Livre Arbítrio

A PREDESTINAÇÃO ANULA O LIVRE ARBÍTRIO? O QUE A IGREJA ENSINA?

Se Deus não consegue eleger e predeterminar sem anular o livre arbítrio, então Ele não é soberano. A soberania de Deus não atua por coação, nem sua onipotência como tirania.
Claude_Monet_Impressão_Sol_Nascente_1869

 

Deus, desde toda a eternidade, conhece e elege infalivelmente alguns de seus santos para a glorificação eterna. Mas isto, absolutamente, não significa que Deus violente moral e psicologicamente a vontade dos eleitos, e nem que a eleição desses santos retire deles o livre arbítrio. Também não significa que Deus, em seu infinito Amor, não conceda Graça suficiente e necessária para que os não predestinados possam de igual modo receber eficazmente a salvação.

“Deus não é o autor da morte, a perdição dos vivos não lhe dá alegria alguma. (Sabedoria 1, 13)” 

A tua perdição, ó Israel, vem de ti. (Oseias 13, 9) ”

Deus ama todos os seres humanos por querê-los usufruindo da beatitude na vida eterna:

“Deus quer que todos os homens sejam salvos.” (I Tm II, 4)

Mas o Criador não deseja nos salvar de qualquer jeito, pois atingir a vida eterna implica rejeitar livremente tudo aquilo que Deus odeia e reprova, tanto quanto livremente aderir, ser fiel e servil à Divina vontade soberana. E é por conta da liberdade de escolha que muitos se perderão do reto caminho:

“[…] os desejos insensatos e nocivos precipitam o homem no abismo da ruína e da perdição. (I Tm 6,9) ”

“Assim vosso povo esperava tanto a salvação dos justos como a perdição dos ímpios.  (Sabedoria 18, 7) ”

“Acaso não sabeis que os injustos não possuirão o reino de Deus? (I Coríntios 6,9) ”

Deus não castiga os maus pelo mal que Ele permitiu que praticassem negando-lhes acesso ao Bem, nem recompensa os bons pela bondade que Ele os coagiu a praticar. Deus premia os justos por terem se deixado espontaneamente conduzirem-se pelo Bem que só Ele pode, e quer realizar através deles; assim como condena os maus pelo mal que espontaneamente realizaram por terem, por vontade própria, abandonado a bondade que só há em Deus.

O pecado nos torna maus por nossos próprios deméritos e imperfeições.

“O povo insensato lança-se a perdição. (Oseias 14, 4) ”

“Ora, Efraim transviou-se e Israel maculou-se; (Oseias 5, 3)” 

Ensinou Santo Tomás de Aquino, que o livre arbítrio é uma faculdade da razão e da vontade, que dentre outras situações, nos permite escolher entre o Bem e o mal.[1]

Mas a liberdade humana, tal como criada por Deus em estado de perfeição, consistia na escolha entre um Bem maior ou menor, nunca entre o Bem ou o mal. O pecado não é obra de Deus, porque ele nasce da desordem de uma virtude que o próprio Criador nos concedeu, chamada liberdade, pela qual nos é permitido desejar, e por causa desse desejo livre sermos movidos espontaneamente por Ele, até Ele.

Por causa da desobediência adâmica que nos levou ao pecado, essa liberdade se perverteu, permitindo que o homem também pudesse escolher livremente algo que não tivesse Deus por fim último de sua escolha.

Assim é a liberdade, que tanto nos abre, quando nos fecha para a ação Divina em nossas vidas:

“Vede: Proponho-vos hoje BENÇÃO ou MALDIÇÃO. Bênção, se obedecerdes aos mandamentos do Senhor, vosso Deus, que hoje vos prescrevo. Maldição, se não obedecerdes aos mandamentos do Senhor, vosso Deus, e vos apartardes do caminho que hoje vos mostro, para seguir­des deuses estranhos que não conhe­ceis.” (Deuteronômio 11. 26, 27 e 28)

Embora o ser racional possa discernir, escolher e ter vontade livre de praticar o Bem que escolhe, é fato que pela condição que o pecado lhe impôs, realizar o Bem escolhido só poderá se dar por meio de Deus.[2] A opção pelo mal herdamos do pecado na desorientação do livre querer que a Graça Divina novamente reordena, não só movendo livremente nosso desejo para a bondade, mas também nos capacitando praticá-la.

