Protestantismo

EXISTE CONTRADIÇÃO ENTRE PAULO (JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ) E TIAGO (JUSTIFICAÇÃO PELAS OBRAS) COMO AFIRMOU LUTERO? O EQUÍVOCO DO PENSAMENTO REFORMADOR, À LUZ DA ESCOLÁSTICA E DAS ESCRITURAS.

“Foi PELA sua FÉ que Abraão, SUBMETIDO A PROVA, ofereceu Isaac, seu único filho, depois de ter recebido a promessa e ouvido as palavras: Uma posteridade com o teu nome te será dada em Isaac. (Hebreus 11.17 e 18).” “Porventura, não foi na PROVA que Abraão permaneceu fiel? E não lhe foi isso imputado em JUSTIÇA? (I Macabeus 2. 52)" "Vês como A FÉ COOPERAVA COM AS SUAS OBRAS E ERA COMPLETADA POR ELAS. (São Tiago 2, 22)"  

tiago james

Todo ato humano é uma exteriorização das disposições contidas na vontade e no intelecto.

Toda obra, por seu turno, é o conjunto dos atos visíveis e invisíveis[1] ordenados a consecução de um fim, atingindo um certo propósito, criando, alterando, extinguindo ou impedimento o nascedouro de uma realidade. É, portanto, esta realidade (positiva ou negativa) que sustenta a ideia e o pensamento, tornando substancial o argumento, conforme a lógica incontestável, a qual se opõe a falsa retórica e ao sofisma.[2]

É certo que a fé consiste num dom Divino infuso nos indivíduos, que os move a unirem-se a Deus, tornando unas as vontades e ações dos fiéis, com a vontade e ação Divina.[3] Neste compasso, entender a natureza da fé e dos atos humanos[4] é de fundamental importância para compreensão da ação justificadora da graça de Deus sobre os indivíduos, bem como, a inexistência de contradição entre São Paulo e São Tiago, quanto ao modus operandi da justiça Divina sobre a humanidade.

Disse São Tiago:

“Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, oferecendo o seu filho Isaac sobre o altar? (São Tiago 2, 21)

“Vedes como o homem é justificado pelas obras e não somente pela fé? (São Tiago 2, 24)”

Já São Paulo pontua que:

“Ora, que diz a Escritura? Abraão creu em Deus, e isso lhe foi “imputado em conta” de justiça. (Romanos 4. 3 e 4)”

“Ante a promessa de Deus, não vacilou, não desconfiou, mas conservou-se forte na fé e deu glória a Deus. Estava plenamente convencido de que Deus era poderoso para cumprir o que prometera. Eis por que sua fé lhe “foi contada” como justiça. (Romanos 4. 20 a 23)”

“Quando ela (justiça) foi imputada? Antes ou depois da circuncisão? Depois é que recebeu o sinal da circuncisão, como selo[5] da justiça que tinha obtido pela fé, antes de ser circuncidado. (Romanos 4.10) ”

Martinho Lutero, pai do protestantismo, opinou sobre a aparente contradição no trato do tema entre os dois apóstolos:

“[…] exalto essa epístola de Tiago e a considerado boa […] mas vigorosamente, propugna a lei de Deus. Para fundamentar minha opinião, não a considerado escrito apostólico, pelas seguintes razões. Em primeiro lugar, contrariando frontalmente S. Paulo e toda escritura, ele imputa justiça às obras, dizendo que Abraão teria se tornado justo por suas obras ao sacrificar seu filho. Enquanto isso, S. Paulo, em romanos, ensina que Abraão teria se tornado justo sem obras, exclusivamente por sua fé, pois sua justificação ocorre antes dele sacrificar o filho. […] Esse Tiago não faz outra coisa, senão promover a lei e as obras. ” (Obras Selecionadas, vol. VIII. Comentários ao Novo Testamento – Prefácio as epístolas de Judas e Tiago, ano 1.546, p. 153 e 154, tradução: Walter Schlupp)

E ainda:

“Daí sucede que somente a fé justifica. ” (Obras Selecionadas, vol. VIII. Comentários ao Novo Testamento – Prefácio as epístolas de Judas e Tiago, ano 1.546, p. 131, tradução: Walter Schlupp)

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No âmbito da sua incapacidade de harmonizar o pensamento paulino com o escólio de São Tiago, opta o reformador, por escolha caprichosa e puro arbítrio de opinião, descredenciar a autoridade deste último ao afirmar, segundo sua ótica particular sobre carta de Paulo aos romanos, que “somente pela fé” o ser humano é justificado[6], como teria ocorrido com Abraão, segundo sua tese.

