Iconoclastia

QUEM PRIMEIRO ORDENOU A FEITURA DE IMAGEM SACRA? DEUS OU O HOMEM?

Tem-se por imagem toda informação captada pelo sentido visual.

No ser bruto ou irracional, em regra, a captação visível da cena dos acontecimentos cotidianos lhe serve de guia para sua percepção sensível, que determinará o seu comportamento instintivo diante dos fatos.

Já nos seres dotados de razão e intelecto, a captação da informação visual processada nessa razão e nesse intelecto, além de reger a percepção sensível, também lhe servirá como meio de instrução, direção e aprendizado.

Podemos facilmente provar tal assertiva pelas leis de trânsito, onde cada placa ou sinal visível ao condutor ou pedestre lhe prediz certa indicação, advertência, permissão, proibição ou simples orientação na maioria das vezes, com dispensa de qualquer letreiro ou sinal escrito.

E se todos os cinco sentidos do ser humano informam a razão e auxiliam seu intelecto, é necessário concluir que Deus utiliza alguns desses sentidos extrínsecos para nos comunicar certas verdades necessárias à nossa salvação.

Assim, Deus retratou muitas coisas futuras aos antigos patriarcas e profetas sem lhes dirigir uma só palavra escrita.

A Arca da Aliança, baú feito com madeira incorrupta de carvalho, e que trazia em seu interior as Tábuas da Lei; uma porção do Maná (pão do céu) e a Vara de Arão, era a imagem simbólica de CRISTO no ventre de sua Santíssima e incorrupta Mãe, vez que Cristo é o verdadeiro Pão do Céu representado no maná; o sumo Sacerdote representado na Vara de Arão, símbolo de autoridade eclesiástica; e o verdadeiro Legislador, representado pelas Tábuas das leis mosaicas.1

A figura da vasilha ou cântaro de barro sendo moldado e aperfeiçoado pelo oleiro, era a imagem do ser humano imperfeito e pecador, sendo santificado e aperfeiçoado nas mãos de Deus:

“[…] como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel.” (Jeremias 18, 6)

Também a escultura da serpente de bronze feita por Moisés, e pendurada numa madeira, era a imagem do pecado vencido na Cruz por Cristo:

“[…] e o Senhor disse a Moisés: “Faze para ti uma serpente ardente e mete-a sobre um poste. Todo o que for mordido, olhando para ela, serás alvo”. (Números 21, 8)”

“Moisés fez, pois, uma serpente de bronze, e fixou-a sobre um poste. Se alguém era mordido por uma serpente e olhava para a serpente de bronze, conservava a vida.” (Números 21, 9)”

O aprendizado sobre Deus passa necessariamente por mensagens, signos e informações lançados pela Divindade por meio de ícones, artefatos, gravuras, efígies, retratos e estampas, não estando restrito à letra ou grafia.

Ensinou a Igreja desde os primeiros séculos, que as imagens sagradas e suas informações visuais funcionam como catecismo sem palavras.

São João Damasceno lecionava:

“Não desprezes as imagens. Se desonras ou abandonas as imagens,lembre-sedo que Deus falou a Moisés: > “O Senhor disse a Moisés: 2.“Eis que chamei por seu nome Beseeel da tribo de Judá.3.Eu o enchi do Espírito Divino para lhe dar sabedoria, inteligência e habilidade para toda a sorte de obras: 4.invenções, trabalho de ouro, de prata, de bronze, 5.GRAVURAS em pedras de engastes, TRABALHO EM MADEIRA e para executar toda a sorte de obras. 6.Associei-lhe Ooliab, filho de Aquisamec, da tribo de Dã. E dou a sabedoria ao coração de todos os homens inteligentes, a fim de que executem tudo o que te ordenei; 7. a tenda de reunião, a Arca da Aliança, a tampa que a recobre e todos os móveis da tenda; 8. O ALTAR E TODOS OS SEUS ACESSÓRIOS, o CANDELABRO DE OURO PURO e todos os seus acessórios, o altar dos perfumes, 9.o altar dos holocaustos,com todos os SEUS UTENSÍLIOS E a bacia com seu pedestal; 10. as vestes litúrgicas, os ORNAMENTOS SAGRADOS para o sacerdote Aarão,as vestes de seus filhos para as funções sacerdotais. Êxodo 31(Apologia Contra os que Condenam as Imagens Sagradas. Cap. I Parte I p. 15 e 16)

O Templo de Salomão fora ornado de IMAGENS e ESCULTURAS de seres terrenos e celestiais, conforme vontade do próprio Deus:

“Também fez na Casa do lugar Santíssimo DOIS QUERUBINS DE OBRA MÓVEL, e cobriu-os de ouro. (II Cr 3.10)”- “os querubins estendiam ambas as asas sobre o lugar da Arca, e cobriam, por cima, a arca e os seus varais. (II Cr 5,8). “Também na Casa revestiu, com ouro, as traves, os umbrais, as suas paredes e as suas portas; E LAVROU QUERUBINS NAS PAREDES.” (II Cr 3).

