Batismo

POR QUE É NECESSÁRIO BATIZAR EM NOME DA TRINDADE? (O ENIGMA DO BATISMO DE FOGO)

A água e o fogo são elementos naturais que possuem a virtude de purificar.

O fogo purifica pela incineração, enquanto a água purifica pela lavagem.

Todavia, é certo ainda afirmar que tanto a água, quanto o fogo, tem o condão de refletirem luz. O fogo pela incandescência, tirada do efeito das labaredas; e a água por sua incoloração, que a torna capaz de espelhar a claridade que capta do meio externo. Quem nunca olhou a luz do luar refletida num espelho d’água? Destarte, inteligível é, que esses dois elementos, por se comunicarem com a luz, nos conectam a uma certa claridade em meio as trevas.

Tanto água, quanto fogo, igualmente, são elementos universais, o que implica que podem estar em todos os lugares, em idêntica composição. Não existe uma água pura e um fogo puro que não sejam homogêneos em sua substância,1 de onde se afirma, que a água é sempre água e fogo sempre fogo, independente do local, tempo ou circunstância.

Enquanto oferta sacrificatória em sua paixão redentora, conferiu Cristo a água natural, a virtude da purificação sobrenatural, quando a fez brotar do seu Santíssimo Corpo crucificado, dando origem ao batismo da Nova Aliança.

Temos então, neste sacramento, a água não apenas como elemento natural, mas como matéria santificada na carne e sangue do próprio Deus encarnado:

“Um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e imediatamente saiu sangue E ÁGUA;” (São João 19, 34) — “Ou ignorais que todos os que FOMOS BATIZADOS em Jesus Cristo, fomos batizados NA SUA MORTE? (Romanos 6.3)”

Ora, se o sacrifício da humanidade do Cordeiro nos redime dos pecados, conclui-se que tudo o que Dele frutificou, e procedeu do seu Corpo abatido em oferta santa a Deus, também nos redime, sendo o batismo, o sinal do martírio de Jesus, ainda presente na história humana:

“Ei-lo Jesus, aquele que veio pelo sangue e PELA ÁGUA […]” (I São João 5.6)

“[…] tirarei ÁGUAS da FONTE da SALVAÇÃO. (Isaías 12.3)

“Ele nos SALVOU MEDIANTE o BATISMO DE REGENERAÇÃO E RENOVAÇÃO pelo Espírito Santo. (Tito 3, 5)” 

A Divindade de Cristo é inseparável de sua humanidade;2 tanto quanto sua humanidade inseparável dos sinais sobrenaturais que dela floresceram.

No sacramento do batismo, a graça de Deus age pelas águas, sendo este, o sinal sensível e visível que institui a nobilíssima e venturosa aliança em corpo e alma daquele que se do batiza, com a humanidade (Corpo) e Divindade (Espírito) do Cristo crucificado, dando aquele, a condição de membro do Corpo do Cordeiro, e assim, partícipe do seu sacrossanto sacrifício:

“Eu sou o PÃO DA VIDA […]” (São João 6.35)

LANÇA o teu PÃO sobre as ÁGUAS. ” (Eclesiastes 11.1)

Todo aquele que se batiza, renasce para Deus através de Cristo, renascendo para a ressurreição do corpo, e para perseverar na incorrupção, sendo a água, o elo instituído pelo redentor, que liga nossa humanidade mortal e corrompida pelo pecado original, à humanidade imortal e incorrupta Dele, para que, através dela, recebamos a imortalidade e a incorrupção:

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/11/22/apenas-o-batismo-nos-livra-do-pecado-original/

Jesus replicou-lhe: “Em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus.” Nicodemos perguntou-lhe: “Como pode um homem renascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no seio de sua mãe e nascer pela segunda vez?”. Respondeu Jesus: “Em verdade, em verdade te digo: quem não renascer da água3 e do Espírito não poderá entrar no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito.” (São João 3. 3 a 6)

No batismo, adquirimos a comunhão com a cruz do Cordeiro padecente, que em seu martírio nos salva:

“[…] fostes BATIZADOS, fostes REVESTIDOS de Cristo. ” (Gálatas. 3, 20)

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/12/11/o-batismo-recolhe-sua-eficacia-salvifica-do-sacrificio-e-da-ressurreicao/

Disto se compreende, ser a água pura, benzida e exorcizada, a matéria própria e indispensável à validade formal do ato batismal:

Aspergi-me com um ramo de hissope e ficarei puro. LAVAI-ME e me tornarei mais branco do que a neve.” (Salmos 50, 9)”

Mas é certo que todo ato possui forma e essência.4

Sendo a água é indispensável e indeclinável à forma, a Santíssima Trindade constitui-se na própria essência do sacramento.

O agente único e principal no batismo é a Trindade: — “Ide, pois, e ensinai a todas as nações, e batizai-as em Nome do PAI, do FILHO e do ESPÍRITO SANTO, e ensinando-os a observar tudo que vos tenho ordenado.” (São Mateus 28, 19)

Necessário então, ministrá-lo em nome das três Pessoas, como ensinou, e exortou o próprio Cristo, para que os apóstolos assim o fizessem, haja vista, que o batismo só tem valia na unidade do Pai, Filho e Espírito Santo.

“Sede um só corpo E um só espírito, assim como fostes chamados pela vossa vocação a uma só esperança. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo.”  (Efésios 4.4, 5)

Sabemos que as Pessoas da Trindade possuem una e única essência Divina, não havendo distinção substancial entre elas. Também sabemos que em certas situações, Elas podem exercer papéis, funções e relações distintas uma das outras, sem que isto implique divisão ou distinção de essência, substância ou unidade.

Neste compasso, é evidente que cada uma das três Pessoas da Divindade, participa do batismo de maneira distinta e exclusiva.

Diante disto, invocar expressamente as três Pessoas Divinas tem o propósito de realizar, no âmbito da fé, o ato batismal justamente nessas três funções distintas. Rogar numa única Pessoa, com a reserva mental do afastamento das demais no ato batismal, se incorreria no erro de não discernir, nem respeitar essas três funções dissemelhantes, imanentes (próprias) a cada uma das três Pessoas da Trindade, justificando o zelo de Cristo ao ensinar, e ordenar a forma do rito batismal.

Santo Tomás explica: — “Cristo instituiu que o sacra­mento do batismo fosse ministrado com a invo­cação da Trindade. Portanto, tudo o que faltar, tira do batismo sua integridade. ” (Suma Teológica. Q 66, art. 5º do Batismo, Livro IIIa pars)

A ação do agente trino, distribui-se de modos distintos.

Podemos apurar essas ações tripartidas, quando analisamos o momento em que Cristo se “batiza” nas águas do rio Jordão.

O Pai toma parte no batismo figurativo e simbólico de Jesus, por ser Ele o criador da matéria batismal visível (água) e audível (proclamação), testemunhando do Filho que se encharcava nas águas5 do rio Jordão, como o Cordeiro verdadeiro, que Ele preparou para remir os delitos de toda humanidade:

“Adorai aquele QUE FEZ o céu e a terra, O MAR E AS FONTES.” (Apocalipse 14, 7)”

“Quando todo o povo ia sendo batizado, também Jesus o foi. E estando ele a orar, o céu se abriu” […] “e veio do céu uma voz: — “Tu és o meu Filho bem-amado; em ti ponho minha afeição.” (São Lucas 3. 21 e 22)

Assim, nós, ao tomarmos parte do batismo sacramental, deixamos o estágio de mera criatura, pois nos é conferida a condição de filhos de Deus. E tal qual Ele proclamou a sua paternidade em Cristo, também proclamará a nossa filiação adotiva, através da qual nos irmanamos, fraternalmente, ao próprio Jesus.