Ensinou São Paulo:

“Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o Bem, PORQUE O QUERER O BEM ESTÁ EM MIM, mas não sou capaz de efetuá-lo. Porque não faço o Bem QUE QUERO, mas o mal que não quero. ” (Rm 7,18 e 19)

Explica Santo Tomás:

“Não se deve entender esse passo do Apóstolo, no sentido em que o homem não quer e não corre por livre arbítrio; mas como significando que o livre arbítrio não é suficiente se não for movido e ajudado por Deus. ” (Suma Teológica Q 83. Art. 1º Do Livre Arbítrio)

O livre arbítrio é virtude cognitiva (do intelecto) e volitiva (da vontade), mas não operativa (prática), pois o Bem que se distingue, se deseja, e para o qual fomos criados não pode se realizar por meios naturais:

“Deus que OPERA tudo, em todos. ” (I Coríntios 12.6)

É próprio da vontade racional optar com liberdade por aquilo que deseja abraçar.

Conforme Santo Agostinho respondendo a Evódio, nenhum pecador perde a vontade livre[3]:

“EVÓDIO: Então lhe pergunto: Existe em nós alguma vontade livre?

SANTO AGOSTINHO: Queres saber? Então não me perguntes mais nada daqui por diante.

EVÓDIO: Por quê?

SANTO AGOSTINHO: Não posso responder a perguntas de quem não quer (livremente) saber as repostas. Pelo menos considere o seguinte, em relação a si mesmo: Não tens vontade (livre) alguma de levar uma vida feliz? (Santo Agostinho. Do Livre Arbítrio. Cap. 12 – O Papel da Boa Vontade. p. 26. Parágrafo 25.)

Por este motivo, é próprio do Deus ordenar o ser humano decaído ao fim para o qual fora criado e que não consegue alçar na condição de transgressor.

Esse fim único e último é o Bem supremo e eterno junto a Ele.

Excede a capacidade humana enfraquecida, ordenar-se por si só à eternidade com Deus. Neste compasso, é certo que o Criador realiza seus propósitos nos seres humanos, tendo a providência como regra e a predestinação como misteriosa exceção, as quais trataremos.

Em sua presciência, Deus já sabe daqueles em quem a sua Graça reagirá eficazmente antes mesmo da própria existência do ser agraciado, sabendo de antemão, os que serão capazes de perseverar até fim em obediência a sua Divina vontade, razão pela qual, Ele antecipa-lhes e lhes garante a salvação.

Presciência é o poder de prever e antecipar todos os acontecimentos futuros.

Toda presciência está no âmbito da ONISCIÊNCIA, que é um atributo exclusivo da Divindade, que lhe permite conhecer e ter domínio sobre todas as coisas passadas, presentes e futuras.

Pela presciência, Deus não apenas prevê o futuro real, o que realmente acontecerá em razão dos atos livres e autodetermináveis do ser humano, mas também o futuro incerto, em todas as suas infinitas possibilidades, assim chamados futuros contingentes.

Chama-se essa ciência de Deus, de “ciência média.[4]

Sendo presciente, é fato que Deus pode predestinar e preordenar infalivelmente o futuro.

E tendo presciência infalível, Ele então escolhe de antemão, e assim elege de modo certo os seus escolhidos para que sejam predeterminados à salvação, e tenham vida eterna antecipada, com os seus nomes já escritos definitivamente no Livro da Vida.[5]

Quando predestina, Deus age no livre arbítrio, e não na anulação da voluntariedade do predestinado.

Deus atua predeterminando aquele cuja vontade livre estará de modo perfeito e incondicionalmente disposta a recebê-lo no sacrifício da Pessoa do Filho Divino, assim como previu desde a fundação dos tempos.

Todo predestinado é levado por Deus a querê-lo com arrebatador ardor na alma.

Deus não os coage lhes tolhendo a vontade livre, posto que é justamente na vontade livre dos eleitos, que Deus se torna desejável mediante um impulso irrenunciável.

Para tanto, Ele cria ao redor da vivência humana os fatos, acontecimentos e as experiências que, como agentes externos, desencadearão em torno dos eleitos as circunstâncias que os atrairão, e os ordenarão inevitavelmente ao querer, ao buscar e o alcançar a salvação.

