Protestantismo

O PECADO APAGOU NO SER HUMANO A IMAGEM DE DEUS? UMA CRÍTICA A TEORIA PROTESTANTE DA DEPRAVAÇÃO TOTAL OU RADICAL, À LUZ DO QUE ENSINA A IGREJA.

O ser humano, mesmo afastado ao máximo de Deus, tem intacta e ativa nele a imagem Divina, a qual lhe faculta ainda que negando ou desconhecendo ao seu Criador, reconhecer certa moral natural, e por ela expressar certa dignidade mínima a convivência social, familiar e individual, mesmo que esses atos não o tornem justo, nem apto para salvação. “POIS SE VÓS, SENDO MAUS, SABEIS DAR BOAS DÁDIVAS AOS VOSSOS FILHOS, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem? (Lc 11. 10,13)

Seria a natureza humana, de fato, totalmente depravada ao ponto de não existir nada de bom que nela habite, e que dela proceda?

O protestante João Calvino (1.509 a 1.564), pai do calvinismo[1], e a maioria dos seus correligionários defenderam essa ideia no passado, e muitos ainda a abraçam nos dias atuais:

“[…] o homem, como foi corrompido pela queda […] tudo faz por depravação de sua natureza, que não pode ser movido, nem impulsionado, senão para o mal. (Cap. III, p. 63. As Institutas – Livro II) ”

CALVINO
João Calvino, também conhecido como o “papa” de Genebra.

Propuseram que no ser humano, após o pecado, já não haveria nada substancial que não fosse a capacidade para maldade e o prazer à transgressão em níveis máximos, sem resquício ou espaço algum para ética e retidão em sua natureza:

“[…] os homens são tais quais descritos, não apenas pelo vezo do costume depravado, mas ainda pela depravação de sua natureza. (Cap. III, p. 59. As Institutas – Livro II) ”

Mas havia nesta teoria pontos irremediavelmente desconcertados.

Um deles é o amor próprio.

Acaso já houve neste mundo alguém, que por mais perverso que fosse, desejasse o mal a si mesmo?

No indivíduo totalmente depravado, o mau e a maldade sempre lhe convém e apraz, seja contra os outros ou a si mesmo. Fosse completamente depravado, o ser humano e a humanidade jamais poderiam querer nada que não fosse o mal absoluto.

Mas é certo que nenhum ser humano, por mais corrompido que se mostre, jamais desejará para si, senão coisas boas e o bem, ainda que esse bem se apresente de modo defeituoso e desordenado.

O mal é a rejeição de um bem conveniente maior (Bem perfeito) por um bem inconveniente menor (bem imperfeito), privando-nos da verdadeira e plena bondade. Por isso, não existe o mal absoluto, nem nos demônios, porque até eles estão sob o domínio soberano de Deus, e só o fato de existir, e estar sob o domínio do Bom Criador, já é um bem para qualquer criatura. Ora, o suicida busca a paz e o sossego; o idólatra a vida eterna e a transcendência com o sagrado; o devasso almeja prazer e deleite; o autoflagelado se penitencia para aliviar a dor do seu remorso; assim como o homicida pretende a reparação daquilo que sofrera, enxergando-se injustiçado.

Paz, vida eterna, prazer, alívio, penitência e reparação são virtudes na órbita dos bens legítimos, tornando-se um mal na corrupção de seu propósito final, quando o indivíduo não deseja, nem busca esses bens em conformidade com a vontade divina a norteá-lo através dos meios concretos que Deus disponibiliza para alcançá-los, os quais podemos resumir na Igreja, e nos sacramentos.

Assim também, o que distingue o ato e a vida moralmente ética, do ato e a vida retamente santa é o propósito de alcançar a Deus como fim último de sua jornada.

Um ato dotado da ética e moral natural, pode estar esvaziado de santidade e do bem perfeito, com por exemplo, a FILANTROPIA que é a boa obra por amor ao homem, ou para a vanglória e vaidade própria, a qual se opõe a CARIDADE que é a prática das boas obras por causa de Deus, e por amor a Deus.

O mal não tem existência ontológica, pois nenhum mal existe nele,[2] por ele mesmo, mas apenas no desalinho do bem, razão porque, todo mal consequente é na verdade, a desordem de um bem precedente. Ele acontece a partir da perversão do bem por causa da razão natural,[3] que ilude e induz a vontade a tomar por bem justamente aquilo que é mal.