Conforme proclamado em relação a Cristo, é também proclamado a todo batizando, por intermédio da Igreja: – “Tu és o meu filho amado, em ti ponho minha afeição.” E assim, somos feitos também irmãos legítimos de Cristo, porque Dele tomamos a natureza humana restaurada para a futura ressurreição:

“Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher e nasceu submetido a uma Lei, a fim de remir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a sua adoção.” (Gálatas 4. 4,5)

“Mas a todos quantos o receberam, a eles deu o poder de se tornarem FILHOS DE DEUS, aqueles que creem em seu nome.” (São João 1.12)

Pelo batismo, Deus faz a nossa humanidade renascer em Cristo, e por isso, nos tornamos irmãos de Jesus, em sua natureza humana:

“[…] por isso convinha que Ele (Cristo) se tornasse em tudo semelhante AOS SEUS IRMÃOS, para ser um pontífice compassivo e fiel no serviço de Deus, capaz de expiar os pecados do povo.” (Hebreus 2, 17)

Já o Filho, tem parte no batismo dando o seu testemunho nas águas, e sobre as águas, santificando-as em sua humanidade sacrificada, para estabelecer a comunhão conosco, e nos dar a filiação Divina:

“As ÁGUAS TE VIRAM, Ó DEUS, as águas te viram, e tremeram. ” (Salmo 77. 16)

“Veio uma mulher da Samaria tirar água. Pediu-lhe Jesus: “Dá-me de beber”.(Pois os discípulos tinham ido à cidade comprar mantimentos.) Aquela samaritana lhe disse: “Sendo tu judeu, como pedes de beber a mim, que sou samaritana!…”. (Pois os judeus não se comunicavam com os samaritanos.) Respondeu-lhe Jesus: “Se conhecesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dá-me de beber, certamente lhe pedirias tu mesma e ele te daria uma ÁGUA VIVA”. A mulher lhe replicou: “Senhor, não tens com que tirá-la, e o poço é fundo, onde tens, pois, essa ÁGUA VIVA? És, porventura, maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu este poço, do qual ele mesmo bebeu e também os seus filhos e os seus rebanhos?”Respondeu-lhe Jesus: “Todo aquele que beber des­ta água tornará a ter sede, mas o que “beber da água” que eu lhe der jamais terá sede. Mas a água que eu lhe der virá a ser nele FONTE DE ÁGUA, que jorrará até a VIDA ETERNA.”(São João 4. 8 a 14)

Como profetizado, fonte de água-viva é a menção da água do pericárdio de Cristo, que desceu de seu corpo quando alvejado em sua costela, pela lança do centurião romano:

“Guarda teu CORAÇÃO acima de todas as outras coisas, porque DELE BROTAM todas as FONTES DE VIDA.” (Provérbios 4, 23)

“Um dos soldados ABRIU-LHE O LADO com uma LANÇA e imediatamente saiu sangue E ÁGUA;” (São João 19, 34)

O Espírito Santo, por seu turno, apresenta-se envolto na figura da pomba, a qual tinha sido sinal de esperança à Noé, do novo mundo pós-diluviano, e que em Cristo, seria sinal da esperança do novo mundo celestial a ser dado aos sobreviventes do pecado, os renascidos das águas batismais, tal como a nova terra, dada Noé e sua família, os quais, igualmente, sobreviveram ao pecado, e renasceram das águas do dilúvio:

“No fim de quarenta dias, abriu Noé a janela que tinha feito na arca; soltou também uma POMBA, para ver se as águas teriam já diminuído na face da terra;[…] esperou mais sete dias, e soltou de novo a POMBA fora da arca. E eis que pela tarde ela voltou, trazendo no bico uma folha verde de oliveira. Assim Noé compreendeu que as águas tinham baixado sobre a terra.” (Gênesis 8. 6, 8, 10 e 11)

“Deus aguardava com paciência, enquanto se edificava a arca, na qual poucas pessoas, isto é, ape­nas oito se salvaram por meio da água. Essa água PREFIGURAVA O BATISMO de agora, que vos salva também a vós, não pela purificação das impurezas do corpo, mas pela que consiste em pedir a Deus uma consciência boa, pela ressurreição de Jesus Cristo.” (I São Pedro 3, 20 e 21)

