira pela qual nos dirigimos a Deus, por meio de uma nova oração que elevou à perfeição tanto a forma, quanto o fim para o qual devamos rezar.

Ensinou Tertuliano:

“Convinha, realmente, que também neste plano se guardasse o vinho novo em odres novos, e se costurasse um pano novo, numa veste nova. De resto, tudo que viera antes, ou foi inteiramente abolido como a circuncisão; ou completado como o resto da Lei; cumprido enquanto profecia, ou levado à perfeição como a própria fé. ” (Da Oração. Tertuliano, Cap. I parágrafo I, ano 160-220)

A oração do Pai Nosso é a mais sublime já concebida, pois proclamada pela Excelsa Sabedoria Divina dos lábios Santíssimos do próprio Verbo Encarnado, o Deus Filho feito homem, Palavra Viva, que se valendo de poucas e simples menções, numa síntese perfeita nascida para o santíssimo depósito da Tradição Oral, esboçou o resumo de toda Doutrina Sagrada que Ele daria a sua única e santa Igreja:

“Constitui (o Pai Nosso), a lembrança de todo o seu ensinamento, de tal modo, que nela temos uma síntese de todo Evangelho. ” (Da Oração. Tertuliano, Cap. I parágrafo I, ano 160-220)

Esta oração não é um modelo a ser completo, posto que tudo que veio de Cristo é perfeito, e ao perfeito nada lhe falta, sendo a recitação perene onde todas as palavras ditas oralmente pelo Verbo Vivo são bastantes em si. É a síntese ideal e lapidar da qual todas as demais rezas e orações frutificadas no seio da Igreja estão inseridas, contendo-a de modo expresso ou implícito.

O Pai Nosso expressa realidades espirituais transcendentes por meio de realidades materiais, como no “pão cotidiano” que é agradecimento à comida que alimenta o corpo, e também o apelo à comida espiritual que alimenta tanto o corpo, quanto a alma para a vida eterna, nos sinais eucarísticos da carne e sangue derramados na Cruz.

Eis então, nossa Oração Divina, conforme explicada no Magistério Santo e irretocável da sua única Igreja:

1. “PAI NOSSO. ”

Toda dignidade de um Pai está alicerçada em ser reconhecido pelo filho em sua Autoridade paterna.

Inversamente, a grande angústia de um Pai está em ser rejeitado, e assim, tornar-se órfão dos seus próprios filhos, os quais criou e sustentou.

Essa é a nossa condição diante de Deus, trazida pelo pecado:

“Gerei filhos, e estes não me reconheceram. ” (Isaías 1,2)

Não por outra razão, Jesus inaugura a reza instituindo o preceito de que para orar, se comunicar com Deus, há de se reconhecer a Deus primeiro como Pai, para que este, após, reconheça o orante como filho:

“Se o próprio Cristo não nos tivesse permitido orar dessa maneira, nenhum de nós ousaria poder pronunciar o Nome do Pai. ” (São Cipriano de Cartago, o mártir, ano +258, p. 111. Obras Completas. Vol. I) ”

É uma referência, portanto, a parábola do filho pródigo que retornou ao Pai após tê-lo voluntariamente abandonado, tendo o Pai lhe recebido com grande júbilo e festa, porque apraz a todo pai a reconciliação com os filhos rebelados:

“[…] se dizemos que Deus é nosso Pai, precisamos agir como filhos de Deus, para que, do mesmo modo que nos alegramos de Deus Pai, Ele também se alegre de nós. ” (São Cipriano de Cartago, o mártir, ano +258, p. 111 Obras Completas. Vol. I) ”

Mas nenhuma relação entre Pai e filho está completa sem que se tenha presente uma Mãe que também zele, cuide, oriente, corrija, ame e ensine a obediência dos filhos à vontade paterna. É por isso que os filhos que desonram a Mãe, estão em verdade, desonrando a autoridade do próprio Pai, pois num Matrimônio santo, lícito e válido, pai e mãe já não são um, mas uma só carne indissolúvel,[1] razão porque, constou nas tábuas do mandamento a imposição de “honrar Pai e Mãe.” (Êxodo 20)

Por isso, a IGREJA é a Mãe, a Esposa do Cordeiro, a desposada de Deus, e nessa relação familiar transcendental é que os filhos do Esposo nascem pelo Batismo; crescem na obediência da infusão do Espírito Santo do Pai pela Crisma, e são sustentados, alimentados na esperança da salvação por meio do sacrifício do seu genitor presente na Eucaristia.