O verdadeiro bem é aquele que é movido, e se ordena livremente a Deus:

“[…] a diferença específica dos atos (bom ou mal) depende dos objetos” (Suma Teológica. Q 19, art. 1º Livro IIa)

“Como já disse, a bondade da vontade depende do fim intencional. Ora, o fim último da vontade é o sumo bem – Deus. Logo, e necessariamente, a bondade da vontade humana há de se ordenar para Deus. Este bem em si, e primeiramente, comparado com a vontade divina, constitui-lhe o objeto próprio. […] segue-se que, para ser boa, a vontade humana há-se de conformar com a vontade divina. ” (Suma Teológica. Q 19, art. 9. Da Bondade do Ato Interior da Vontade)

Explica ainda Santo Tomás:

“Certos ATOS EXTERIORES podem ser considerados BONS OU MAUS, em duplo sentido. Genericamente e levadas em contas as circunstâncias, diremos que dar esmola é um bem. De outro modo, em ordem ao fim, dar esmola para vanglória reputamos por um mal. A bondade ou malícia do ato exterior, em si mesmo, como matéria, devidas as circunstâncias, NÃO DERIVA DA VONTADE, MAS, ANTES, DA RAZÃO. ” (Suma Teológica Q 20, art. 2º Da Bondade e da Malícia)

O mal está em tudo que é lícito, mas que não convém circunstancialmente desejar, nem realizar, posto que o seu alcance final, ou será ilícito, ou nos fará perder o domínio espiritual sobre nossa matéria corpórea, passando o instinto e as apetências a nos dominar, e nisso reside a origem do mal na humanidade:

“Tudo me é permitido”, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não deixarei que nada domine. (I Coríntios 6.12)”

Notório que qualquer indivíduo, equilibrado ou desajustado, néscio ou intelectual, honesto ou delinquente, cristão ou pagão não deseja o mal ou a ruína a si próprio, embora a sua busca pelo bem e pela bondade sem Deus como fim último, inevitavelmente, o conduzirá ao mal:

PORQUE O QUERER O BEM ESTÁ EM MIM, MAS NÃO SOU CAPAZ DE EFETUÁ-LO. ” (Romanos 7,18)

Balizada nos ensinamentos apostólicos, complementa a Escolástica:[4]

“Diz-se que o mal é contrário à vontade, porque esta não tende para ele (Rm 7.18), como tal. Mas como há males que são bens aparentes, a vontade deseja às vezes o mal; e deste modo haverá nela o mal. ” (Suma Teológica, Q 74 – Dos Sujeitos do Pecado. art. 1º Livro IIa)

O mal, portanto, nasce da deficiência da apreensão mental do que seja um bem e do que seja bom, por causa do intelecto corrompido, sendo vício que antes, se origina da razão, e só depois é que atinge à vontade, que se apetece, e quer adquirir aquilo que aparentemente lhe fora informada como certo, bom e justo:

“Ora, a razão é suscetível de duplo ato. Um, ao seu próprio objeto que é conhecer a verdade; outra, enquanto diretiva (dominadora) das outras potências (desejo, paixão, instintos etc). De um e outro modo pode haver pecado na razão. Do primeiro, ela erra no conhecimento da verdade, em cujo caso o pecado lhe é imputado, se nutria ignorância ou erro do que podia, e devia saber. Do segundo, quando impera, ou também não reprime, após fazer um juízo, os atos desordenados dessas potências inferiores. ” (Suma Teológica, Q 74 – Dos Sujeitos do Pecado. art. 5º Livro IIa)

Assim, não é que a vontade humana não queira o bem, mas o quer de modo desfigurado, sem ter a Deus como fim último deste bem. E tudo o que não tem Deus por desiderato e propósito, é mal, como disse o apóstolo:

“PORQUE O QUERER O BEM ESTÁ EM MIM, MAS NÃO SOU CAPAZ DE EFETUÁ-LO. ” (Romanos 7,18)

PORQUE DELE, E POR ELE são todas as coisas; glória, pois, a Ele eternamente. (Romanos 11.36)

Assim, são frontalmente contrários aos escólios de São Paulo, os que defendem que a vontade estaria totalmente corrompida e depravada, pois como disse o Apóstolo, “o querer o bem está em mim.

A vontade não tem a corrupção desde sua raiz, mas é corrompida pela razão natural desorientada.