Sendo causa primeira de tudo, provém de Deus as chamadas causas cooperantes ou secundárias que concorrem (co-ocorrem) para a predestinação do eleito:

“Aliás, sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, DAQUELES que são os ELEITOS, segundo os seus desígnios. Os que ele distinguiu de antemão, também os predes­tinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que este seja o primogênito entre uma multidão de irmãos. E aos que predestinou, também os chamou; e aos que chamou, também os justificou; e aos que justificou, também os glorificou. (Rm 8. 28 a 30) ”

Dessa maneira, Deus atrai os eleitos pela regeneração do livre arbítrio, nunca pela anulação porque a liberdade é um Bem necessário ao Amor, uma virtude graciosa dada pelo próprio Criador.

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/07/13/o-livre-arbitrio-e-indispensavel-para-amar-a-deus/

Destarte, a causa primeira e principal da predestinação dos eleitos, atua em conjunto com a livre vontade humana destes enquanto causa secundária e coadjuvante, havendo, portanto, causalidade mútua entre Deus e o predestinado, afinal, não seria soberano, e nem onipotente um “deus” que não conseguisse eleger, nem predestinar sem abolir a liberdade que Ele mesmo nos concedeu:

Ensina Luís de Molina:

“[…] a totalidade do efeito deve-se tanto a Deus, como às causas segundas; isto é, não se deve a Deus nem às causas segundas como causas totais, mas como causas parciais que ao mesmo tempo exigem o concurso e o influxo da outra causa do mesmo modo que, quando dois homens empurram uma embarcação. Este movimento na sua totalidade procede de cada um deles, mas não como causas totais do movimento porque qualquer deles produz ao mesmo tempo com o outro o todo, e cada uma das partes do mesmo movimento. (Luís de Molina, Concórdia, d. 26, 15, p. 170) ”

Apesar disso, o ato de Deus não se subordina, e nem está no mesmo nível com o ato humano livre enquanto causa da predestinação. O ato humano lhe é muitíssimo inferior.

Usando a metáfora do barco, imaginemos que duas pessoas empurrem uma embarcação para o mar, sendo uma, um indivíduo adulto e a outra uma criança.

Embora as duas ações resultem num mesmo movimento indivisível, aquele que emprega a força menor (criança) está na dependência do que emprega a força maior (adulto), o qual, por sua vez, poderia empurrar o barco sozinho, mas para tornar digno o mais fraco, consente que ele participasse do nobilíssimo movimento que lança a nau ao mar.

Por isso está escrito:

“Bendito seja Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto do céu nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo, e nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos. No seu amor nos predestinou para sermos adotados como filhos seus por Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua livre vontade, para FAZER RESPLANDECER A SUA MARAVILHOSA GRAÇA, que nos foi concedida por ele no bem-amado.” (Efésios 1. 3, 4, 5 e 6)

Apesar de agir no eleito de maneira livre, soberana e incondicional, a eleição que Ele realiza não é de forma alguma irracional e injusta, porque a perfeição da sua Divindade age sempre em harmonia com sua reta Justiça.[6]

Deus não trata (elege) de modo diferente, aqueles que estão numa mesma condição (de pecado).

Assim, o que levou a Deus, soberanamente, eleger JACÓ e não eleger ESAÚ é o mal ou o Bem que cada um realizaria futuramente, conforme a infalível presciência de Deus, como ensinou o Apóstolo:

“Antes que fossem nascidos, e ANTES QUE TIVESSEM FEITO BEM OU MAL ALGUM, para que fosse confirmada a liberdade de escolha de Deus. ” (Rm 9, 11)

“Antes” que eles tivessem feito o Bem ou o mal, e isto absolutamente não significa INDEPENDENTE que viessem a fazer Bem ou mal.

Tal não implica, portanto, que o Bem que Deus realizaria por meio de Jacó, e o mal que Esaú escolheria voluntariamente realizar tendo como causa livre o abandono a Deus,[7] não viessem a existir no futuro.