Compreende-se ainda que o Cordeiro que é Cristo, é também a Pessoa do próprio Deus Pai, pois como testemunhou Deus Filho:

“Quem vê a mim vê ao Pai, pois Eu e o Pai somos um. ” (São João 10.30)

E o Cordeiro sendo também Sumo Sacerdote, é o Esposo Fiel de uma única Esposa, razão porque, há uma só fé; uma só Igreja, uma só verdade, uma só doutrina e um só batismo, pois o filho que não obedece a Esposa, desonra ao Esposo:

Quem vos OUVE a mim OUVE; e quem vos rejeita a mim rejeita; e quem me rejeita, rejeita aquele que me enviou. ” (São Lucas 10, 16)

“Jesus disse: E se RECUSAR OUVIR TAMBÉM A IGREJA, seja ele para ti como um pagão e um publicano. ” (São Mateus 18. 17 e 18) ”

O Pai eterno, sem deixar de ser Pai, tornou-se por vontade livre nosso irmão pela Encarnação do Verbo, fazendo-se homem eterno para reparar em sua humanidade incorrupta e imortal, os delitos que levaram a raça humana a morte e a corrupção:

“Por essa razão era necessário que ele [Jesus Cristo] se tornasse semelhante a seus irmãos em todos os aspectos, para se tornar sumo sacerdote misericordioso e fiel com relação a Deus e fazer propiciação pelos pecados do povo. ” (Hebreus 2. 16)

2. “QUE ESTAIS NO CÉU. ”

Todo bom pai constrói uma boa casa para morada dos filhos.

Um Pai é suficientemente feliz quando por meio dele se realiza a felicidade plena dos filhos em sua companhia.

Deus é um Pai Perfeito.

Para um Pai Perfeito só poderá haver uma morada perfeita.

Portanto, é próprio de Deus o céu, assim como é próprio do céu, Deus.

Mas não há céu sem Deus, como não existe Deus sem que esteja no céu, sendo forçoso concluir que O CÉU É O PRÓPRIO DEUS, em toda sua dimensão inesgotável e eterna na qual haveremos de fazer morada, sem limite de tempo, espaço, e sem nos limitarmos localmente.

Disso se compreende, que pela visão perfeita de Deus, confere-se ao homem acesso ao céu, dando-lhe ingresso à moradia do Pai que pertence aqueles que por herança de santidade, fizeram-se verdadeiramente filhos.

Há implicitamente uma vedação, censura a todos aqueles que não desejaram o reconhecimento da filiação Divina, escolhendo livremente servirem a um falso pai, que por conta de sua inautêntica paternidade, não lhes cobra respeito, amor, e nem obediência.

Por isso, o céu não pode servir de morada aos filhos espúrios que rejeitaram livremente ao Pai verdadeiro:

“Vós nascestes do diabo, e quereis praticas as concupiscências do vosso pai. Ele foi homicida, desde o princípio, e não permaneceu na verdade, porque nela não há verdade. ” (São João 8.44)

Sendo Deus um pai misericordioso, há em sua casa muitas moradas para os filhos que se reconciliam com Ele por meio de Cristo, o qual nessa relação, se coloca como Mordomo da Casa Paterna, aquele que limpará e reconstruirá o acesso dos filhos errantes à proteção e felicidade da casa paterna:

“Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.
Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estiver estejais vós também. ” (São João 14. 1 a 3)

3.  “SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME. ”

Não por outra razão, é que para ver Deus há de se ir até a Casa de Deus que é o céu. Mas para isso ocorrer plenamente, necessita o ser humano de estar inserido na comunhão real da santidade Divina, tornando-se por obra e graça do próprio Deus, partícipe dela:

Bem-aventurados os LIMPOS DE CORAÇÃO, porque eles verão a Deus. (São Mateus 5.8) ”

“Segui a paz com todos, e a SANTIDADE sem a qual ninguém verá o Deus! (Hebreus 12, 14) ”