Há erro crasso no calvinismo quando afirma:

“Continuamente deixe-nos lembrar que a vontade do homem é a parte dele que está com defeito. Sua incapacidade não é física, mas moral. Não seria verdadeiro dizer que um homem tem um real desejo e quer vir a Cristo, mas falta-lhe força para isso. Seria muito mais verdadeiro dizer que um homem não tem força para vir porque não tem nenhum desejo ou vontade. Não é verdadeiro que ele viria se pudesse. É verdadeiro que ele poderia vir se quisesse. (??)”[5] Bispo Ryle, Expository Thoughts on the Gospels (1856-73; reimpresso Grand Rapids, 1900. vol. III, p. 383). ”

A “Confissão de Westminster”, uma proclamação pública da fé protestante de matriz calvinista, contrariando as Escrituras e a Escolástica Católica, também equivocamente afirma:

“Item III. O homem, devido à sua queda num estado de pecado, PERDEU COMPLETAMENTE TODA CAPACIDADE PARA QUERER ALGUM BEM ESPIRITUAL que acompanhe a salvação. É assim que, como homem natural que está inteiramente oposto ao bem e morto no pecado, não pode, por sua própria força converter-se ou se preparar para isso.”[6] (Cap. IX Do Livro Arbítrio, ano 1643-1.646).

Tal argumento é falso por conta da existência do idólatra.

O idólatra possui fervor, desejo e a disposição da vontade em buscar um bem espiritual. Mas ele não consegue reconhecer o Deus verdadeiro, e a verdade, por defeito de sua razão natural e pelo pecado que o impede de acessar de maneira perfeita e plena, a razão superior que está na imagem de Deus, presente em sua alma. O que acontece, é que cada um de nós quer, e almeja o bem próprio, embora busquemos, e queiramos realizá-lo nas coisas degradantes e ofensivas a Deus.

O bem próprio, gera o que a Escolástica chama por “bem aparente”.

Ensina novamente Santo Tomás de Aquino:

“Longe de sempre querer o verdadeiro bem, a vontade quer às vezes um bem aparente, nem que de algum modo não convém. (Suma Teológica. Q 19, art. 1º Livro IIa) ”

Bem aparente é o mal sob manto e aspecto de bondade, cujo apetite sensível da vontade, desordenado por causa da razão, capta como sendo algo bom, justo e frutífero. É, pois, um defeito mais da razão natural que por conta do pecado pode as vezes confundir o verdadeiro com o falso, do que da vontade propriamente em desejar apenas o mal.

O bem que procuramos a nós mesmos é o objetivo da vida humana, sendo a virtude basilar da qual dependerão dos todos os demais bens, como o amor ao próximo.[7]

É impossível amar ao próximo como a nós mesmos, se não nos amamos primeiro.

Em todo ser humano nascido com vida, lhe é impressa a imagem e semelhança de Deus. Por isso o homem, em sua relação consigo mesmo, jamais quis voluntariamente o mal ou a injustiça. Esse amor a nós mesmos, enquanto bem, ordenado pela vontade divina, é o amor a própria imagem de Deus que reside em cada um de nós, e que também requer ser amada no próximo.

O amor próprio enquanto virtude e o bem aparente, já seriam argumentos sólidos suficientes para derrubada da teoria da depravação total.

Todavia, há ainda o “bem contido”, de igual modo, fruto da imagem e semelhança de Deus em nós, a qual se mantém ativa após o pecado até mesmo nos mais perversos e atrozes. Nela habita o Espírito Santo que agirá para movê-los ao bem verdadeiro, puro, pleno e perfeito, convencendo-os do pecado e do juízo divino sobre os seus atos.

Sendo certo que o amor próprio enquanto virtude nos aproxima de Deus e do autentico Bem, é certo noutro flanco, que esse amor enquanto bem desordenado e corrompido, assume a forma do mal quando por conta da inclinação ao pecado, repudiamos, e deixamos de interagir com a imagem de Deus que ainda habita ativamente em nós.

Ora, é da imagem de Deus que além do “amor próprio” e do “bem aparente” surge também o amor contingenciado ou “bem contido. ”

Sendo Deus a suma bondade, a comunhão ou distância entre nós e sua imagem que há em nossa alma, ditará a aptidão de realizar o bem ou mal. Tanto o Bem, quanto o mal, participam da vontade e dos atos exteriores do ser humano em graus e níveis distintos, dando azo a méritos e deméritos igualmente distintos.