A Onisciência de Deus, antevendo no futuro a escolha livre e final pelo Bem por parte de Jacó e a opção pelo mal realizada por seu irmão gêmeo Esaú, o fez amar ao primeiro e detestar o segundo. Amar e detestar não imotivadamente, mas segundo suas futuras ações boas ou más, já que Deus não odeia ninguém por puro capricho de vontade:

Como está escrito: “Amei a Jacó, porém, aborreci Esaú. ” (Rm 9, 13)

“Pois, aqueles que de antemão conheceu, Ele também os predestinou. ” (Rm 8. 28 até 30)

“E aos que predestinou, também os chamou, e aos que chamou, também justificou; e aos que justificou, também os glorificou. ” (Rm 8, 30)

Deus conhece a todos, e se a todos conhece, a muitos predestinou, e se os predestinou, os escolheu. É a onisciência de Deus que antecipa suas escolhas. Não é a conduta humana futura do eleito que fará com que Deus o predestine. Deus é sempre a causa primeira de todas as coisas, e não pode ser movido pela ação humana passada, presente ou futura. O Bem futuro a ser realizado pelo eleito não é causa da predestinação, mas sim, a FINALIDADE pela qual Deus predestina.

Deus elege visando o Bem futuro no predestinado, o qual, por óbvio, NÃO poderá se realizar se Deus NÃO predestinar.

Assim, o Bem que Jacó faria no porvir,[8] só poderia ocorrer por causa da predestinação anterior de Deus.

Ensina Santo Tomas:

“[…] ninguém ouve antes tão insano para dizer que os méritos, quanto ao ato do predestinado, fossem a CAUSA da Divina predestinação, […] os méritos, como efeito, da predestinação é que são a razão dela. Ora, é claro que o resultado da Graça, sendo o próprio efeito da predestinação, não lhe pode servir de CAUSA. ” (Suma Teológica. Q 34, art. 5. Da Predestinação. Livro)

O Concílio de Trento, entre os anos 1.545 e 1.563, proclamou como Dogma da Fé, condenando a heresia calvinista:

 — Cân. 5. Se alguém disser que o livre arbítrio do homem, depois do pecado de Adão, se perdeu, ou se extinguiu, ou que é coisa só de título, ou antes, título sem realidade, e enfim, uma ficção introduzida na Igreja por Satanás — seja excomungado [cfr. N° 793 e 79

O Concílio de Orange, desde o ano de 529, ao confirmar o pensamento agostiniano harmônico com a Tradição e as Escrituras decretou contra a heresia pelagiana:[9]

 — Cân 12: Deus nos ama não em razão do que somos por méritos próprios, mas em razão do que podemos ser através dos seus dons.

 — Cân 13: Do Livre Arbítrio> a vontade enfraquecida do homem após o pecado pode ser restaurada pela Graça do Batismo. Daí a verdade que diz: – “Se o Filho te libertar, então estarás verdadeiramente livre. ”

Mas se é certo que todo indivíduo que Deus predestina, Ele o move em direção à salvação certeira, também é certo que nem todos que Deus move Ele predestina, porque sua soberania infinita lhe faculta também agir pela Providência:

Como ensinou São João Damasceno (+749):

“Devemos saber que Deus tem presciência de tudo, mas nem tudo predetermina. (A Fé Ortodoxa, l. cap. II) ”

Por consequência, Ele não predestina naqueles que anteviu que, por vezes, terão vontade dúbia e oscilante no curso da vida terrena entre a perfeição e a perdição.

Aqueles que, por vontade própria e espontânea, se colocarão sempre na condição de dupla escolha durante toda sua vivência, e não raras vezes, desprezando a ação de Deus em suas vidas para conduzi-los à salvação. Deus cria também ao redor desses, e assim, providencia todas as condições eficientes para a salvação dos não predestinados, que mesmo assim, poderão agir com certa margem para se afastarem Dele, resultando Na sobreposição de suas vontades acima da vontade Divina, e não em harmonia com ela, como se dá com os predestinados:

Ensinam as Escrituras:

“Deus criou o homem desde o princípio e o deixou na mão do seu próprio CONSELHO. (Eclesiástico 15,14) ”

“É NECESSÁRIA a perseverança para fazerdes a vontade de Deus e alcançardes os bens prometidos. ” (Hebreus 10, 36)

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/08/15/a-perseveranca-e-a-salvacao/

“Aquele que PERSEVERAR ATÉ O FIM será salvo. ” (São Mateus 24, 13)

Existem, dentre os alcançados pela Providência os que resistem à Graça:

Em Atos 7,51 Santo Estêvão disse aos fariseus: 

“[…] vós sempre RESISTIS ao Espírito Santo.  

