Fé e Caridade

A CARIDADE COMO FINALIDADE DO ESTADO

 

Tela: Primeira Missa no Brasil, de Oscar Pereira da Silva. (1867-1939)

 

O Governante que cumpre a Constituição de seu país, dando saúde, emprego, educação, habitação, segurança, dignidade cívica e moral ao seu povo, faz bem. Mas o que oferta tudo isso pela caridade faz melhor.

“O encanto de um homem é a sua caridade.” (Provérbios 19, 22)

A Lei da Caridade é superior a lei institucional porque não é promulgada por agentes políticos, mas por AGENTE DIVINO:

“Na mente, lhe imprimirei as minhas leis, e também as escreverei nos seu coração.” (Hebreus 8.10)

Cumprir lei é para todos.

Realizar a Caridade é para poucos, pois é nesta que toda e qualquer lei se cumpre perfeitamente:

“[…] a caridade é o pleno cumprimento da lei.” (Romanos 13, 10)

O cumpridor da lei instituída pelo Estado, o faz apenas para não se tornar transgressor. Porém, aquele que pratica a Lei da Caridade, o faz para se elevar, tornar-se imitador de Cristo.

A Caridade é a Lei eterna, e só a lei perfeita mede, pela harmonia, os atos que estarão sob o controle da vontade e da razão, incutindo-lhes a consciência entre o Bem e o mal, entre o maléfico e benéfico. Esta consciência é o que torna justo aquele que cumpre a lei por discernir nela o Bem, não se deixando tornar apenas mero executor de uma norma legal vazia. De nada vale cumprir uma lei apenas por atos, sem a disposição interior, sem a qual o cumprimento normativo se apresenta apenas no campo da coercitividade, e não da conscientização.

Ensinou Cristo ao jovem rico que cumpria todas as leis judaicas, que sua mera obediência normativa, esvaziada do altruísmo, era infrutífera, porque não conduzia ao Bem, nem dignificava o seu cumpridor.

“E eis que, aproximando-se dele um jovem, disse-lhe: Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna? E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos. Disse-lhe ele: Quais? E Jesus disse: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho; Honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo. Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda? Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me. E o jovem, ouvindo esta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propriedades. Disse então Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no reino dos céus.”(São Mateus 19:16-23)

É a Lei da Caridade, que mede com o equilíbrio da razão, os atos humanos que estão sujeitos a vontade que destrói ou constrói:

“Um governador sábio julga o seu povo; o governo de um homem sensato será estável.” (Eclesiástico 10, 1)

O objetivo de toda lei deveria ser de criar a consciência entre ilicitude e bondade, ganância e generosidade, e generoso é, todo o que se abstém do mal e se ordena ao bem. Mas só se chega ao bem comum protegendo o bem individual, pois o que é o bem comum, senão a soma de todos os bens individuais? Só o que parte do singular para o coletivo progride.

O que parte do coletivo para o singular se decompõe, se degenera.

É a razão coletiva (não a afetividade privada) que deve ser legalmente protegida, e reger toda ordem social, moral e política justa, tornando a sociedade um Lar para Cristo.

Como ensinou Cícero1:

“A verdadeira lei é a reta razão em harmonia com a natureza, difundida em todos os seres, imutável e sempiterna, que, ordenando, nos chama a cumprir o nosso dever, e, proibindo, nos aparta da injustiça. E, não obstante, nem manda ou proíbe em vão aos bons, nem ordenando ou proibindo opera sobre os maus. Não é justo alterar esta lei, nem é lícito derrogá-la em parte, nem ab-rogá-la em seu todo. Não podemos ser dispensados de sua obediência, nem pelo Senado, nem pelo povo. Não necessitamos de um Sexto Aelio2 que no-la explique ou no-la interprete. E não haverá uma lei em Roma e outra em Atenas, nem uma hoje e outra amanhã, ao invés, todos os povos em todos os tempos serão regidos por uma só lei sempiterna e imutável. E haverá um só Deus, senhor e governante, autor, árbitro e sancionador desta lei. Quem não obedece esta lei foge de si mesmo e nega a natureza humana, e, por isso mesmo, sofrerá as maiores penas ainda que tenha escapado das outras que consideramos suplícios.” (A REPUBLICA, Marco Túlio Cicero, anos 103-43 AC. Ed. Aguilar, 1979, Livro III, XXII, p. 100)

A Lei da Caridade é eterna, porque não é publicada em diários oficiais, mas inscrita no coração de cada homem e de cada mulher:

“[…] o objeto da lei está gravado nos seus corações, dando-lhes testemunho a sua consciência” (Romanos 2, 15)”

Não se cumpre por preceito obrigatório, mas pela sublime disposição voluntária de amar ao próximo, por ser este a imagem e semelhança de Deus:

“Tudo o que fazeis, fazei-o na caridade.” (I Coríntios 16, 14)

Só a Caridade protege aquilo que é necessário para dignificar o ser humano diante de Deus, porque o ato de se doar totalmente ao próximo, como fez Cristo, é a verdadeira Lei do Amor.

A felicidade privada, fundada no capricho de opinião e nas necessidades afetivas individuais, tende sempre à imperfeição, sendo anti-caritativa porque visa apenas a satisfação de interesses de pessoas ou grupos, em detrimento do cumprimento e da perfeição da Lei Eterna de Deus que rege toda ordem criada. Vindo essa felicidade individual imperfeita a ser tutelada pelo Estado como norma geral e coletiva, criar-se-á então, o mal social por sua própria imperfeição.

Tutelar como regra os instintos e os desejos materiais do ser humano significa ampliar na coletividade o mal que até então existia apenas unipessoalmente, sendo que o fomento todo mal é contrário a caridade.

No Brasil, Governantes possuem milhares de obrigações legais, mas pouquíssima caridade.

 

_________________

1Marcos Tullius Cícero (ano 43 – 104 AC) Advogado, Cônsul, Escrito e Filósofo, foi o mais influente jurista latino de seu tempo.

2Sexto Élio Peto Cato foi um político agente da Élia da República Romana, eleito cônsul em 198 a.C. com Tito Quíncio Flaminino. Aparentemente era filho, apesar de um tanto jovem, de Quinto Élio Peto, um dos inúmeros pretores mortos na Batalha de Canas contra Aníbal em agosto de 216 a.C

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