“Depois que Jesus foi batizado, e saiu logo da água, eis que os céus se abriram, e viu descer sobre ele em forma de POMBA, o Espírito de Deus” (São Mateus 3, 16)

Ensina Santo Tomás:

“Não basta a fé na Trindade para a perfeição do sacramento, SE ESTA NÃO FOR EXPRESSADA POR PALAVRAS. Por isso, no Batismo de Cristo, (origem do nosso), esteve presente a Trindade SOB SINAIS SENSÍVEIS: O PAI PELA VOZ; O FILHO PELA NATUREZA HUMANA5 e o ESPÍRITO SANTO PELA POMBA.” (Suma Teológica, Q 66, art. 6º do Batismo, Livro IIIa)”

Entretanto, poderiam os santos Apóstolos, infringindo o ensinamento do Mestre, terem realizado a fórmula do batismo apenas e tão somente em Nome de Cristo ou do Espírito Santo, como aparentemente indicaria uma leitura das Escrituras em desalinho com Magistério infalível da Igreja?

Parece-nos, no entanto, por alguns versos escriturísticos isolados, que os santos apóstolos, como os primeiros ministradores dos sacramentos, não teriam utilizado da fórmula trinitária de Cristo, mas criado fórmula própria e unitária, batizando apenas em Nome de uma das Pessoas:

“Pedro lhes respondeu: “Arre­pen­dei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo,” (Atos 2, 38)

“Lembrei-me então das palavras do Senhor, quando disse: João batizou em água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo.” (Atos 11. 16)

Não sendo o servo, maior que o seu Senhor,6 e estando os apóstolos envoltos na mais pura santidade e obediência, podemos descartar essa teoria.

Todavia, há de se apurar conforme o Magistério da Igreja, o real significado dos batismos predicados apenas a uma das Pessoas da Trindade, e por qual razão assim foram lançados nos manuscritos sagrados.

No contexto entre atos semelhantes, é necessário que quem pratica um ato símile a outros com os quais possa ser confundido, que o realize fazendo menção específica aquilo que o distingue dos demais.

Necessário era assim, que quando convidassem ao batismo, os apóstolos especificassem que se tratava do batismo inaugurado por Cristo ou vindo do Espírito Santo, justamente para distingui-lo dos outros batismos comuns na época, dentre eles, o batismo pagão realizado pelos gregos e romanos em honra a “deusa Cotito; e também o batismo da antiga Aliança que os judeus da seita dos essênios, discípulos de São João Batista, ainda praticavam.7

Ora, é o nome do autor que o liga à sua obra, autenticando-a, distinguindo-a das falsificações.

O batismo penitencial e simbólico de João Batista, o qual não tinha a infusão da Graça, nem a invocação da Trindade, só foi permitido por Cristo até o seu sacrifício e ressurreição.

O próprio Cristo chegou a realizar o batismo de São João, o batista, por um curto espaço de tempo, para preparar os judeus para o batismo legítimo e real que viria dele, depois do calvário:

“Em seguida, foi Jesus com os seus discípulos para os campos da Judeia, e ali se deteve com eles, e batizava. (São João 3, 22)”

Mesmo após a ressurreição, a influência de São João Batista, o precursor de Cristo,7 ainda era muito forte8 e viva na memória popular. 

A própria liturgia batismal joanina, tornou-se conhecida como “batismo” de João:

“Então, em que batismo fostes batizados? Perguntou Paulo: Disseram-lhe: no BATISMO DE JOÃO.” (Atos 19, 3) 

Para que não ocorresse distrações no recebimento do batismo da Nova Aliança, no sentido de acreditar piamente que se estaria recebendo batismo diverso, era mister enfatizar, antes de realizar o batistério, da natureza e origem da fé que se professaria.