Tal é matriz da teoria da sola fide,[7] a qual defende a ideia de que a fé seria a condição única e bastante para que o homem se tornasse justo diante de Deus, haja vista, que Abraão ao que parece, fora justificado antes de sua circuncisão e do sacrifício de Isaac.

Mas essa tese padece de irremediável defeito e incurável incorreção, diante da não percepção de que a justiça da fé, outrora atribuída a Abraão, lhe fora conferida a título de fiança (em conta), pois haveria de ser confirmada (provada).

Afirmou São Paulo:

“Mas aquele que sem obra alguma crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é IMPUTADA EM CONTA de justiça.” (Romanos 4.5)

A expressão “em conta”, no grego, logizomai (λογίζομαι)[8], implica ser creditada, suposta ou confiada para ocasião oportuna.

Noutra mira, proclamou ainda o apóstolo:

“Foi PELA sua FÉ que Abraão, SUBMETIDO A PROVA, ofereceu Isaac, seu único filho, depois de ter recebido a promessa e ouvido as palavras: Uma posteridade com o teu nome te será dada em Isaac. (Hebreus 11.17 e 18). ”

O termo “a prova” na língua grega, peirazó (πειράζω)[9], denota a condição precária de uma situação, à mercê de ser testada para ser validada.

Disto ensinou Tiago:

“Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obras vã? Vês como A FÉ COOPERA COM AS SUAS OBRAS E ERA COMPLETADA POR ELAS. (São Tiago 2.18)”

Ora, uma fé estéril, impossibilitada de ser exteriorizada na prática por efeitos úteis e justos, é vã, não disposta na vontade, nem no intelecto, posto que ainda não nascida na alma.

É pela fé, confirmada pelos atos, que se alcança um fim, e juntos, portanto, a fé, a obra da fé e o fim último que é a vontade divina, concorreram para realização da perfeita e eficiente ação justificatória de Deus sobre Abraão, como assim também farão em relação a todo ser humano.

Se o indivíduo peca em ato, a ação de sobre ele para justificá-lo, só é reparável em ato.

Para concretude desse dogma, mister a análise pormenorizada dos principais acontecimentos que circundaram Abraão, levando-o a condição de justo diante de Deus.

A primeira análise implica identificar o objeto finalístico da justiça, conforme o propósito de Deus.

O passo seguinte será identificar a realidade que conduziu Abraão ao propósito justo, e, por fim, identificar a causa (motora) que moveria essa realidade.

De modo algum, em sã consciência, alguém ouse afirmar que era desejo de Deus causar a morte de Isaac pelas mãos de seu pai, Abraão, para só assim, imputar-lhe justiça.

O propósito do Criador era mostrar o sacrifício de Cristo através da pessoa de Isaac, e não o sacrifício de Isaac, propriamente dito, conforme testemunhado pelo próprio Cristo:

“ABRAÃO VIU O MEU DIA e rejubilou. ” (São João 8. 56)

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/10/02/abraao-viu-o-meu-dia-jo-8-56/

O fato mais importante da revelação de Deus à Abraão, portanto, era prefigurar, e mostrar na pessoa de Isaac, o sacrifício do Cordeiro, no qual somos salvos. Todas as bênçãos dadas ao patriarca, desde a promessa de grande descendência até a terra prometida, e mesmo o nascimento de seu primogênito legal[10], Isaac, foram em razão disto. Mostrar na pessoa de Isaac, um filho único e primogênito, cujo nascimento fora anunciado por Deus[11], e que por obediência ao pai (Abraão) aceitou o madeiro sobre seus ombros,[12] subiu ao cume de um monte, assentou-se sobre um altar de rocha e colocou sua vida à disposição do pai para o sacrifício[13].