Pode-se voluntariamente atirar uma pedra contra outrem objetivando uma brincadeira grotesca; humilhá-lo; lesioná-lo ou matá-lo. Não podemos medir, pesar e julgar essas três ações ilícitas como se estivessem o mesmo nível intenso e absoluto de maldade. O que atirou por brincadeira tinha o bem contido em não querer humilhar, machucar ou matar. O que atirou para humilhar tinha o bem contido de não lesar, nem matar, e por fim, o que atirou a pedra para matar, embora não tivesse nenhum bem contido, agira por meio de um bem aparente, desordenado e corrompido em seus fins (mal em sentido estrito), quando, por exemplo, tentava fazer justiça pelas próprias mãos.

Quando o ser humano age mal, ele age sempre com o bem contido plantado nele pela imagem de Deus, no sopro espiritual, que traz desde o nascimento, com a qual, na morte, retornaremos à Ele.[8]

Diante disso, é fato que intensidade, grau e nível moral, ético, santo e os desvios, vícios e pecados em nossos atos exteriores, voluntários ou involuntários, dependerão da nossa relação íntima com a imagem de Deus existente em nossa alma, com a qual nascemos, e morremos.

Os níveis de malícia ou bondade oscilam, consoante a relação personalíssima que cada indivíduo mantém (ou não) com a imagem de Deus nele próprio:

Quanto mais próximo de uma causa, mais forte o efeito; e reciprocamente, quanto mais distante, mais frágil, insignificante e ineficaz.

Porventura, poderia a luz ser mais forte e pungente distante de sua fonte?

A fonte de Luz[9] que há em todos, mesmos nos mais perversos, é a imagem de Deus, aonde o Santo Espírito habita, para lhes convencer do pecado e do juízo de Deus sobre suas ações práticas:

“Quando Ele vier (Espírito Santo), convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo. (São João 7.8)”

Para convencer o pecador dos seus pecados, por pior que sejam as atrocidades cometidas, é necessário que essa imagem de Deus esteja ativa e impoluta dentro do próprio homem, ainda em estado pecaminoso.

E aonde habita a imagem de Deus, não há lugar para depravação radical ou total.

Em que pese nossa inclinação ao pecado após a queda de Adão e Eva, ainda somos a imagem e semelhança de Deus, como ensinou o Apóstolo:

“Quanto ao homem, não deve cobrir sua cabeça, porque é imagem e esplendor de Deus; a mulher é o reflexo do homem. (I Coríntios 11.7) ”

Até no homem carnal, pecador não confesso, a imagem de Deus está intacta e ativa, posto que não pode ser tocada, destruída ou apagada:

“A vós irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, MAS COMO A CARNAIS, como a criancinhas em Cristo […] não sabeis que sois o Templo de Deus, e que o ESPÍRITO DE DEUS HABITA EM VÓS? Se alguém destruir o tempo de Deus, Deus o destruirá, porque o Templo de Deus é sagrado – e isso, sois vós. (I Coríntios 3. 1, 16 e 17)

Nessa imagem está a sapiência extranatural ou razão superior, sendo ela “uma efusão de Luz eterna, UM ESPELHO SEM MANCHA da atividade de Deus, e uma imagem de sua bondade. ” (Sabedoria 7.26) Logo, o pecado não pode tocar na imagem de Deus, nem mesmo na que está no ser humano por semelhança, porque é o espelho de Deus, de sua infinita bondade, poder e misericórdia.

Em sentido contrário, Calvino ensinou que a imagem de Deus no homem está apagada e inerte (morta), e só nos “eleitos e salvos” ela subsiste:

“Enfim, assim como pela queda do primeiro homem pôde-se apagar de sua mente E DE SUA ALMA A IMAGEM DE DEUS, assim também não é de admirar se a alguns réprobos Deus ilumine com os raios de sua graça, os quais, mais tarde, permite que se extingam. ” (As Institutas Livro III cap. II p.)