A santidade é a virtude que deve ser plantada na terra, para que possa ser colhida no céu, nos garantindo acesso à morada do pai:

“A cidade não necessita de sol nem de lua para iluminar, porque a glória de Deus a ilumina, e a sua luz é o Cordeiro. NELA NÃO ENTRARÁ NADA DE PROFANO, nem ninguém que pratique abominações e mentiras, mas unicamente aqueles cujos nomes estão inscritos no Livro da Vida do Cordeiro. ” (Apocalipse 21. 23 e 27)

Ora, se só o Pai é Santo, e se todo filho carrega em si, de certo modo, a imagem do Pai, é correto afirmar que a santificação só se realiza do Pai para o Filho. Portanto, se verdadeiramente nos tornamos filhos de Deus, devemos trazer e levar a imagem do Pai em nós, na realidade dos nossos atos e vida, e não apenas num conceito intelectual irreal.

Conforme ensinou a Tradição Apostólica:

“Quem poderia pretender santificar aquele que já é o próprio Santificador? Não é que pretendamos que Deus seja santificado por nossas orações à Ele, mas sim, lhe pedimos que o seu santo Nome seja santificado em nós. (São Cipriano de Cartago, o mártir, ano +258, p. 112 Obras Completas. Vol. I) ”

Mas como nos santificarmos no Santo Nome de Deus, se Deus jamais se identificou nominalmente com uma identidade social e pessoal, sendo que a ninguém fora revelado o seu Nome[2]? Ora, os nomes têm por função fazer a distinção entre as várias pessoas comuns, para que não as confundamos dentre as iguais. Mas não há ninguém como Deus, porque Ele é único, razão porque, não há um Nome pessoal em Deus.

Por outro lado, é certo que Deus tem por Nome aquilo que Ele É eternamente.

Os atributos infinitos de Deus (Amor, Piedade, Caridade, Justiça, Poder, Autoridade, Misericórdia, Graça e outros) são os seus NOMES, e dentre os seus Nomes, o que mais lhe predica é o Amor em sua forma ágape ou CARIDADE, pois as profecias se cumpriram; os dons místicos cessaram,  ficando a fé, esperança e a Caridade, sendo que dentre eles,  maior é a Caridade.

Por isso é dito:

Eu sou o que Sou.” (Êxodo 3.4)

Deus é amor. ” (São João 1. 4, 1)

“O MEU AMOR NÃO MUDARÁ. ” (Isaías 54,10)

“Eu te AMEI COM UM AMOR ETERNO. ” (Jeremias 31, 3)

Os filhos se reconhecem nos pais, e reciprocamente, o Pai se reconhece nos filhos, razão, porque, aquele que não tem a Caridade, não tem Deus por Pai.

“Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. DEUS É AMOR, E QUEM PERMANECE NO AMOR PERMANECE EM DEUS E DEUS NELE. ” (I São João 4, 16)

“Oramos então, para que esta santificação (pela Caridade) permaneça em nós. ” (São Cipriano de Cartago, o mártir, ano +258, p. 112 Obras Completas. Vol. I) ”

“Pedimos na realidade, que Ele seja santificado em nós, que o ouvimos, e também naqueles que Deus ainda aguarda com a sua graça. Assim, orando por todos, observamos igualmente um e outro preceito católico, que é de rezar mesmo por nossos inimigos. Não apenas dizendo que o Nome de Deus seja santificado em nós, senão dizendo que Ele seja santificado em todos.” (Da Oração. Tertuliano, Cap. III parágrafo 3º, ano 160-220)

4. “VENHA A NÓS O VOSSO REINO E SEJA FEITA VOSSA VONTADE NA TERRA E NO CÉU. ”

Mas aonde estaria o reino de Deus? Indagavam os judeus a Cristo.

Ora, todo reino está aonde repousa o cedro e a coroa de seu monarca, símbolos máximos de toda sua majestade e sua soberana vontade.

Se o reino de Deus é o céu, e não havendo céu sem Deus, nem Deus sem céu, forçoso concluir que o reino de Deus está aonde Ele está. E sendo Deus Onipresente, é certo que esse divino reino se estende por toda terra e por todo céu, sendo o rei, portanto, o único capaz de tornar a terra em céu, e o céu em terra.

