Cristologia

POR QUE O SOFRIMENTO DE CRISTO NA CRUZ FOI A MAIOR DOR JÁ SUPORTADA?

"Em seu martírio, toda tristeza da decadência humana gerada pelo desamor e repúdio dos filhos ao Pai Divino, explodiram no coração de Cristo numa profunda e indescritível amargura, sendo que desse santo coração arrebentado brotou a água do Batismo que purifica, e o sangue da Eucaristia da Nova Aliança que perdoa e recapitula os filhos, outrora errantes, na perfeição da relação amorosa com o Pai."

coracao_jesus1

Felicidade e dor são espécies de um mesmo gênero,1 que, entretanto, se opõem enquanto virtude e vício.

A intensidade da união com a bondade demandará o tamanho da felicidade, ao passo que o contato intenso com o que é mal e destrutivo demandará o tamanho da dor e da tristeza.

Ensina a Igreja:

Duas são as condições para a felicidade – a união com o bem e a percepção dessa união; assim também duas são as condições exigidas pela dor – a mescla de algum mal, que priva do bem, e a percepção dessa mescla. ” (Santo Tomás de Aquino, in Suma Teológica. Q 35 Da Dor e da Tristeza, art. 1º)

Cristo em seu sacrifício, suportou a justiça e a ira de Deus pela maldade atemporal de toda humanidade, razão porque, sofrera no corpo e na alma como jamais sofreu ou sofrerá qualquer indivíduo:

[…] vós todos que passais pelo caminho, parai e vede se há dor igual a minha, que a mim fora infligida pelo Senhor no dia de sua violenta ira. ” (Lamentações 1.12)

“Sobre mim tombaram vossas iras[…]” (Salmo 87.17)

Estava Ele em seu sacrifício, absorvendo de modo tão profundo toda a maldade humana, que a ira e o juízo de Deus lhe recaíram ao ponto de sua humanidade restar, ainda que momentaneamente, privada de todo Bem contido em sua natureza Divina2:

Dizia Cristo, em seu idioma natal, o aramaico, lamentando-se: – Eloi, Eloi, lamá sabactani?

Deus, DEUS Meu, por que me abandonastes? ” (São Marcos 27.43)

E assim haveria de ser para que se cumprisse o que tinha sido profetizado:

Por um momento eu te havia abandonado, mas com profunda afeição eu te recebo de novo. ” (Isaías 54, 7)

A ira, a justiça e a vingança de Deus estavam sobre Ele de maneira extrema, vigorosa e extraordinária.

As dores de Cristo padecente na cruz em sua humanidade, não foram apenas a causa da sua morte, senão, como enfatizou a Igreja, também as dores de sua grandiosa Paixão:3

“Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele […] ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos: e nós o reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado. Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças às suas chagas.” (Isaías 53. 3, 4 e 5)

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/08/14/cristo-assumiu-todas-as-fraquezas-do-corpo-e-da-alma-humana/

Sofria as penas de delitos que não cometera, cuja reprimenda, nós, os verdadeiros delinquentes, jamais poderíamos suportar, nem satisfazer por nossos méritos próprios, dado ao pecado irreparável que cometemos contra o amor de Deus.

Então Deus se fez homem no Filho, para morrer em sacrifício levando ao máximo as nossas culpas, inclusive, daqueles que o odiavam, e o perseguiram até a morte dolorosa e humilhante.

Morreu para aniquilar o pecado de toda humanidade, oferecendo a sua própria natureza humana santa e imaculada à reparação da justiça divina, permitindo que Nele fossem aplicadas as penalidades dolorosas decorrentes de toda maldade por nós cometida:

O Senhor suportou entregar sua própria carne à destruição, para que fossemos purificados pelo perdão dos pecados, isto é, pela aspersão de seu sangue.” (Epístola de São Barnabé. p. 170 Cap. I p. V)

Nele, satisfazia-se toda justiça Divina reservada a humanidade, o que nos permite agora escolher sermos libertos das penalidades do pecado através do perdão:

“[…] porque o Cordeiro que está no meio do trono, será o seu pastor e os levará às fontes das águas-vivas; e Deus enxugará toda lágrima de seus olhos”. (Apocalipse 7.16)

Era, portanto, o fiel Pastor de ovelhas, que prefere se entregar aos lobos, que deixar perecer toda vida de seu rebanho.

Do ponto fisiológico até existem castigos físicos imoderados, capazes que infligir dores maiores que a crucificação, como a morte lenta por combustão do ser queimado vivo; a empalação e o esquartejamento com vida, dentre outros. Muitos santos, para não negarem a fé em Cristo, foram vítimas dessas penas cruéis praticadas mediante tais torturas,4 como muitos outros na época de Jesus, também foram crucificados.

Mas os sofrimentos intensos, impactantes e desmedidos de Cristo não estavam nas dores do Corpo, mas principalmente nas dores de sua Alma humana.

