Cristologia

APÓS O JUÍZO FINAL PODERIA O SER HUMANO NOVAMENTE PECAR?

A salvação, enquanto juízo final de Deus sobre os atos humanos, é o prêmio obtido pela regeneração do indivíduo, alcançada no sacrifício da cruz, que é a única causa originária e eficiente para a remissão dos pecados.

Consoante disse o Apóstolo:

“O que era impossível à Lei, visto que a carne a tornava impotente, Deus o fez, enviando por causa do pecado o seu próprio Filho NUMA CARNE SEMELHANTE à do pecado, condenou o pecado na carne.” (Rm 8. 3)

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/09/17/por-que-convinha-deus-tornar-se-homem/

Não há dúvida que para redenção de toda humanidade, convinha que Deus, na Pessoa do Filho, o qual é sua imagem perfeita (Colossenses 1.15), tomasse nossa natureza, e nela se ofertasse como justo preço pelos delitos cometidos por cada um de nós, nos quais éramos devedores diante da justiça divina, e tal como, merecedores do castigo eterno:

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/09/27/por-que-a-sola-gratia-contradiz-com-os-meritos-de-cristo-necessarios-a-nossa-salvacao/

“Ele vos reconciliou pela MORTE DE SEU CORPO HUMANO, para que vos possais apresentar santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai.” (Colossenses 1. 22)”

“Está vestido com um MANTO TINTO DE SANGUE, e o seu nome é Verbo de Deus.” (Apocalipse 19, 13)

Mas para que a reparação de todos os pecados fosse completa e perfeita, também convinha que todos eleitos e agraciados com a redenção fossem santificados plenamente na carne e no sangue do Verbo Encarnado, em seu sacrifício vicário na cruz.

Temos na santificação ou ascese, o mover da graça de Cristo no ser humano, conduzindo-o a perfeição e ao fim último que é a beatitude ao lado do seu Criador, sendo pois, o antídoto eficaz contra o pecado, e que nos isenta da culpa e das penas diante do Tribunal do céu.

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/11/07/santidade-ou-malicia-dois-caminhos-a-escolher/

Ora, o primeiro homem, Adão, fora criado em estado de perfeição natural, mas pecou por não estar em estado perfeição plena:

Ensinou Santo Tomas de Aquino, numa alusão aos ensinamentos de Santo Agostinho:

“O homem era feliz no paraíso, não daquela perfeita beatitude à qual havia de ser transferido, consistente na visão da divina essência; levava, contudo, como diz Agostinho, uma vida feliz, de certo modo, por ter a integridade e uma certa perfeição natural.” (São Tomás, Suma Teológica, art. 1º, Q 94 Tratado sobre o homem)

Mesmo em estado de completa inocência, é fato que o primeiro homem não via Deus em essência, senão, apenas em enigma ou pela ciência média1 por não haver comunhão entre Criador e criatura. 

É certo que se Adão e Eva resistissem ao pecado no uso santo do livre arbítrio, o Criador lhes daria, como recompensa, a plenitude de sua visão, dando acesso não apenas os primeiros pais, mas toda humanidade deles vindoura, aos bens celestiais que estão em Deus, e que são necessários à felicidade em infinita abundância.

Dispõe a Igreja pela voz de Santo Tomás de Aquino:

“O primeiro homem não via a Deus em essência, no estado comum da sobredita vida; a menos que não se diga que o visse em rapto2 […] por onde ninguém que veja a Deus em essência pode afastar-se dele voluntariamente e pecar. Por isso todos os que assim o veêm, estão de tal modo consolidados no amor de Deus, que não poderão pecar eternamente. Ora, como Adão pecou, é claro que não via a Deus em essência.” (Suma Teológica, art. 1º, Q 94 Tratado sobre o homem)

Não havia união vigorosa entre o natural criado; e o sobrenatural incriado, sendo que a perfeição natural não garantiu a vida a Adão e Eva, como também não lhes obrigou a queda, ficando isso a mercê da liberdade a eles conferida.

Tivessem os primeiros pais, escolhido definitivamente a santidade antes de pecarem, o Criador os teria confirmado eternamente na graça, perfeição e beatitude perpétua ao seu lado, deixando para trás a visão enigmática de Deus, para receberem a visão perfeita, alcançando os bens celestiais inerentes a felicidade eterna que está em ver, compreender, interagir e desfrutar de Deus em toda sua magnanimidade:

Mas tendo escolhido o pecado, junto com o pecado lhes adveio a mácula do mal que contaminou a carne, e agora, através da Encarnação do Verbo (onde Deus como Homem se fez), é que se estabelece a comunicação entre humanidade e Divindade, para que da imperfeição do pecado, alcançasse o ser criado a comunhão perfeitíssima com Deus, para que a morte e corrupção fossem tragadas pela vida eterna e incorrupção:

“A morte foi tragada pela vitória (Is 25,8). Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão (Os 13,14)? (I Cor 15, 55)”

Somente este estado elevado de dignidade extranatural, com nossa humanidade morta e ressurreta, resgatada na humanidade morte e ressurreta de Cristo, é que faz que com não voltemos a degenerar e delinquir contra Deus, após remidos de todo pecado.