Mas o reino de Deus também está dentro de cada um de nós, porque quando por Deus fomos gerados, ele nos imprimiu a sua imagem e semelhança. Ora, tudo que traz em si a imagem do rei, faz parte do reino, e também reina junto com o monarca:

“Então Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra”. (Gênesis 1, 26)

“Foi pela imagem de Deus em cada um de nós, que esse reino efetivamente nos veio enquanto realidade indiscutível, haja vista, que por nossos próprios méritos e meios jamais o alcançaríamos:

“Os fariseus perguntaram um dia a Jesus quando viria o Reino de Deus. Respondeu-lhes: – O Reino de Deus não virá de um modo ostensivo. Nem se dirá: Ei-lo aqui; ou: Ei-lo ali. Pois o Reino de Deus já está no meio de vós”. Mais tarde, ele explicou aos discípulos: “Virão dias em que desejareis ver um só dia o Filho do Homem, e não o vereis.” (São Lucas 17, 20 a 22)

Também por meio desse reino Jesus se fez homem, e nasceu no meio de nós. Mas se o céu é o próprio Deus, o reino é o próprio Cristo, como ensinou a Tradição Apostólica da Igreja:

“É verdadeiramente possível que o próprio Cristo seja o reino de Deus, ao qual queremos chegar, cada dia, (São Cipriano de Cartago, o mártir, ano +258, p. 113 Obras Completas. Vol. I) ”

Se Cristo é o único mediador entre Deus e os homens, é no reino de Deus (que é Ele próprio em seu Corpo Místico), no conjunto das realidades que Ele edificou para se revelar a humanidade, que acontece a comunhão plena de Deus com o homem, e do homem com Deus.

No entanto, é certo que todo reino é composto de súditos fiéis e infiéis, dispostos em pontos ou “locais” diferentes desse mesmo reino.

Nisso reside a maneira distinta na qual a vontade do rei é exercida.

Nos infiéis, onde a ordem e a obediência ao rei são resistidas, a sua vontade lhes será imposta na aplicação das penas e sanções justas aqueles que desonraram o monarca em seu próprio reino.

Nisto vemos o inferno.

Nos fiéis, os que aceitaram, e aderiram a autoridade do monarca, a vontade do rei será a vontade de seu súdito, porque também a vontade do súdito fiel é a vontade do rei.

Nisto vemos o céu.

Sendo o Pai uno no filho, os judeus que não reconheceram a Cristo, despiram-se da graça de tornarem-se filhos de Deus, razão porque, irou contra eles o Pai através do Filho, e como num ato de deserdação, os excluiu provisoriamente da herança e do reino até que aceitem a Nova Aliança, construída agora não apenas com a nação de Israel, mas com a Igreja, que não sendo nação de um povo só, é a nação universal (katolikós):

‘A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se a pedra angular; e isso procede do Senhor, sendo, portanto, maravilhoso para nós. Por isso, eu VOS DECLARO que o reino de Deus será retirado de vós para ser entregue a um povo que produza frutos dignos do reino. ” (São Mateus 21. 43 e 44)

O que Israel buscava não o alcançou; mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos. (Romanos 11.7)

Os judeus deverão reconhecer Cristo como Deus e Messias universal, razão porque se compreende o preceito dado a Igreja, para que reze e zele pela salvação deles:

“E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: De Sião virá o Libertador, E desviará de Jacó as impiedades. E esta será a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados. Assim, quanto ao evangelho, são inimigos por causa de vós; mas, quanto à eleição, amados por causa dos pais. ” (Romanos 11. 26-28)

5. “O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DAI HOJE.”

Acaso algum pai tiraria o pão da mesa de seus filhos, e os atiraria aos cães? (Mt 15.26;Mc 7.27)

Mas nem só do pão do estômago vive o homem.