“João só dava um batismo de penitência.8 Ouvindo isso, foram batizados em NOME DO SENHOR JESUS. (Atos 19. 3, 4 e 5)”

Conclui-se que batismo de “Cristo” ou no “Espírito Santo,” é apenas a sua nomenclatura, não sua forma.

Podemos comprovar que os apóstolos, não apenas ensinaram, mas também ministraram o batismo em Nome da Trindade, sendo, pois, fiéis ao comando obrigatório emanado do próprio Cristo, testemunhado em muitos documentos, dentre eles, alguns dos mais antigos dos três primeiros séculos da Igreja:

O Didaqué, Catecismo Primitivo da Tradição dos Doze Apóstolos, destinados aos primeiros cristãos, datado de 70 DC, encontrado na Síria e parte na Alexandria, prova que os santos Apóstolos não só ensinaram, como só realizaram o batismo trino.

Conforme se prescreveu às Igrejas: — “I. Quanto ao Batismo, faça assim: depois de ditas todas essas coisas, batize em água corrente, EM NOME DO PAI E DO FILHO E DO ESPÍRITO SANTO” — “II. Se você não tiver água corrente, batize em outra água. Se não puder batizar com água fria, faça com água quente” — “III. Na falta de uma ou outra, derrame ÁGUA TRÊS VEZES sobre a cabeça, em NOME DO PAI E DO FILHO E DO ESPÍRITO SANTO6.

Ensinou São Justino, o mártir:

“Os que são batizados por nós são levados para um lugar onde haja água e são regenerados da mesma forma como nós o fomos. É em nome do Pai de todos e Senhor Deus, e de Nosso Senhor Jesus Cristo, e do Espírito Santo que recebem a loção na água. Este rito nos foi entregue pelos APÓSTOLOS.” (São Justino Mártir, ano 151, I Apologia.p. 61)

Testemunhou Tertuliano, de Cartago:

“Foi estabelecida a lei de batizar e prescrita a fórmula: ‘Ide, ensinai os povos batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo;‘” (Tertuliano, ano 210, Do Batismo cap.13)

E ainda Santo Hipólito, de Roma, esclarece de maneira detalhada, e minuciosa, toda formalidade a ser realizada, dentro da liturgia do “batismo de Cristo”:

“Crês em Deus Pai todo-poderoso?”. E aquele que é batizado responda: “Creio”. Imediatamente, com a mão pousada sobre a sua cabeça, batize-o (molhe-o) uma vez, dizendo a seguir: “Crês em Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido do Espírito Santo e da Virgem Maria, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, morrendo e sendo sepultado e, vivo, ressurgiu dos mortos no terceiro dia, subindo aos céus e sentando-se à direita do Pai, donde julgará os vivos e os mortos?”. Quando responder: “Creio”, será batizado (molhado) pela segunda vez. E dirá mais uma vez: “Crês no Espírito Santo, na Santa Igreja e na ressurreição da carne?”. Responderá o que está sendo batizado: “Creio”, e será batizado (molhado) pela terceira vez.” (Tradição Apostólica. Cap. 3.5, do Batismo, anos 170-235)

Disto não podemos nos afastar, sob pena de serem os santos apóstolos, considerados infiéis e hereges, por terem escolhido, por pura conveniência e capricho, negar o batismo trinitário da Nova Aliança em favor do batismo unitário.

O batismo sacramental nas águas, e na pessoa da Trindade, tem sido, pois, o ensinamento bimilenar da Igreja, recebido diretamente dos apóstolos, os quais, por sua vez, receberam de próprio Cristo.

A fórmula litúrgica do batismo é sempre trinitária, independente do nome que se dê ao batismo, ainda que se predique apenas de uma das Pessoas Divinas.

Mas seria a água, matéria única e própria para o batismo?

A forma do batismo é uma ablução, ou seja, lavagem do corpo ou parte do corpo do batizando por meio d’água.

É uma purificação inicial, que realizamos no sacrifício da cruz, por intermédio do sinal da água.