Em nenhum momento, Deus condiciona a participação de Abraão em sua Justiça, através da morte de Isaac, mas da morte vindoura do próprio Cristo.

Não se cogita, portanto, de qualquer inutilidade da obra abraâmica por não ter consumado a morte de Isaac, vez que só não se produziu tal óbito, exatamente, pela intervenção divina que impediu o sacrifício, provando que não era desejo de Deus a consumação deste sacrifício:

“Abraão, eis me aqui! Não estendas a mãe contra o menino, e não lhe faças mal. Agora eu sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu próprio filho, teu único filho. (Gênesis 22. 11 e 12) ”

Assim, Abraão, pela obra da obediência, e não pela morte sacrificial de Isaac, confirmou sua condição de justo em Deus, que por meio da subordinação desse patriarca, revelou sua justiça aos povos, dando um ensaio do sacrifício vindouro de seu próprio Filho Divino.

Partido da obediência, analisemos o segundo ponto que tange na realidade na qual estava inserido Abraão.

É certo que para tornar esta obediência realidade, o patriarca inseriu-se num contexto de ações concretas pelas quais, após imputado (apontado), fora atestado (confirmado) por justo diante de Deus. A confirmação da justiça de Deus em Abraão, no entanto, não poderia decorrer por teoria hipotética, mera ficção não expressada no mundo real mediante atos, atitudes e decisões de vida.

Do contrário, bastaria Deus lhe indagar:

“ —  Abraão, você crê em mim?

E ele responderia: —  sim, meu Senhor!”

Então tudo se resolveria no imaginário e a justiça, nele, seria apenas imputada, mas nunca certificada.

Todavia, as virtudes internas de Abraão, provenientes de seu credo, exigiam-lhe manifestações explícitas e reais desta fé por meio de atos práticos, que incluiriam condutas reais e vívidas.

Ora, não pode haver virtude diversa do seu ato.

O fiel não pode agir pelas obras da infidelidade, nem o infiel pelas obras da fé, assim como o justo, que ou se consolida na feitura dos atos da justiça, ou se perde na omissão deles.

Ensinou Santo Tomás, o mestre maior da Escolástica:

“A fé interna, mediante o amor, causa todos os atos virtuosos exteriores, mediante todas as outras virtudes, imperadas e não ilícitas. ” (Suma Teológica Q 3. Do Ato Exterior da Fé. Art. 2)

Como fiel a Deus, Abraão evidenciou todo seu amor e obediência, amando Deus sobre todas as coisas, ao ponto de se dispor em dar início ao sacrifício do próprio filho, para que o mandamento divino não fosse frustrado:

“É nisso que se conhece quais são os filhos de Deus e quais os do demônio: todo o que não pratica a justiça não é de Deus, (I São João 3, 10)”

Disso resultou numa série de decisões e atos palpáveis, dentre eles, ter levado Isaac até o local do sacrifício almejando ceifar-lhe a vida[14]; iniciando os atos necessários a execução da morte sacrificial de seu filho,[15] preparando-lhe o golpe fatal com um punhal.

Conclui-se que se em Isaac, a finalidade de Deus era apenas realizar um ensaio do sacrifício de Cristo, os meios para esse fim foram os atos concretos, sólidos e materiais nos quais Abraão, pai de Isaac, confirmou-se na Justiça divina, na qual outrora já havia sido imputado.

Só após Abraão ter se disposto a sacrificar seu filho, e, de fato, praticados os atos que permitiriam levar a morte de seu primogênito (caso o anjo não intervisse), é que Deus lhe abençoa, e lhe ratifica na condição justa. O que Deus considerou para completar a justificação do patriarca, é que este, por obediência, não se recusou em ofertar seu filho Isaac em sacrifício, sendo que a fé restou provada nas ações concretas e atitudes ativas de Abraão, atestando sua fidelidade a Deus:

<“não me recusaste teu filho, TEU ÚNICO FILHO, eu te ABENÇOAREI”> (Gênesis 22.16)