Portanto, é nítido que o objetivo principal desta súplica na oração, não se restringe ao alimento comum, mas usa do seu modelo para mostrar uma realidade sobrenatural, num alimento muitíssimo superior pelo qual ninguém terá fome, nem sede ao tomá-lo:

“[…]reuni-vos para UM GRANDE SACRIFÍCIO NAS MONTANHAS DE ISRAEL. Ireis COMER A CARNE dos heróis e BEBER O SANGUE dos príncipes da terra: carneiros, cordeiros, cabritos, touros robustos de Basã; NESSE SACRIFÍCIO ao qual vos convido, COMEREIS GORDURA até vos fartardes, e BEBEREIS SANGUE até a EMBRIAGUEZ do SACRIFÍCIO que OFERECI por vós. ” (Ezequiel 39. 17, 18 e 19)

“Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a vida eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois nela Deus Pai imprimiu o seu sinal”. (São João 6, 27)”

“Pois a minha carne é VERDADEIRAMENTE UMA COMIDA e o meu sangue, VERDADEIRAMENTE UMA BEBIDA. (São João 6, 55)”

No altar da verdadeira Igreja não haverá mais comida comum, mas como ensinado pelo próprio Cordeiro, um sinal da Nova Aliança “porque o reino de Deus NÃO É COMIDA, NEM BEBIDA.” (Romanos 14,17) ”

“Vós o profanais quando dizeis: A MESA do Senhor está MANCHADA; o que nela se oferece é um ALIMENTO COMUM; (Malaquias 1.12 e 13) ”

Se nos sacrifícios simbólicos de adoração na Antiga Aliança, não era dado ofertar a Deus o sangue e a carne de animais defeituosos tendo no rebanho animais perfeitos, reportando esse preceito a novel Aliança, também não nos é dado ofertar o pão comum da terra, dispondo nós do Pão do céu, eterno e verdadeiro.

Na Pessoa do Filho, Deus tornou-se carne e sangue, e na carne e sangue Ele tornou-se pão e vinho, tornando-se o alimento que transcende a própria Lei Natural, sendo esse alimento o sacrifício oferecido para remissão dos pecados, na comunhão do nosso corpo com o Corpo Místico e Sobrenatural de Cristo, no sinal do vinho e do pão:

“PARECIA-VOS que eu comia e bebia convosco, mas o meu alimento é um MANJAR INVISÍVEL, e minha bebida NÃO PODE SER VISTA pelos homens.” (Tobias 12, 19)

O homem natural é um reflexo do homem espiritual.

Porque o homem natural necessita do alimento natural para sobreviver, também o homem sobrenatural, tornado Filho de Deus pela fé, necessita do alimento sobrenatural para ressuscitar e viver eternamente.

A comida comum sustenta nosso corpo até o limite da vida temporal.

Mas o alimento sobrenatural sustenta nosso corpo e alma para a vida atemporal e eterna:

Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.” (São João 6. 54)

Se a fome pelo alimento natural se renova a cada dia (cotidianamente), assim também é nossa fome por Deus, o Pão Vivo do céu.

O ser humano peca a cada dia, a cada dia, portanto, necessitará receber de Deus o sinal do sacrifício eterno que o repare dos seus delitos:

O pão de cada dia ou o pão cotidiano é o cumprimento de uma antiga profecia sobre um pão sacrificial ofertado em oblação num altar perpétuo que existiria em todos os cantos da terra:

Vá, antes, um de vós e feche as portas. Não acendereis mais inutilmente o fogo no meu altar. Não tenho nenhuma complacência convosco – diz o Senhor dos exércitos – e nenhuma oferta de vossas mãos me é agradável. SACRIFICAM a mim em TODO LUGAR e oferecem em MEU NOME uma OBLAÇÃO TODA Pura, pois grande é o Meu Nome em TODAS as nações. (Malaquias 1,11). ”

“E, diante de mim, não faltarão jamais descendentes aos sacerdotes e aos levitas para oferecer os holocaustos, queimar as oferendas e celebrar o sacrifício cotidiano”. (Jeremias 33, 18)”

Ensinou Tertuliano:

“Isto É meu Corpo. Então cremos que o seu Corpo está presente no Pão. Assim, pedindo o pão cotidiano, rogados a Deus viver sempre em Cristo e inseparáveis de seu Corpo. ” (Da Oração. Tertuliano, Cap. VI, ano 160-220)

E São Cipriano de Cartago:

“Cristo é o Pão daqueles que comem de sua carne e bebem do seu sangue. Pedimos que esse Pão nos seja dado diariamente a fim de que nós, que estamos no Cristo e recebemos diariamente a Eucaristia como alimento de salvação, não venhamos a ser por intervenção de algum pecado grave, afastados do pão celeste, e assim, impedido de sua comunhão. (São Cipriano de Cartago, o mártir, ano +258, p. 116. Obras Completas. Vol. I)

O Pão nosso de cada dia que é Corpo e Sangue de Cristo, figura o sacrifício cotidiano, o pão de cada dia, outrora profetizado. Mas, e se não vemos carne, nem sangue nos elementos do pão e vinho? Como disse Cristo a São Tomé: “Feliz aquele que não viu, e creu. ” (São João 20, 14)

6.  “PERDOAI NOSSAS DÍVIDAS COMO PERDOAMOS NOSSOS DEVEDORES.”

O Bem que buscamos em Deus é o Bem que devemos compartilhar com o próximo. A ninguém é dado o direito de suplicar para si misericórdias e clemências, e simultaneamente, negá-las ao próximo por desejar-lhe todo mal, e a severidade de todos os castigos.

A Justiça de Deus dá a misericórdia na misericórdia, e o perdão no perdão. Logo, se almejamos o título e a realidade de imitadores de Cristo, temos que nos pautar pela misericórdia no trato com nosso próximo:

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão miseri­córdia!” (São Mateus 5.7)

Por isso, nossa penitência válida é o perdão aqueles que nos ofenderam, e se constituíram em nossos devedores ainda que contumazes, para que assim, Cristo faça brotar o perdão onde nós o plantamos junto com Ele, sendo o terreno do plantio o nosso árido e seco coração, cujo sangue e água que verteram do Corpo de Cristo na cruz o torna em campo fértil.

O que é justo para o outro, por lógico, deve ser justo para mim.

Por esta razão, a medida do juízo de Deus sobre nós será balizada pela medida com que medimos aqueles que estão, conosco, em idêntica situação de devedores:

“Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos. (São Mateus 7, 2)”

“[…] com a medida com que medirdes, vos medirão a vós, (São Marcos 4, 24)”

A dívida simboliza o pecado do homem para com Deus e também para com o seu próximo.

Riqueza e pobreza está definida na proporção do crédito e débito.

Aquele que é verdadeiramente rico nada deve.

Ora, Adão era rico porque não tinha dívida para com Deus, pois ainda não havia pecado. Mas quando ele e sua esposa pecaram, deram conta de que estavam nus (nudus pecatum adamicus), e sequer vestimentas possuíam, porque viram neles toda miséria e insignificância de um ser humano sem Deus, e se envergonharam disso.

Ensinou Santo Ambrósio:

“Eras rico, feito a imagem e semelhança de Deus. Perdestes o que tinha, isto é, a humildade, quando desejas a vingança arrogante, e perdeste o crédito, como Adão, e te tornaste nu, pois assumistes a dívida do diabo que não era necessária. O inimigo possuía a tua Promissória, e o Senhor a crucificou, e a destruiu por seu próprio sangue. (Santo Ambrósio de Milão. Símbolos da Fé. Ano 374, p. 42)

Por isso, essa parte da oração é uma referência a parábola dos devedores:

“Por isso, o Reino dos Céus é comparado a um rei que quis ajustar contas com seus servos. Quando começou a ajustá-las, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Como ele não tinha com que pagar, seu senhor ordenou que fosse vendido, ele, sua mulher, seus filhos e todos os seus bens para pagar a dívida. Este servo, então, prostrou-se por terra diante dele e suplicava-lhe: ‘Dá-me um prazo e eu te pagarei tudo! Cheio de compaixão, o senhor o deixou ir embora e perdoou-lhe a dívida. Apenas saiu dali, encontrou um de seus companheiros de serviço que lhe devia cem denários. Agarrou-o na garganta e quase o estrangulou, dizendo: ‘Paga o que me deves! O outro lhe caiu aos pés e pediu-lhe: ‘Dá-me um prazo e eu te pagarei! Mas, sem nada querer ouvir, este homem o fez lançar na prisão, até que tivesse pago sua dívida. Vendo isso, os outros servos, profundamente tristes, vieram contar a seu senhor o que se tinha passado. Então, o senhor o chamou e lhe disse: ‘Servo mau, eu te perdoei toda a dívida porque me suplicaste. Não devias também tu compadecer-te de teu companheiro de serviço, como eu tive piedade de ti? E o senhor, encolerizado, entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a sua dívida. Assim vos tratará meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão, de todo o seu coração. ” (São Mateus 18. 24 a 35)

7. “E NÃO NOS DEIXE CAIR EM TENTAÇÃO.”