Ora, uma imagem só se apaga quando a Luz que a projeta se extingue. A luz que é Cristo é imortal e eterna, e por isso, jamais cessará a refletir sobre as coisas por Ele criadas. Não é a imagem de Deus no homem que se corrige e aperfeiçoa, mas o próprio ser humano através dela:

“Mas todos nós temos o rosto descoberto, refletimos como num espelho a glória do Senhor e nos vemos transformados nessa mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pelo Espírito do Senhor. (II Coríntios 3.18) ”

“[…] revestes do novo, que se vai restaurando constantemente à imagem daquele que o enviou, até atingir o perfeito conhecimento. (Colossenses 3.10) ”

Como disse Santo Tomás:

“Por onde se diz, que no homem está a imagem de Deus, não perfeita, mas imperfeita.” (Suma Teológica 93, Q art. 1. Do Fim ou Termo da Produção do Homem)

Essa imagem de Deus, ou está nos restaurando à condição de santidade e justiça, quando livremente aceitamos a Graça de Deus[10]; ou então, como nos iníquos, ordenando o amor próprio, o bem aparente e contido aos fins que lhes são próprios, segundo a vontade de Deus, para tirar os pecadores da condição má, e conduzi-los ao estado beatífico.

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2019/02/05/a-predestinacao-anula-o-livre-arbitrio-o-que-a-igreja-ensina/

Explica-se, na última hipótese, o motivo pelo qual mesmo os maus e réprobos possam ter uma atitude moralmente legítima ou realizar coisas boas em várias situações. Não se pode dizer totalmente depravado o ato do indígena em estado famélico, que invés de praticar canibalismo e devorar seus filhos, se arrisca em caçar animais selvagens para matar a fome de seus rebentos. Tampouco que um anticristão não possa compor obras musicais, literárias e poemas que elevam nossa alma a Deus ou comédias que nos transmitam a alegria da vida.

As Escrituras nos dão exemplos de preceitos morais naturais, que são úteis tanto para os pagãos, quanto para os cristãos:

Toda mulher sábia edifica a sua casa; mas a tola a derruba com as próprias mãos. ” (Provérbios 14.1)

“Da mesma sorte as esposas sejam honestas, não maldizentes, sóbrias e fiéis em tudo. ” (1 Timóteo 3.11)

“E qual o pai de entre vós que, se o filho lhe pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou, também, se lhe pedir peixe, lhe dará por peixe uma serpente? Ou, também, se lhe pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Pois se vós, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais dará o Pai celestial o Espírito Santo àqueles que lho pedirem? (São Lucas 11. 10,13)

É inconteste que o ser humano, mesmo afastado ao máximo de Deus, tem intacta e ativa nele a imagem divina, a qual lhe faculta, ainda que negando ou desconhecendo ao seu Criador, reconhecer certa moral natural, e por ela expressar uma certa dignidade mínima a convivência social, familiar e individual, ainda que esses atos morais não o tornem justo, nem apto para salvação.

Outra vez, denota-se equivocada a radicalização da maldade no ser humano ainda não restaurado do pecado, conforme anotou Calvino:

“Agora, porém, quando, em razão da depravação da natureza, todas as faculdades estão a tal ponto viciadas e corrompidas que em todas as ações sobressai a perpétua desordem e imoderação. ” (As Institutas Livro III cap. III p. 81)

“Ou, caso se prefira ter a síntese da matéria em menos palavras, ensinamos que são maus todos os desejos naturais dos homens e os pronunciamos culposos de pecado, não pelo fato de serem naturais, mas porque são desregrados. ” (As Institutas Livro III cap. III p. 81)

Uma coisa é inclinação ao pecado; outra a depravação total de todos os pecadores.

Notando indefensável essa tese, calvinistas modernos, na tentativa de preservar sua doutrina, reconhecem a impropriedade de uma total depravação, dada a possibilidade das condutas morais dos não santificados em Cristo. Todavia, é insustentável também a ideia dos que defendem que Deus não insere nos maus, o bem que os move a praticar, posto que ação da Graça Divina em relação depravados seria apenas externa e temporária, e só para conter todo mal que há neles, o qual sem essa ação piedosa seria absoluto, como o próprio Calvino ensinava:

“[…] assim também não é de admirar se a alguns réprobos Deus ilumine com os raios de sua graça, os quais, mais tarde, permite que se extingam. Tampouco coisa alguma impede que Deus a uns tinja levemente de conhecimento de seu evangelho, a outros infunda profundamente. Isto, contudo, devesse manter: por mais exígua e débil que a fé seja nos eleitos, entretanto, uma vez que o Espírito de Deus lhes é o seguro penhor e selo de sua adoção [Ef 1.14], jamais se pode apagar de seus corações o que ele neles gravou. Quanto à iluminação dos réprobos, finalmente se dissipa e perece” (As Institutas Livro III, cap. II, p.)