São Tiago jamais afirmou, como acusa em falso Lutero, que a justiça estava em Abraão por causa das Obras da Lei, mas porque este demonstrou sua fé em Deus em sua obra de obediência a essa fé, amando-o mais que ao próprio filho:

“Abraão, nosso pai, não foi justificado pelas obras, oferecendo o seu filho Isaac sobre o altar? (São Tiago 2, 21) ”

“Mostra tua fé sem obras, e eu TE MOSTRAREI A MINHA FÉ PELAS MINHAS OBRAS. (São Tiago 2.18) ”

Não uma fé inoperante, mas uma fé que no amor a Deus produziu frutos da obediência que conduziram Abraão a prática da justiça, por estar na condição de justo pela graça divina.

Nesta esteira, aliás, ensinou São Paulo:

“Estar circuncidado ou incircuncidado de nada vale em Cristo Jesus, mas a fé que OPERA PELO AMOR. (Gálatas 5.6)”

De igual modo ao apóstolo São João, Tiago não ensinou que por haver imputação da justiça por causa de uma fé antecedente, as obras subsequentes da fé seriam inúteis a consolidar a justificação de Abraão:

“Se sabeis que ele é justo, sabei também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele. (I São João 2, 29)”

Não tivesse havido o ensaio do sacrifício de Cristo através dos atos que levaram Isaac até o local onde seria abatido, por certo Abraão não seria abençoado, nem confirmado na condição de justo por Deus. Não por outra razão, Deus lhe exigiu mais que uma mera manifestação abstrata da fé:

“Abraão OBEDECEU à minha voz e OBSERVOU os meus PRECEITOS, meus MANDAMENTOS e MINHAS LEIS. ” (Gênesis 26.5)

“Filhinhos, ninguém vos seduza: aquele que pratica a justiça é justo, como também (Jesus) é justo. (I São João 3, 7)”

Citando novamente São Paulo, a fé pela qual a justiça fora imputada a Abraão, haveria de ser provada no sacrifício de Isaac:

“Foi PELA sua que Abraão, SUBMETIDO A PROVA, ofereceu Isaac, seu único filho, depois de ter recebido a promessa e ouvido as palavras: Uma posteridade com o teu nome te será dada em Isaac. (Hebreus 11.17 e 18). ”

Tal ensino reprisa o que antes, o Livro dos Macabeus já tinha proclamado:

“Vês como A FÉ COOPERAVA COM AS SUAS OBRAS E ERA COMPLETADA POR ELAS. (São Tiago 2, 22)”

“Porventura, NÃO FOI NA PROVA que Abraão permaneceu fiel? E não lhe foi isso imputado em justiça? (I Macabeus 2. 52)”

Ora, de modo algum se ouse dizer que São Tiago negava que a fé de Abraão teria sido útil para imputação da sua condição de justo diante de Deus:

“Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus. (São Tiago 2. 23)”

Mas como ensinaram os Macabeus e São Paulo, o que confirmou, atestou e ratificou a justiça de Deus em Abraão, foram atos e obras visíveis da sua fé invisível, movendo os seus atos e obras provenientes desta fé, em direção a Justiça de Deus. (Hebreus 11.1).

Temos aí, na fé, aquilo que moveu os atos que a mantiveram, e confirmaram Abraão na condição de justo.

Mas uma coisa não é a fé, e outra os frutos dela.

Acaso uma árvore pode dar frutos que não tirem dela a mesma essência e substância? Não está no fruto, a semente que gerará outra árvore de idêntica natureza da qual proveio o fruto? Sendo a fé um dom divino, não poderia produzir fruto algum que também não tivesse a mesma natureza de dom de Deus. Logo, toda obra que a fé produz não é obra de homem, mas a própria ação de Deus, concebida através das ações humanas.

Nisto repousa, basicamente, a distinção entre o que defende a teologia reformada e a Escolástica.

Difere a fé da obra, porque toda obra é nítida, concreta e material, em contrapartida da fé que é, por natureza abstrata e imaterial.

Mister assim, estabelecer a distinção escolástica entre obras humanas e obras da fé (obras preceptivas da fé).