Deus a ninguém tenta para a prática do mal, porque todo mal se opõe a Deus.

Mas Deus é também Justiça. E por justiça, nos tornamos escravos do pecado quando na primeira tentação do ser humano, ainda no Éden, a raça humana deixou-se vencer intelectualmente pelo diabo, o qual, por justiça, reclama de Deus o domínio sobre aqueles que ele subjugou, e derrotou.

Assim, é justo ao que fora vencido que se torne escravo, patrimônio daquele que o venceu:

“Torna-se escravo de outrem, não somente quem foi por esse dominado, mas ainda quem voluntariamente se lhe submeteu. E deste modo torna-se escravo do diabo quem peca de propósito deliberado. Por certo, ocasional e indiretamente, o diabo é causa de todos os nossos pecados. Pois, induziu o primeiro homem a pecar; e esse pecado viciou a tal ponto a natureza humana, que todos somos inclinados a pecar. Do mesmo modo poderíamos considerar como causa da combustão da madeira quem a tivesse secado, fazendo com que se ela facilmente queimasse. Diretamente, porém, não é causa de todos os pecados humanos, no sentido de nos persuadir a cada um deles. E isso, prova Orígenes, por haverem homens que, ainda que inexistisse o diabo não existisse, teriam o apetite da gula, do ato venéreo e semelhantes. E esse desejo poderia ser desordenado se não se sujeitasse à razão; o que depende do livre arbítrio. (Suma Teológica. Q 80 art. 4º,  Santo Tomás de Aquino Livro – Da Causa do Pecado por Parte do diabo) ”

Portanto, as tentações diabólicas virão.

Mas Deus, em sua infinita sabedoria e compadecimento nos deu escolha nas tentações: sucumbimos a elas; ou as vencemos, e nos santificamos por meio da vitória sobre elas.

Não há meio termo.

Ou nos santificamos nas tentações, ou nelas nos perdemos.

O próprio Cristo nos deixou exemplo ao permitir ser tentado para nos demonstrar o caminho certo da ascese (perfeição) que temos de trilhar ao depararmos com as tentações demoníacas.

Assim explica a Santa Tradição Apostólica:

“Ao rogar para que não caiamos em tentação, somos lembrados da nossa fraqueza e miséria; e rogamos assim, para que ninguém se exalte insoletemente, nem tome orgulhosa e arrogantemente algo como seu, nem ainda considere como sua própria glória a confissão ou o martírio. Pois, ensinando-nos, humildemente, diz o Senhor: – “Vigiai e orai para não cairdes em tentação. ” (São Cipriano de Cartago, o mártir, ano +258, p. 120. Obras Completas. Vol. I) ”

E ainda:

“Não nos submetas a tentação, quer dizer que não deixemos que o tentador nos faça cair. Um dia, o próprio Senhor foi tentado pelo diabo, mostrando que é este, e não ele, o dono e mestre de toda tentação. (Da Oração. Tertuliano, Cap. VIII parágrafo I, ano 160-220)

Isto corresponde ao final do Pai Nosso, tendo em tão poucas palavras, manifestado de um jeito tão simples e suave todos os preceitos do seu santíssimo Evangelho. E quantos deveres religiosos nos são revelados nesta súmula tão pequena no tamanho, mas infinita em sua sabedoria.

 

[1]“Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que UMA SÓ CARNE.” (Gênesis 2. 24)

[2] Javé não é Nome Próprio, mas uma expressão no antigo hebraico (YHWH) que significa;: “eu sou aquilo que sempre serei”.

2 comentários

  1. Conheci esse blog através de um grupo católico no Facebook e me considero privilegiado porque sem dúvida é um dos melhores blogs apologistas atuais, linguagem didática, rica bibliografia, muitas citações bíblicas e da patrística. Muito obrigado por seu trabalho, saiba que é muito importante para nós, fiéis da verdadeira Igreja.

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