Com isso, Deus move os não eleitos, sem predeterminá-los, todavia, sem negar-lhes possibilidades amplíssimas da aceitação perseverante aos seus caminhos:

“Mas sois vós, Pai, que o governais pela vossa Providência, porque, se ABRISTES CAMINHO, mesmo no mar, e uma rota segura no meio das ondas. (Sabedoria 14, 3)

“Graças a ti nós gozamos de paz, e PELA TUA PROVIDÊNCIA se têm corrigido muitos abusos em nossa nação. (Atos dos Apóstolos 24, 2) “

Ora, é pela liberdade desordenada que o homem busca o mal, e não por obrigação ou coagido pelo próprio mal.[10]

Desordena-se a liberdade quando o indivíduo desconsidera voluntariamente tudo que Deus cria ao seu redor para lhe permitir que o seu livre arbítrio reaja a Graça Divina, para que assim, escolhendo o Bem e desprezando o pecado, possa ser levado à salvação. Essas circunstâncias criam cotidianas oportunidades para a escolha entre a vontade de Deus que nos conduzirá à Glória ou a vontade humana condutora à perdição. Bom exemplo dessa providência Divina cotidiana que nos permite a santificação está no cuidado com os filhos:

“[…] aquele que, sem nenhum constrangimento e COM PERFEITA LIBERDADE DE ESCOLHA, tiver tomado no seu coração a decisão de guardar a sua filha virgem, PROCEDE BEM. ” (I Cor 7, 37)

“Esta é a vontade de Deus: a VOSSA SANTIFICAÇÃO; que eviteis a impureza” (I Tess 4, 3)

Na providência, as oportunidades de salvação são seguras, não havendo segurança na própria aceitação da salvação por parte do indivíduo, embora só Deus saiba quem será recompensado ou não. Logo, a falibilidade da salvação no âmbito da atuação providente de Deus não pode ser imputada ao salvador, mas tão somente à vontade humana livre.

Se o ser humano pode escolher deixar-se mover a Deus: (Concedeste-me vida e misericórdia e tua providência conservou o meu espírito. Jó 10, 12); também pode livremente repudiar as ações da providência Divina que o move a salvação: (Quem é este que obscurece a Providência com discursos sem sentido? Jó 38, 2)”  Deus nos dá tudo que é necessário para que nos movamos espontaneamente à salvação, mas sabe que a salvação ficará a mercê da livre escolha, pois não há apelos irresistíveis e forçados a que o homem, diante da providência Divina, não possa escolher caminho errôneo.

“Vede: proponho-vos hoje BÊNÇÃO ou MALDIÇÃO. ” (Deuteronômio 11, 26)

Deus não dá ao ser humano apenas uma existência, mas existência digna, a qual não se poderia ter estando com a sua vontade escrava e coagida sem qualquer liberdade de escolha.

E quanto maior a liberdade, maior a Graça, e quanto maior a Graça, maior a perfeição da escolha.

A busca pela santificação só é válida se for livre, porque Deus sabe que para sua perfeita justiça, recompensando ou condenado, é mister que o homem receba os efeitos de providência (conversão e regeneração) de maneira espontânea e consciente.

Explica Santo Agostinho:

“[…] a lei eterna já decreto com firmeza irremovível o seguinte: O merecimento está na VONTADE. Assim, a recompensa ou castigo serão o seguinte: beatitude ou desventura. E porque, ao afirmarmos que os homens são voluntariamente desafortunados, não quer dizer que eles voluntariamente querem ser infelizes, mas que a desgraça pode atuar mesmo contra a vontade da felicidade. Não há, pois, nada de contraditório ao raciocínio precedente: Todos querem ser felizes, mas sem poder sê-los, pois nem todos querem viver com retidão. ” (Santo Agostinho – O Livre Arbítrio. Cap. 14, p. 30 – O Pecado Provém do Livre Arbítrio)

E continua:

“[…] se o homem carecesse do livre arbítrio da vontade, como poderia existir o Bem da Justiça, condenando os pecadores, e premiando as boas ações? A conduta desse homem não seria pecado, nem boa ação, caso não fosse voluntária. O castigo, como a recompensa, seria injusto se o homem não fosse dotado da vontade livre. (Livro II – Cap. I p. 39, Deus é o Autor do Livre Arbítrio) ”

Sendo livre a escolha pelo Bem e pela perfeição, significa que a escolha por Deus também seja, já que não há Bem, nem perfeição que não esteja em Deus e que não provenha de Deus para o homem:

“ESCOLHEI hoje a quem QUEREIS servir: se aos deuses, a quem serviram os vossos pais além do rio, se aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Porque, QUANTO A MIM, EU E MINHA CASA SERVIREMOS O SENHOR. ” (Josué 24. 15)

É certo que Deus não predestina a todos, como também é certo que ele não nega a ninguém a providência necessária à salvação.

Por isso, está escrito:

“Todos serão ensinados por Deus. ” (Isaías 54, 13)” 

“Assim, todo aquele que ouviu o Pai e foi por ele instruído vem a mim. ” (São João 6. 45)

E a par disso, temos como realidade essa dualidade, pois uma vez que o homem é regenerado e convertido à vontade de Deus, poderá ainda ser levado a contrariá-la novamente, decaindo ou resistindo à Graça:

“Aquele que PERSEVERAR ATÉ O FIM será salvo. ” (São Mateus 24, 13)

“[…]experimentaram a doçura da palavra de Deus e as maravilhas do mundo vindouro e, apesar disso, CAÍRAM NA APOSTASIA. ” (Hebreus 6, 5)

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/08/30/o-pecado-da-apostasia/

Deus é o Senhor soberano de seus desígnios.

Mas, para a realização dos mesmos, serve-se inegavelmente também do concurso das criaturas.


[1]           http://permanencia.org.br/drupal/node/1681 Suma Teológica de Sto. Tomás de Aquino.

[2]       Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o lavrador; vós as varas; quem está em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. ” (São João 15.5)

[3]      Dizer que Santo Agostinho defendia que o ser humano é “totalmente depravado” não havendo nenhum Bem ou que a predestinação se dá sem livre arbítrio é fábula, desonestidade intelectual, criada na tentativa de legitimar erros Teológicos e Filosófico do calvinismo, o qual afirma que Deus é causa da perdição do homem, quando não decreta (contra a vontade deste), a sua salvação. Sobre vontade humana e soberania de Deus, vemos claramente o santo doutor defende a vontade livre em inúmeras obras, dentre elas, o “De Libero Arbitrio e o “De Malo – Origem do Mal”. O fato do ser humano, mesmo pecador, querer ser feliz e viver eternamente prova que não há nele depravação TOTAL, assim como existir nele a vida é por si só, prova de haver nele um Bem, ainda que relativo.

[4]       Pe. Luís de Molina, em sua obra “Concórdia” d. 52, 11. P. 341, ensina que em Deus, existe a ciência natural (pela natureza omnisciente) na qual Ele tudo conhece, tudo domina e tudo sabe por antecedência. Há a ciência livre, que é a ciência de tudo que irá acontecer depois que o ser humano livremente escolhe de fato os seus caminhos e pratica suas ações. A ciência média é justamente intermediária entre uma e outra. A Igreja aceita oficialmente o sistema Molinista (1.600) e Tomista, este, formalizado por Bañes (1.604), no que pertine a doutrina na predestinação. O Papa Bento XIV confirmou esta decisão em um decreto de 13 de julho de 1748. Acolho o Molinismo, porque, em minha ótica, o sistema tomista é mais filosófico que teológico, além do molinismo ser de mais fácil assimilação.