Obra humana é tudo aquilo que o homem pode alcançar, e pelo qual realiza e progride por si mesmo, sendo sua espécie as obras da antiga lei mosaica, como a circuncisão.

São meros atos da natureza moral ou legal.

Mas em momento algum, repito contra os que acusam São Tiago, ele disse da justificação pelas “obras da lei” ou pelas “obras da natureza humana”, senão apenas pelas “obras da fé”.[16]

Sobre os atos da fé, ensinou Santo Tomás de Aquino:

“Crer depende, sem dúvida, da vontade do crente. Mas, é necessário seja a sua vontade preparada pela graça de Deus, para poder elevar-se ao que lhe excede à natureza, como já dissemos. ” (Suma Teológica. Art. 1. Da Causa da Fé, Q 6)

Ora, para um homem amar a Deus sobre todas as coisas, ao ponto de aceitar a possibilidade de vir a matar seu próprio filho por obediência à vontade Divina, devem as suas atitudes estarem firmadas em algo muito além das faculdades legais ou morais do ser humano. Esse algo, por óbvio, é a fé, e o santo apóstolo não nega esse fato:

“Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus (São Tiago 2. 23).”

Sendo a fé puro dom de Deus,[17] é certo que não pode produzir frutos que não tenham idêntica natureza, posto que todo fruto possui a mesma substância da árvore da qual emana.

Portanto, afirmar como fez Lutero, que “somente a fé abstrata” teria operado a Justiça completa sobre Abraão, e que toda obra de obediência e servidão que o levou a erguer um punhal, e iniciar o golpe fatal contra seu filho Isaac seria inservível a justiça de Deus para com o patriarca, é um gravíssimo impropério.

Ensinou Santo Tomás de Aquino:

“O fim da fé, como das outras virtudes, deve referir-se à caridade, que é o amor de Deus e do próximo. Quando a honra de Deus ou a utilidade do próximo exige, não devemos nos contentar porque pela nossa fé estamos unidos a verdade divina, mas devemos confessá-la exteriormente. ” (Suma Teológica Q 3. Do Ato Exterior da Fé. Art. 2)

E ainda:

“Dentre as virtudes, a principal é a justiça que nos ordena. ” (Suma Teológica Q 181. Da Vida Ativa. Art. 1)

A fé invisível, é, portanto, causa motora e primária dos atos visíveis da fé, os quais conduziram Abraão a ser confirmado, e atestado por justo diante de Deus, no encerramento de sua jornada profética no sacrifício de Isaac.

Evidente que essa é a verdade que a Igreja sempre ensinou, e que está subsidiada no fato de que, quando São Tiago fala da obra que justifica, não está excluindo dessa obra a fé, como também não está dizendo por inúteis e imprestáveis os atos de obediência praticados por Abraão, e que o levaram a não negar seu filho em sacrifício, assim como o próprio Deus faria, no futuro, com Cristo, atingindo assim, o patriarca, por meio das obras da fé, o propósito final da vontade divina, o que o ratificou como justo.

Assim é o testemunho, não apenas de São Tiago, mas também das Escrituras:

“Assim se cumpriu a Escritura, que diz: Abraão creu em Deus e isto lhe foi tido em conta de justiça, e foi chamado amigo de Deus (São Tiago 2. 23).”

“De que aproveitará, irmãos, A ALGUÉM DIZER QUE TEM FÉ, SE NÃO TIVER OBRAS?  Acaso ESTA FÉ PODERÁ SALVÁ-LO? (São Tiago 2. 14) ”

“Assim, TAMBÉM A FÉ: SE NÃO TIVER OBRAS, É MORTA em si mesma. (São Tiago 2, 17) ”

“Mas alguém dirá: Tu tens fé, e eu tenho obras. Mostra-me a tua fé sem obras E “EU TE MOSTRAREI A MINHA FÉ PELAS MINHAS OBRAS. (São Tiago 2.18) ”

“Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obras é vã. Vês como A FÉ COOPERAVA COM AS SUAS OBRAS E ERA COMPLETADA POR ELAS. (São Tiago 2, 22)”

Também São Paulo, quando fala da fé, não está excluindo desta as obras dela provenientes, mas dizendo da justiça divina, em sua origem e causa primária, a mover a conduta humana nas obras dessa da fé, nas quais somos confirmados na justiça de Deus pelo cumprimento da Lei maior, que se cumpre amando a Deus sobre todas as coisas.