Disse Cristo aos seus apóstolos, no monte das oliveiras, antes de ser conduzido ao sacrifício:

Disse-lhes: “A minha alma está numa tristeza mortal; ficai aqui e vigiai”. (São Marcos 14, 34) “

E ainda a Deus Pai:

Pai, se assim for possível, afasta de mim esse cálice! ” (São Mateus 26.39)

Assim fora, para que também se cumprisse aquela profecia do salmista:

Minha alma está saturada de males, e próxima da região dos mortos a minha vida.” (Salmo 87)

“Sobre mim pesa a vossa indignação, vós me oprimis com o peso das vossas ondas.” (Salmo 87)

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/09/27/da-imortalidade-da-alma/

Para entendermos o que é a dor na alma em Cristo, temos que compreender primeiramente o que seja a dor humana.

Não resta dúvida que Deus, por meio de sua imagem primorosa no Filho, tornou-se verdadeiramente homem no ventre de uma virgem santíssima. E homem pleno e perfeito, que nada lhe excedeu, nem lhe faltou em sua natureza humana semelhante à nossa, mas sem a nódoa do pecado.

Dúvida não resta, que Cristo teve um corpo e uma alma humana, tal como nós os temos.

Deus, no Verbo Encarnado, colocava-se por ato livre sujeito a todas as dores possíveis, as quais podemos resumir no sofrimento corporal (dor corpórea) e no padecimento da alma ou desgosto anímico (dor intelectual, moral ou sensível).

Enquanto fenômeno psicossomático, é a dor ou sofrimento um produto gerado na intercessão entre corpo e alma.

A dor física é causada pela ruína da estrutura material do corpo que poderá implicar na destruição parcial da perfeição do ente, tal qual fora criado (lesão permanente ou transitória), podendo em casos extremos resultar na ruptura entre o corpo e a alma, causando o óbito por ato próprio ou de terceiros.

Sofremos pesarosamente quando nos lesionamos porque temos amor a perfeição do nosso corpo; assim como penamos na morte, porque também amamos a perfeita união entre o corpo e a alma que nos permite usufruir do bem da vida.

Ora, o atentado contra ao corpo ou a vida é algo contrário a natureza humana, criada perfeita e imortal por Deus.

Já o sofrimento anímico ou mágoa aguda provém da amargura de uma grande perda, percebida na alma pelo intelecto e sensibilidade.

Pode ser um eco da própria dor física que nos mutila ou nos leva à perda da vida; pode ocorrer de modo autônomo ou mesmo existir simultaneamente com as dores do corpo.

Sendo que Deus nos criou para a felicidade eterna, constatamos que toda dor na alma ou mágoa emocional é também uma condição contrária à nossa natureza.

As dores externas sempre produzirão a dor interior; e esta poderá, em certas ocasiões, causar dores físicas.

Afirma-se, destarte, que as dores externas do corpo estão ligadas as dores interiores da alma, e vice-versa, por conta da consciência e sensibilidade emocional que as captam, avaliam e só depois as recebem em todo nosso ser.

Mas é certo poderá haver uma dor interior muito maior que a causa exterior que a gerou, ou mesmo por uma causa totalmente distinta e autônoma.

Fora assim a dor na alma de Cristo durante a crucificação, muitíssimo maior que as próprias dores físicas do seu flagelo. E isso se deveu, como já dito no início do texto, pelo contato próximo com toda maldade da raça humana.

Mas há outra razão porque a dor na alma de Cristo durante o seu padecimento era extraordinária. Aliás, uma razão ainda bem simples de se identificar.

Ora, sabe-se que o sofrimento de um pai desprezado e repudiado pelos filhos, é do tamanho exato desse amor paterno não correspondido.

Se Deus ama infinitamente todos os seus filhos, é certo que a dor e a amargura por ter tido esse amor repudiado e desprezado serão também infinitas.

A dor de Cristo era do tamanho do Amor de Deus, então desprezado.

Sendo infinito esse amor, infinita será a dor, do mesmo modo que será infinita a felicidade de Cristo pelo amor do Pai aquiescido e verdadeiramente correspondido por seus filhos por meio da obediência.

Por isso que é dito que “Deus amou o mundo de tal maneira, que dei seu único filho para que todos tenham vida em abundância.(São João 3.16)”

O Filho de Deus, que é sua imagem perfeita, nos ama na mesma intensidade que o Pai, ao ponto de se entregar por nós para sofrer no corpo e principalmente na alma, todas as penas que legitimamente nos recairiam no juízo final, para que assim fossemos isentados da ira divina e conduzidos a felicidade do primeiro amor instituído entre Deus e os primeiros seres humanos da criação:

“Senhor, em vossa cólera não me repreendais, em vosso furor não me castigueis. (Salmos 6, 2)” 

A misericórdia triunfa sobre o juízo. ” (São Tiago 2. 13)