O Papa Leão I, nos idos de 450, ensinou: — “Reconhece, ó Cristo, a tua Dignidade, e feito consorte da natureza humana, não possamos querer por uma volta degenerada a antiga vileza.” (Encíclica Papal Mystici Corporis)

Também Santo Irineu de Lion esclareceu:

“Este é o motivo que o Verbo de Deus se fez Homem; e o Filho de Deus, se fez filho de homem, para que o homem, unindo-se ao Verbo de Deus, recebendo a adoção se tornasse Filho de Deus. NUNCA PODERÍAMOS OBTER A INCORRUPÇÃO E A IMORTALIDADE, A NÃO SER NOS UNINDO A IMORTALIDADE E A INCORRUPÇÃO. E como poderíamos realizar essa união, sem que antes a incorrupção e a imortalidade se tornassem o que somos, a fim de que O CORRUPTÍVEL FOSSE ABSORVIDO PELA INCORRUPÇÃO; E O MORTAL PELA IMORTALIDADE, e desse modo pudéssemos receber a adoção de filhos.” (Adversus Haereses, Livro III, p. 317, ano 180)

E prossegue: – “Ele lhe dará o trono de Davi de forma tal que este Filho de Deus se tornaria homem, para que por sua vez, o homem se tornasse Filho de Deus.” (p. 269); “através da Encarnação do Verbo, DEUS RECAPITULA (reconstrói, reescreve) toda a descendência de Adão. A Igreja porém, espalhada em toda terra, e iniciada pelos apóstolos, perseverá firmemente numa única e idêntica fé em Deus e no seu Filho.” (p. 292) “O Filho de Deus, foi feito filho do homem, para que pudéssemos receber a adoção.” (p. 217, Adversus Haereses)

A Encarnação era conveniente para restauração (recapitulação) do gênero humano em nível superior ao do primeiro homem, unindo definitivamente a Humanidade do Verbo a nossa humanidade adâmica decaída, razão porque, um dos Títulos Sacerdotais de Cristo é o de novo Adão:1

“Assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos reviverão. (I Cor 15, 22)”

E Santo Tomás de Aquino, complementa São Paulo: 

“Deus poderia ter reconstruído (assumido) nossa natureza noutra raça que não fosse a desse ADÃO, que submeteu todo o gênero humano ao seu pecado. Mas julgou melhor tirar da raça mesma que tinha sido vencida, o Homem (Cristo) pelo qual venceria o inimigo do gênero humano. Isto por três razões: – primeiro, porque é próprio da sua Justiça, que se satisfaça aquele que pecou. Por isso, da natureza corrompida por Adão, devia ser tirado aquele que desse satisfação por toda a natureza; – segundo, porque também para maior dignidade do homem, exige que o vencedor do diabo saísse do gênero que foi vencido por ele; – terceiro, porque assim mais se manifestou o Poder de Deus, assumindo uma natureza corrompida e enferma, para elevá-la a um grau Altíssimo de dignidade.” (Suma Teológica de Aquino, Q 4, art. 6° Da União relativa ao assumido)

Finalizando, disserta Santo Irineu: — “A existência do Filho de Deus não teve início naquele momento, existindo desde sempre junto ao Pai, mas quando se Encarnou e se fez Homem, recapitulou em si, toda uma longa séria de homens, dando-nos o que tínhamos perdido em Adão: isto é, a imagem e semelhança de Deus, que recuperamos em Cristo. (p. 328 e 329)”

Nossa natureza, antes perfeita, agora imperfeita, se tornava mais que perfeita ao nos comunicarmos com Deus pelo Verbo.

Não tivesse assumido nossa natureza humana, não haveria a comunhão plena entre criatura decaída e Criador redentor; e a obra da salvação estaria incompleta, dado ao risco de reincidirmos no mau uso do livre arbítrio.

Se não houvesse essa comunhão extraordinária entre o Divino Humano (Cristo) e o humano divinizado (os santificados em seu corpo e seu sangue), não poderíamos ser partícipes no Corpo de Cristo, das suas virtudes celestiais, para então, retornarmos à condição de Filhos de Deus:

“Assim, nós, embora muitos, formamos um só Corpo em Cristo, (Rm 4 e 5)” — SOIS O CORPO DE CRISTO, e cada um, de sua parte, é um dos seus MEMBROS. (I Cor 12, 27)”

Nisto vemos que, principalmente para redenção humana, é que convinha a Encarnação.

Não fosse Cristo, Divino, não teria mérito para ofertar em satisfação da Justiça; e se não fosse Humano, não repararia a humanidade mediante a comunicação da sua dignidade magistral, a todos os que Nele cressem.

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1No conceito tomista de Ciência Média, Adão, todavia, conhecia a Deus por um certo conhecimento mais elevado que aquele com o qual agora o conhecemos; e assim, de certo modo, o seu conhecimento era intermédio (Médio) entre o da vida presente e o da pátria onde se vê a Deus em essência.

2 Arrebatamento, o ato de Deus trazer o ser humano a sua presença, em certas ocasiões.

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