Assim é o testemunho, não apenas de São Paulo, como também das Escrituras.

Nisto, percebe-se que nem São Paulo, nem os santos profetas defendiam somente a fé e a inutilidade das ações que dela se originam:

“Porque os que OUVEM A LEI NÃO SÃO JUSTOS DIANTE DE DEUS, MAS OS QUE PRATICAM A LEI HÃO DE SER JUSTIFICADOS. (Romanos 2, 13) ”

“FELIZ O JUSTO, PARA ELE O BEM; ele COMERÁ o FRUTO de SUAS OBRAS. ” (Isaías 3.10)

“O JUSTO VIVERÁ  PELA FÉ. (Romanos 1.17) ”

“ANDANDO NOS MEUS ESTATUTOS, e GUARDANDO os meus juízos, e PROCEDENDO segundo a verdade, O JUSTO CERTAMENTE VIVERÁ, diz o Senhor DEUS. (Ezequiel 18-0) ”

“Com efeito, diante de Deus, nosso Pai, pensamos CONTINUAMENTE NAS OBRAS DA VOSSA FÉ, nos sacrifícios da vossa caridade e na firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo, sob o olhar de Deus, nosso Pai. (I Tessalonicenses 1.3) ”

“Porque também nós outrora éramos insensatos, rebeldes, transviados, escravos de paixões de toda espécie, vivendo na malícia e na inveja, detestáveis, odiando-nos uns aos outros. Mas um dia apareceu a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com os homens. E, NÃO POR CAUSA DE OBRAS DE JUSTIÇA (lei mosaica da circuncisão, guarda de sábados etc) que tivéssemos praticado, mas unicamente em virtude de sua misericórdia, ele nos salvou mediante o batismo da regeneração e renovação, pelo Espírito Santo, que nos foi concedido em profusão, por meio de Cristo, nosso Salvador, para que a justificação obtida por sua graça nos torne, em esperança, herdeiros da vida eterna. Certa é esta doutrina, e quero que a ensines com constância e firmeza, PARA QUE OS QUE ABRAÇARAM A FÉ EM DEUS SE ESFORCEM POR SE APERFEIÇOAR A SI MESMOS, NA PRÁTICA DO BEM. Isto é bom e útil aos homens. (Efésios 3. 4, 5, 6, 7 e 8) ”

“Caríssimo, FAZES OBRAS DE FÉ EM TUDO o que realizas para os teus irmãos. (III João 1,5) ”

Nisso então, denota-se incólume a autoridade da Carta de São Tiago, e sua harmonia com a Carta de São Paulo aos romanos, e todo conjunto escriturístico, como aliás, já proclamou a Igreja, no exercício de sua Autoridade, dada pessoalmente por Cristo.

A “autoridade” de Lutero ou qualquer outro reformador, para insurgir-se contra aquilo que não compreende, e optar somente pela fé em detrimento da utilidade das obras oriundas da fé, é a mesma que qualquer um de nós teríamos para excluir a fé, e afirmar apenas a caridade como útil a Deus, ou mesmo negar ambas, ou seja, nenhuma autoridade.

Depreende, portanto, que quando as Escrituras dizem “justificado pela fé” não se deve absolutamente, entender “justificado SOMENTE pela fé”; da mesma forma que quando diz “justificado pelas obras” não se deve compreender que alguém possa estar “justificado SOMENTE pelas OBRAS” ou “por obra humana ou obra da lei”.

Tanto a fé, quando a obediência que formata os atos que procedem desta fé, colaboram e cooperam, concomitantemente, para justificar os santos de Deus.