[5]     LIVRO DA VIDA é a metáfora ao que está registrado no intelecto e na memória de Deus, a respeito dos eleitos à vida eterna, conforme Santo Tomas. (Suma Teológica Q 34, art.1. Da Predestinação). “Por onde é manifesto que predestinação é uma ordem certa de determinados seres para a salvação eterna, existente na mente Divina”

[6]     Se Deus não consegue eleger e predeterminar sem anular o livre arbítrio, então Ele não é soberano. A soberania de Deus não atua por coação, e sua onipotência como tirania. E como declarou o Concílio de Trento (anos 1.546), o calvinismo nascido da obra “As Institutas da Religião Cristã, vol. III de João Calvino (ano 1.536), é uma doutrina estranha e incompatível com a fé cristã. Quando o calvinismo defende a predestinação e eleição como única e exclusiva via para alcançar o sacrifício de Cristo, ele afirma a dupla predestinação (Deus elege uns para a salvação, e por exclusão, os demais para a condenação)

[7]             Esaú vendeu seu direito sagrado a primogenitura (Gn 25, 34) e depois jurou vingança de morte contra seu irmão Jacó. (Gn 27.41)

[8]             Jacó, por sua vez, além de perdoar seu irmão, ainda jurou fidelidade eterna a Deus. (Gn 31, 53) De Jacó sairia a extirpe de Cristo, por MARIA, descendente de Jessé.

[9]       Pelagianismo é a heresia que nega o pecado original, e por consequência, a necessidade do Batismo como instrumento da salvação. Segundo Pelágio, monge bretão (+420), o pecado de Adão nos afetou apenas como mau exemplo. Assim, o homem naturalmente ainda pode por ação voluntária e livre ordenar-se a Deus. O semipelagismo é a forma mais suave desse erro, teorizado pelo filósofo Cassiano (+435) que defende que embora seja capaz de livremente se ordenar a Deus, a perseverança Nele dependerá da obra Divina, razão porque, seria do ser humano apenas o primeiro passo para sua salvação. (O PECADO ORIGINAL. Felipe Aquino. Editora Cleofas)

[10]      Lutero, em sua obra “NASCIDO ESCRAVO” erroneamente defende o chamado “servo arbítrio” contra Erasmo de Roterdam. No contexto de seu pensamento, afirmou que o ser humano já nasce escravo do pecado em decorrência do pecado original.  Mas existe erro crasso nesse pensamento, o qual reside justo no fato de que até para se tornar escravo, o ser humano precisa desejar livremente perder sua liberdade em troca do prazer de pecar. O viciado em droga ou pornografia, assim não nasceu, mas assim se fez pelo mal hábito repetitivo (vício) que aos poucos minariam sua resistência virtuosa ao mal.

9 comentários

  1. E o que pensa da doutrina da condeterminação – ou dos decretos concomitantes – defendida pelos seguidores de João Duns Escoto? Segundo o beato, nossa vontade, ainda que livre, é dominada pela concupiscência (affectio commodi) e Deus, decretando que faremos determinada coisa, nos move infalivelmente a fazê-la (premoção moral infalível) e, convertendo nossas consciências, nos leva a amarmos a justiça (affectio iusti), ignorando os meios pelos quais chegaremos ao fim determinado por Ele. Nesse caso, somos condeterminados, pois Deus determina os fins enquanto nós, sendo voluntariamente livres, determinamos os meios pelos quais chegaremos a tais fins.

    Curtido por 1 pessoa

    1. O pensamento scotistas na alçada do teólogo franciscano Duns Scoto (1266-1308), que no futuro influenciaria os erros de Ockham, choca-se com o pensamento Tomista que é o oficial da Igreja, no sentido de que o mesmo Deus que nos dá o fim, nos move a esse fim por seus próprios meios. Talvez seja a condeterminação, uma forma implícita de defender a tese principal de Scoto no que tange a supremacia da vontade sobre a razão. Nisso então, a escolha livre dos meios colocaria a ação volitiva do homem em posição superior. Abraço Lucas.

      Curtir

  2. Nascido Escravo ou originalmente De Servo Arbitrio é uma obra publicada em 1.535, por Martin Luther (Martinho Lutero), como uma resposta ao pensamento teológico de Erasmo de Roterdam, chamada De libero arbitrio diatribe sive collatio (Sobre o Livro Arbítrio: Discursos ou Comparações) A teologia erasmiana funda-se no pelagianismo defendendo ser o homem o detentor livre de sua queda ou elevação. A teologia luterana vai ao extremo oposto, dizendo que o homem nasce sob o jugo do pecado, sem considerar a natureza das INCLINAÇÕES, além desconsiderar que para se colocar escravo do pecado há necessidade de um ato livre do indivíduo. Pond foi apenas o editor da obra, na versão original de Lutero.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s