De início, convém esclarecer que o Magistério Infalível da Santa Sé, sempre ensinou que todo bem ou boa dádiva no ser humano, seja ele santo ou profano, provém exclusivamente de Deus, conforme já proclamado no Concílio de Orange (ano 529).

“O homem nada faz de bom exceto aquilo que Deus ocasionou” (Cânon 20), ou seja, lhe proporcionou realizar, e não que Deus realizou no lugar deles.

O Concílio de Trento (ano 1.545) reafirmou esse dogma: 

“Se alguém disser que sem a inspiração preveniente do Espírito Santo e sem o seu auxílio, pode o homem crer, esperar e amar ou se arrepender como convém para lhe ser conferida a graça da justificação, seja excomungado” (Cânon 3)

O que distancia a Escolástica Católica do calvinismo, inclusive em suas bifurcações no neocalvinismo ou calvinismo moderado, defensor da depravação radical, é que esses sistemas sustentam que a Bondade e o Bem de Deus estará no pecador inconfesso sempre como um fator externo, sendo que esse pecador jamais será chamado a participar desse Bem, e convidado por Deus para se inserir no âmbito dessa Bondade.

Nitidamente colhemos essa ideia das palavras dos autores da obra de Calvino, quando tentam explicar a retidão e a bondade nos ímpios como uma ilusão momentânea, quando então Deus os ilumina “com os raios de sua graça, os quais, mais tarde, permite que se extingam”.

Mas não é isso que ensinam o Magistério da Igreja e as Escrituras:

“Sendo que somos COOPERADORES[11] com Ele, nós exortamos também para que vocês NÃO RECEBAM A GRAÇA DE DEUS EM VÃO. ” (II Coríntios 6,1-2) ”

Concílio de Orange (ano 529):

“Enquanto praticamos o bem Deus opera em nós, e conosco, de forma que possamos praticá-lo” (Cânon 9)

Ora, os bens que emanam da imagem de Deus nos devassos e iníquos (amor próprio; bem aparente e contingente), ainda que imperfeitos, tornando-se mal em seu objeto final, são elementos ascéticos necessários para que o indivíduo possa atingir em elevação espiritual, pela Graça de Deus, o bem necessário a lhes comandar à servidão da vontade Divina que lhes trará a salvação. Portanto, esses bens não são lampejos, reflexo externos de Deus no homem, mas a própria essência de Deus em todos nós, a partir de sua imagem.

O homem foi criado a imagem e semelhança de Deus, porque fora criado para a prática do Bem, pois Deus é Bom.

Não por outro motivo é que o bem está na essência do ser humano.

Tem-se por essência (esser) a consistência, quididade e a natureza do próprio ser, aquilo sem o qual, o ser não é ele, senão outra coisa.[12]

Os atos do ser não poderão destoar dessa sua essência, pois é característica de todo ser, comportar-se conforme os ditames de sua natureza.

A imagem de Deus, aonde reside a bondade e a razão superior, que é o que nos permite interagir com o Espírito Divino, está na natureza humana enquanto essência:

“Pois quem conhe­ce as coisas que há no homem, senão o espírito do homem que nele reside? Assim também as coisas de Deus ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus.” (I Coríntios 2) ”

Já o pecado encontra-se na natureza humana enquanto acidente.

Tem-se por acidente, tudo aquilo que se acrescenta a natureza do ser, e que pode ser retirada sem prejuízo aquilo que ele é.[13]

O pecado, portanto, pode (e deve) ser retirado da natureza humana, sem prejuízo ao sujeito.

Depreende que a Graça de Deus, a qual dispõe os santos a prática da santidade, e também os pagãos, os infiéis, incrédulos e até os profanos e devassos aos atos dignos, atua de dentro da própria natureza humana. É no âmbito dessa natureza humana, que ação de Deus move o indivíduo, tanto para os atos da natureza moral, quanto para os atos que estão além da capacidade natural do ser humano.