Assim ensinaram os antigos:

“13,1. Pelas palavras do Senhor mostra-se que ele não aboliu, mas ampliou e completou os preceitos da lei natural que justifica o homem; preceitos que eram observados, mesmo antes do dom da lei, pelos que eram justificados pela fé e agradavam a Deus. “Foi dito aos antigos”, ele diz, “Não cometerás adultério. Mas eu vos digo que todo aquele que olhar uma mulher com desejo de possuí-la, já praticou adultério no seu coração”. E ainda: “Foi dito: ‘não matarás’. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encolerizar com seu irmão, sem motivo, será réu de juízo”. (Santo Irineu de Lion, Contra as Heresias. Livro IV, p. 223, ano 130-202)

“11.1. O próprio Apóstolo afirma aos coríntios: “Então não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos iludais, diz, nem os impudicos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os depravados, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os injuriosos herdarão o reino de Deus.” E alguns de vós, diz: mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em nome do Senhor Jesus Cristo e do Espírito de nosso Deus.” Com estas palavras, indicam de maneira evidente o que arruína o homem, se continua a viver segundo a carne e aquilo que o salva”. (Santo Irineu de Lion, Contra as Heresias. Livro V, p. 315, ano 130-202)

Sendo Lutero, um monge agostiniano, deflui-se que o mesmo se negou a seguir o conselho de seu mestre Santo Agostinho:

“3. Quem já entendeu que há justificação pela fé, não pelas obras, note o sorvedouro de que falei: Vês, pois, que Abraão foi justificado, não pelas obras, mas pela fé. Então posso fazer o que quiser; apesar de não ter praticado boas obras, somente se acreditar em Deus, isso me será reputado em conta de justiça. Se alguém assim falar e decidir, cai e submerge; se ainda pondera e hesita, expõe-se a grande perigo. A Escritura de Deus, porém, bem interpretada, não só livra o periclitante, mas ainda retira do abismo quem nele mergulhou. Respondo, por isso, numa espécie de réplica ao Apóstolo, dizendo acerca de Abraão o que se encontra também na epístola de outro apóstolo, o qual queria corrigir os que haviam entendido mal o apóstolo Paulo. Efetivamente Tiago, em sua epístola, impugnando os que presumiam da fé apenas, sem as boas obras, recomendou as obras do mesmo Abraão, cuja fé Paulo destaca. Mas, os apóstolos não estão se contradizendo. S. Tiago refere-se à obra notória a todos de Abraão, ao oferecer seu filho em sacrifício a Deus (Tg 2,21). Obra grandiosa, mas oriunda da fé. Aprovo o edifício em cima, mas vejo em baixo os alicerces da fé. Louvo o fruto da boa obra, mas reconheço como raiz a fé. Se Abraão agisse assim, deixando de lado a fé verdadeira, nada lhe adiantaria a obra, por melhor que fosse. Ainda mais. Se Abraão conservasse a fé, ao lhe ordenar Deus oferecesse seu filho em sacrifício, mas dissesse a si mesmo: Não faço, e, no entanto, acredito que Deus me livrará, mesmo enquanto desprezo suas ordens. A fé sem as obras estaria morta, e como raiz infrutífera ficaria estéril e seca. (Santo Agostinho. Comentário aos Salmos p. 215, Livro II – Sermão ao Povo – Enarrationes in Psalmos I à LX)

Queda-se assim, totalmente, o argumento da sola fide de Lutero, de que Abraão fora justificado apenas e tão “somente” pela fé.

Ainda sobre o tema, veja:

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/07/13/podemos-ser-justificados-diante-de-deus-por-uma-fe-que-nao-produza-frutos/


 

 

[1]   Exemplo, o pensamento. O ato de pensar é uma ação invisível, como é a essência de      toda ação puramente intelectual.

[2]        Marco Túlio Cícero, (106 AC a 65 DC), em sua obra “Oratória. ” Em síntese, o que respalda o argumento é o pensamento lógico; e o que respalda o pensamento lógico é a realidade. Tudo que não estiver nesta sintonia é sofisma, ou seja, argumento usado para enganar ou produzir algo distinto da realidade.