Mas como dito no início, se tanto a água, quanto o fogo são meios de assepsia, é certo que a água não poderia ser o elemento material exclusivo do batismo, posto que também o fogo é meio de depuração, inclusive, superior e mais eficiente que própria água, pois a água pode lavar deixando vestígio ainda que mínimo da imundície, o que não se daria na incineração.

Tomando as palavras literais de São João Batista, parece que há um certo tipo de rito de batismo realizado “pelo fogo”, superior a ablução (lavagem) com a água.

“Eu vos batizo COM ÁGUA, em sinal de penitência, mas aquele que virá depois de mim, é mais poderoso do que eu, e nem sou digno de carregar seus calçados. Ele vos BATIZARÁ NO ESPÍRITO SANTO e “EM FOGO.” (São Mateus 3, 11)

Ora, por razão óbvia, não pode o fogo ser matéria para o batismo.

Embora mais eficiente, enquanto meio de depuração e limpeza, o fogo traz como consequência a morte de toda vida que ele toca, ou que está contida naquilo ou naquele que é limpo por carbonização.

A assepsia que se faz com o fogo, esteriliza o local saneado, tornando-o estéril, matando nele toda vida que lá existe, e sendo o batismo, uma forma de renascimento, é certo que do infértil e infecundo não pode advir vida nova.

Noutra mira, é inconteste que toda vida que existe, existiu, e ainda há de vir, tem sua origem nas águas. Sem água, nada se cria, nada se forma, nada permanece com vida, sendo elemento essencial de toda vida terrena. Logo, o batismo de “fogo” não é literal, mas figura, para colocar o batismo real sacramental de Cristo (realizado na fórmula da água), oriundo da realidade do seu sacrifício vicário, em nível superior ao batismo joanino,(também realizado na fórmula da água), o qual caducou com a nova Aliança, por ser apenas ensaio, sem qualquer eficácia salvífica,9 sendo simples projeto do que estaria porvir.

Se a água é o elemento ou sinal material do batismo cristão, o fogo é apenas uma ilustração quanto aos seus efeitos em relação ao nosso pecado.

Noutra mira, é certo que toda água é refletora da própria Luz Personificada (Cristo) que emanou do calvário. Sendo Cristo, a Luz10 do mundo, tem-se que assim se constituiu luz pelo reflexo do seu Corpo, purificador sobre as águas por Ele santificadas.

Um símbolo não aniquila um sinal porque este lhe é superior.

A água é o sinal; o fogo figura metafórica e alegórica.

De modo idêntico, quando se dá a nomenclatura de “batismo de Jesus,” de “Cristo” ou do “Espírito Santo,” apenas se apresenta a natureza do ato, enquanto distinto do batismo de São João e outros que existiam na época, não implicando que seja essa a sua fórmula realizável.

Água é elemento indispensável ao batismo neotestamentário.

Já o símbolo apenas explica.

O fenômeno miraculoso ocorrido em pentecostes, o qual muitos tendem chamá-lo“ batismo de dons” ou “batismo de fogo”, não foi um batismo sacramental para nos dar a condição de filhos de Deus, unidos ao sacrifício de Cristo, mas uma manifestação de Deus para confirmar a Igreja nos dons do Espirito Santo, estando mais afeiçoada ao sacramento do crisma, que ao batismo propriamente dito.

O fogo, (linguagem figurada), que desceu sobre os fiéis em pentecostes, limitou-se em dar-lhes os dons espirituais úteis a pregação do evangelho, não concedendo-lhes a condição de Filhos de Deus porque ainda não estavam unidos à humanidade de Cristo, o que só ocorre com o batismo sacramental nas águas:

“Assim, uma vez que aspirais aos dons espirituais, procurai tê-los em abundância para a edificação da Igreja. (I Coríntios 14, 12)”

Tanto que São Pedro ordenou aqueles que tinham recebido os dons do Espírito Santo, que recebessem, posteriormente, o batismo salvador nas águas:

“Os fiéis da circuncisão, que tinham vindo com Pedro, profundamente se admiraram, vendo que o DOM DO ESPÍRITO SANTO ERA DERRAMADO também sobre os pagãos; […] “pois eles os ouviam falar em outras línguas e glorificar a Deus. Então Pedro tomou a palavra: PORVENTURA PODE-SE NEGAR A ÁGUA DO BATISMO A ESTES QUE RECEBERAM O ESPÍRITO SANTO COMO NÓS? E mandou que FOSSEM BATIZADOS em nome de Jesus Cristo.” (Atos 10, 44-48)

Eis aí, conforme a Tradição Apostólica, o Magistério da Igreja e as Escrituras, o autêntico significado da expressão “batismo de fogo,” sendo que a graça que recebemos no batismo instituído na Santíssima Trindade, há de ser preservada em nossa fé e nos demais sacramentos.

Uma melhor análise dos dons do Espirito Santo em pentecostes, será tema de outra postagem.

 

_______________

 

1 Substância é a composição invisível do ser, e no qual ele subsiste por si mesmo. Na água é o h2° no fogo o CO². Na Trindade, a Divindade Eterna é sua substância.

2 Pelo dogma infalível da união hipostática, Jesus é uma só Pessoa, com duas naturezas: é plenamente homem, e plenamente Deus, sem separação ou confusão. (Catecismo 422 a 483)

3 A água é a figura da matéria que está na natureza humana do Cristo, a parte visível e sensível da Pessoa do Filho inserida em nossa realidade (verdade); o Espírito é a Divindade, a parte invisível do Filho. A matéria (carne) recebe a Graça pela matéria, para permitir a ressurreição do corpo; e o a alma espiritual (espírito) recebe a graça no espírito, através da mate´ria na qual habita, para fins remissão dos pecados.

4 Essência é o que particulariza a substância, dando suas formas ou características, nas quais o ser se identifica e distingue dos demais, e sem a qual, o ser não pode ser aquilo que ele é. No ser humano, a essência são atributos mutáveis (bom ou mal, pode ser mal, torna-se bom e vice-versa) No Divino, os Atributos Essenciais são imutáveis. Assim, Deus não é bom, mas a Bondade Personificada. Não é amoroso, mas Amor Personificado

5 Qasr al-Yahud (Recanto dos Judeus), o local conhecido na tradição judaica como o ponto de batismo de João Batista e seus discípulos, era a parte rasa do rio com muitos pedregulhos, sendo certo que a forma do batismo de São João, era a pessoa se ajoelhar, e ele, com uma cunha, banhar a cabeça do batizando, até resta completamente molhado. (http://shalomisraeltours.com/qasr-alyahud-jordan-river-site/)

6 São João 15,20.

7 O historiador Flávio Josefo: “Essênios era uma seita judaica (II a.C e I d.C), cujos adeptos viviam afastados da sociedade, no deserto, estudando o Torá, jejuando, rezando, orando e realizando rituais de purificação periódicos em águas como substitutos da circuncisão mosaica. Era apolíticos, ao contrário dos fariseus e saduceus, sem apegados aos bens materiais, e grande parte cria na reencarnação dos Profetas. (MONTE, Marcel Paiva. Os Essênios na obra de Flávio Josefo: Considerações sob a perspectiva da utopia Sapiens: História, Patrimônio e Arqueológica; STRUNGELL. John, Flavius Josephus and the Essenes: Antiquities XVIII. 18-22; journal of Biblical Literature, 77. N.º 2 (1958), p. 106-115.) O Batismo sempre foi uma instituição Divina que Deus anunciou desde a fundação do mundo. Quando Deus se Encarna, então, e toma de volta dos pagãos, aquilo que pertence aos cristãos, no caso, o batismo.

8 O batismo essência de São João Batista era penitência, ou seja, apenas perdoava os pecados, não tornava o batizado Filho de Deus, nem lhe dava a Graça que nos transforma em um novo ser renascido, livres do pecado original.

9 Quem crer, e FOR BATIZADO, será salvo. (Mc 16. 16, 18)

10 Eu sou a LUZ do mundo. (São João 8,10)

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