Por corolário, se o homem mal não é levado à participar da Bondade de Deus, para que através dessa Bondade gratuita ele seja movido à salvação, e se esse mesmo Deus dá aos perversos, certa Graça, e certa Bondade, mas impede que essas virtudes os conduzam ao desejo de querer o caminho do crescimento espiritual e da santidade necessária a salvação, então Deus é o responsável pelo pecado e pela perdição deles, por lhes negar o Bem, infringindo assim, a sua própria lei eterna:

“Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado. (São Tiago 4.17) ”

Ora, só a um “deus demônio” que tem prazer sádico à perversidade e ao malogro de suas criaturas, se pode se imputar tal conduta.

Essa doutrina calvinista, portanto, nada mais é que uma teoria humana deturpada sobre Deus, e sobre a verdade revelada.

Se somente atuando externamente é que Deus contém a maldade humana, e não pela razão interior e superior gerada de sua imagem dentro de cada pecador, forçoso concluir que a pessoa humana está fadada a jamais obter a comunhão com Deus nesta vida, pois como disse o Apóstolo, “que comunhão poderá advir da Luz com as trevas? (II Cor 6.12)

Não por outra razão, a doutrina calvinista também nega a comunhão perfeita do ser humano com Jesus Cristo, em suas duas naturezas, Humana e Divina, presente na Eucaristia por meio da transubstanciação. (Institutas vol. IV cap. VII):

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/08/09/a-eucaristia-e-o-memorial-do-corpo-de-cristo-presente/

“O cálice de bênção, que benzemos, não é a comunhão do sangue de Cristo? E o pão, que partimos, não é a comunhão do corpo de Cristo? (I Coríntios 10, 16)”

Por essa situação, não pode haver adesão com a teoria da depravação radical ou total, ou dizê-la compatível e similar com a Escolástica e com a sã Doutrina Católica Apostólica Romana. Colocar que seja o ser humano total ou radicalmente depravado, implica colocá-lodo em condição inferior aos irracionais. 

Se até as fêmeas animais, que se lançam contra o predador para defesa de suas crias praticam ato digno a luz da lei natural, não podendo, as bestas-feras serem tidas por depravadas completamente, dirá o ser humano feito para o amor, e para tanto, concebido a imagem e semelhança de Deus.

—————————

[1]        Conjunto de ideias, opiniões e crenças que formam o sistema religioso cismático, criado por Calvino, e seus seguidores no século XIV em Genebra. Durante sua existência, vem sofrendo inúmeras alterações em sua essência, subdividindo-se. Ultimamente, seguimentos revisaram seus conceitos, e pode se dizer, que hoje é subdividido em hipercalvinismo, o qual defende depravação total na inabilidade humana para realização de qualquer ato de bondade; calvinismo moderado e neocalvinismo, os quais defendem a “depravação radical”, que na verdade, é a teoria da depravação total com certas reservas de possibilidades de atos bons e justo por parte do ser humano. Todavia, defendem tal ponto de modo contrário a sã doutrina.

[2]       Santo Agostinho in De Malo. Q 2 e 3.

[3] Razão natural é todo conhecimento que o ser humano pode alcançar apenas por seus sentidos e faculdades ordinárias (naturais), tais como, a consciência intelectual, os atos da moral, da ética natural e dos afetos dignos e saudáveis.

[4]  Filosofia Cristã Católica que logrou êxito em harmonizar a fé com a razão, tendo seu apogeu no século 12, com Santo Tomás de Aquino.

[5]       O texto é confuso, incongruente. Daí nossas interrogações.

[6]        Isso a Doutrina Católica já defendia como Dogma da fé, muito antes do surgimento de Calvino.

[7]       Mt 22. 34  

[8]  E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu. (Eclesiastes 12.7)

[9] “Eu sou a LUZ do mundo. ” (São João 8.12)

[10] A graça é favor, o socorro gratuito que Deus nos dá para responder a seu convite: tomar-nos filhos de Deus, filhos adotivos participantes da natureza divina, da Vida Eterna. (Catecismo § 1.996)

[11]     Cooperadores não como pensavam os Pelagianos e os semipelagianos, que o homem tem o primeiro ato, e a iniciativa para a ação da salvação em sua vida. A cooperação não é ativa, mas passiva. Se o homem participou da corrupção do pecado, para justiça perfeita, deve participar da remissão.

[12] A estrutura ossuosa é a essência dos animais vertebrados, pois do contrário, não seria vertebrado.

[13]     A cor é um acidente no objeto. Poderá ser retirada, ou substituída, em que isso importe alteração no objeto.

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