[3]      Catecismo F4.8 – §150: A fé é primeiramente uma adesão pessoal do homem a Deus; é, ao mesmo tempo e inseparavelmente, o assentimento livre a toda a verdade que Deus revelou. Como adesão pessoal a Deus e assentimento à verdade que ele revelou, a fé cristã é diferente da fé em uma pessoa humana. E justo e bom entregar-se totalmente a Deus e crer absolutamente no que ele diz.

[4]   A Escolástica é uma corrente ou método de pensamento crítico e filosófico que se desenvolveu no âmbito da Igreja, que buscou, e encontrou o equilibro perfeito entre Fé Católica e Razão, numa análise da natureza e dos atos humanos alinhados à ação Divina. Sua influência nas artes, cultura, educação e demais ciências é inegável.

[5] Selo é um símbolo antigo de autenticidade de quem firma a declaração escrita,  lacrado no presente, e para ser aberto em momento oportuno. (Eclesiástico 22.10 e Apocalipse 6.1). Tal qual é a metáfora da salvação, utilizada por São Paulo (II Cor 1.22)

[6] Justo é aquele diante de Deus, não há condenação para as suas obras: “Eis que venho em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras. (Apocalipse 22, 12)” 

[7]       Confissão Protestante de Augusburg, ano 1.530, artigos 4º e 20º.

[8]  https://biblehub.com/greek/3049.htm

[9] https://biblehub.com/greek/3985.htm

[10] Ismael é o filho mais velho de Abraão, porém, espúrio, provindo de um relacionamento ilegítimo de seu pai com uma escrava. Mas é Isaac que deteve o direito a primogenitora, porque é o primeiro filho legítimo, concebido na constância do matrimônio.

[11] O SENHOR APARECEU a Abraão nos carvalhos de Mambré, quando ele estava assentado à entrada de sua tenda, no maior calor do dia. Ele disse-lhe: <Voltarei à tua casa dentro de um ano, a esta época; e Sara, TUA MULHER, TERÁ UM FILHO>” (Gn 18. 1 e 10) Deus preceituou a Abraão, que “tomasse seu filho primogênito, a quem tanto amava, Isaac, e partisse com ele à terra de Moriá, e o ofertasse em SACRIFÍCIO sobre os MONTES” (Gn 22, 2)

[12] <“Abraão tomou a LENHA DO HOLOCAUSTO e pôs aos OMBROS de seu filho Isaac> (Gn 22, 6) ” <“quando chegaram ao local, Abraão edificou um altar, colocou nele lenha, e amarrou Isaac, seu filho, e o pôs sobre o altar EM CIMA DA LENHA”> (Gn 22.9)

[13] <“quando chegaram ao local, Abraão edificou um altar, colocou nele lenha, e amarrou Isaac, seu filho, e o pôs sobre o altar EM CIMA DA LENHA”> (Gn 22.9)

[14] <. Eu e o MENINO vamos até lá adiante para adorar, mas LOGO VOLTAREMOS para junto de vocês. > (Gn 22.5)

[15] “estendendo a mão, TOMOU A FACA para imolar o seu filho> (Gn 22,10)”

[16] Nitidamente, o protestantismo faz severa confusão ente OBRAS DA LEI e as OBRAS DA FÉ, pois embora conceitualmente faça essa distinção, sua teologia não alcançar harmonizá-las dentro do correto contexto da realidade na qual estão inseridas: Sobre as obras da Lei é dito: “Estar circuncidado ou incircunciso de nada vale em Cristo Jesus, mas sim a fé que opera pela caridade. (Gálatas 5, 6) “Com efeito, não foi em virtude da Lei que a promessa de herdar o mundo foi feita a Abraão ou à sua posteridade, mas em virtude da justiça da fé. (Romanos 4, 13) Sobre as Obras da Fé é ensinado: “ó homem vão, como a fé sem obras é vã. Vês como A FÉ COOPERAVA COM AS SUAS OBRAS E ERA COMPLETADA POR ELAS. (São Tiago 2, 22)”Mostra-me a tua fé sem obras E “EU TE MOSTRAREI A MINHA FÉ PELAS MINHAS OBRAS. (São Tiago 2.18) ”

[17] Efésios 2.8

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