“O Senhor é bom e misericordioso, lento para a cólera e cheio de clemência. ” (Salmos 102, 8)” 

“E dirás naquele tempo: Eu vos rendo graças, Senhor, porque vossa cólera se aplacou e vós me consolastes. (Isaías 12, 1)”

Em seu martírio, toda tristeza da decadência humana gerada pelo desamor e repúdio dos filhos ao Pai Divino, explodiram no coração de Cristo numa profunda e indescritível amargura, sendo que desse santo coração arrebentado brotou a água do Batismo que purifica, e o sangue da Eucaristia da Nova Aliança que perdoa e recapitula os filhos, outrora errantes, na perfeição da relação amorosa com o Pai. Sua dor fora do tamanho do amor do Pai, ora renegado pela desobediência dos filhos, do que podemos afirmar, conforme a sabedoria e autoridade da Santa Igreja, que Jesus padecera de uma dor pesada, violentíssima, aguda e infinita.

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/12/11/o-batismo-recolhe-sua-eficacia-salvifica-do-sacrificio-e-da-ressurreicao/

Tornando-se homem pelo Verbo Encarnado, Deus agora era sensível as dores humanas, razão pela qual, Ele sentiu por meio do Filho Divino, a infinita amargura de um Pai bondoso e amoroso que experimentou o ódio mortal, o desprezo capital, o desrespeito, a desobediência e toda ingratidão por parte dos seus filhos.

Cristo experimentou tudo isso por nós, e em nosso favor:

Desgraçado de mim, porque o Senhor acumula sobre mim (as suas) tristezas e dores! Desfaço-me em gemidos e não encontro repouso.” (Jeremias 45, 3)

“Vós me lançastes em profunda fossa, nas trevas de um abismo.” (Salmo 87)

“Cristo remiu-nos da maldição da Lei, fazendo-se por nós maldição, pois está escrito: Maldito todo aquele que é suspenso no madeiro (Dt 21,23). (Gálatas 3, 13)” 

Deus criou o homem para o Bem, não para o mal.

O pecado é um acidente.

O Bem ou visão beatífica é o fim do homem.

Deus não criou o homem para pecar, mas o pecado do homem oportunizou a Deus provar o seu amor pela humanidade, pois como ensina nossa santa Tradição:

Se o Filho de Deus, que é Senhor, e julgará os vivos e os mortos, sofreu para nos dar a vida por meio dos seus ferimentos, acreditamos que o Filho de Deus não poderia sofrer, a não ser por causa de nós.” (Epístola de São Barnabé. p. 170 Cap. I p. V)

————————

1Tristeza e felicidade, assim como a dor e o prazer estão compreendidas no gênero das paixões e das apetências humanas, no campo das manifestações sensíveis que o indivíduo busca ou se sujeita. (Suma Teológica de São Tomás de Aquino, Q 35. Da Dor e da Tristeza em si mesmas. Livro IIa)

2Pela chamada UNIÃO HIPOSTÁTICA, Cristo é ao mesmo tempo Deus e homem sem separação, divisão ou confusão, havendo duas naturezas, numa só Pessoa. Assim, tanto Ele pode agir através das duas naturezas (com o ato de morrer que só ocorre pela natureza humana e ressuscitar que só se dá pela natureza divina), como agir exclusivamente por uma e outra. O ato de se alimentar é exclusivamente da natureza humana, já o ato de realizar milagres da natureza Divina. E fazer o milagre mediante o toque das mãos um ato da natureza humana e divina, simultaneamente. (Catecismo U.4.6 União hipostática em Cristo. § 470)

3O conceito de PAIXÃO na Filosofia, Escolástica e na Teologia difere totalmente do sentido dessa palavra no uso vulgar e romântico que é o êxtase emocional erótico entre dois ou mais indivíduos. Paixão no sentido Teológico, é um estado contínuo de sofrimento corporal e emocional em sentido extremo. Por isso, quando se diz da PAIXÃO DE CRISTO, referente a sua condição de padecente.

4São Policarpo aceitou voluntariamente ser queimado vivo (ano 155); São Lourenço de igual modo para não renunciar a fé em Cristo e na Igreja submeteu-se a ser “assado vivo” e lentamente durante horas numa grelha (ano 225); Santo Hipólito de Roma fora esquartejado vivo, tendo seus membros, superiores e inferiores amarrados em cavalos que lhes dilaceraram ao desmembrá-lo por completo. E assim muitos outros, até os dias de hoje, sofreram mortes violentíssimas.

2 comentários

  1. Um excelente texto, sem dúvida.
    Pensando no Jesus histórico (sem detrimento do Jesus Santo) imagino o tanto de sofrimento e terror pelo qual ele passou. E todo esse sofrimento porque ele disseminava o amor.
    E é muito triste pensar que se vivo estivesse, em carne e osso, talvez Jesus sofresse ainda mais nos nossos dias.
    Falta-nos amor ao próximo.
    Abraço.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s