“Construiu também um ALTAR de bronze de vinte côvados de comprimento, vinte de largura e dez de altura. 2.Fabricou o “mar” de metal fundido, o qual tinha uma largura de dez côvados de uma borda a outra. 3.FIGURAS DE BOIS circundavam-no todo, ao redor, debaixo do rebordo, dez para cada côvado, em duas fileiras, fundidas numa só peça com ele.4.Era sustentado por DOZE BOIS, dos quais três olhavam para o norte,três para o oeste, três para o sul e três para o oriente.”(II Cr 4. 1 à 6)

Nossa fé,vontade e inteligência, na maioria das vezes são auxiliadas por nossas visões, e diversamente do que acorre em relação as imagens comuns, devemos extrair das imagens sacras, os sinais e símbolos das realidades invisíveis que elas nos retratam de modo visível.

Em contrapartida aos ensinos da fé apostólica, a absurda heresia ICONOCLASTA2 orienta como sendo ato de “idolatria” a confecção, exposição e reverência a qualquer retrato, escultura, relíquia ou afresco de santos, anjos e do próprio Jesus Cristo.

Apoiam-se numa visão absolutamente fundamentalista do antigo testamento, para defesa da ideia de que seria proibido fazer imagens sagradas,principalmente de Deus: “Não farás para ti escultura,nem figura alguma do que está em cima, nos céus, ou embaixo, sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra.” (Êxodo 20. 4.6)

O real motivo (ratio) para essa antiga norma proibitiva em retratar a Divindade por imagem, cingia-se, conforme as Escrituras, no fato de que “NINGUÉM JAMAIS VIU DEUS.” (São João 1, 18)

“[…] nenhuma forma vistes quando o Senhor vos falou no Horebe, do meio do fogo, não vos pervertais fazendo para vós uma imagem esculpida em forma de ídolo, em figura de homem ou mulher, de algum animal terreno, pássaro que voa no céu.” (Deuteronômio 4. 15 à 17)

“[…] ainda não vistes o seu semblante.” (Êxodo 33, 20)

Ora, que não pode ser visto, por óbvio também não pode ser fielmente retratado, nem por mera percepção artística.

Mas a ENCARNAÇÃO DO VERBO DE DEUS, que nos trouxe o Cristo como Divindade Humanizada, aperfeiçoou o preceito da imagem, elevando-a noutro contexto, numa nova realidade.

O PAI, até então jamais visto por ser Puro Espírito, TORNOU-SE VISÍVEL NO FILHO encarnado: “E o Filho único que está no seio do Pai, foi quem o revelou.” (São João 1,18)

Conhecemos então, as coisas invisíveis de Deus, pelos sinais visíveis que Ele deixou na história da humanidade.

Como disse o apóstolo:

“Desde a criação do mundo, as perfeições invisíveis de Deus, o seus sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à inteligência, por suas obras; de modo que não se podem escusar. (Romanos 1, 20)” 

Ora, se reconhecemos as coisas Divinas pelas coisas santas que vemos, por óbvio que essas coisas santas que nos demonstram sinais visíveis da revelação de Deus, podem e devem ser retratadas.

Neste contexto, esclarecem os escólios de Damasceno: (anos 676 à 749 DC)

“O Verbo que se fez carne permaneceu Verbo. Por isso, atrevo-me a retratar uma imagem do Deus invisível, não como Espírito invisível, mas tornado visível a todos nós em carne e ossos. Eu não desenho a imagem da Divindade imortal. Eu pinto a carne e os ossos visível de Deus, pois se é impossível retratar um espírito,quanto mais Deus,que dá fôlego a esse espírito. (Apologia aos que Condenam as Imagens Sagradas. Cap. I Parte I p. 12)

E prossegue o Santo Doutor:

“Essas prescrições (de proibição de imagens de Deus), foram dadas aos judeus por causa de sua propensão a idolatria. Nós, pelo contrário,não estamos mais sob esse jugo vigoroso, porque já passamos da infância para a maturidade (da fé).” (p. 12 e 13)”

Quando tentamos retratar a identidade de algo ou alguém que jamais vimos,fatalmente retrataremos uma falsificação, criando imagens inexatas, inautênticas e consequentemente uma falsa visão de Deus, que transformaria esse ornamento em ídolo.

Mas quando retratamos Cristo, temos Nele a imagem fiel e autentica de Deus conosco, pois “Ele é A IMAGEM DE DEUS INVISÍVEL, o Primogênito de toda a criação. (Col I. 15)”

“O Pai do Nosso Senhor, que por meio dos Profetas prometeu enviar o precursor,TORNOU VISÍVEL a toda carne a sua Salvação; isto é, o próprio Verbo feito Carne. (III Livro, p. 268, S. Irineu de Lyon,anos 130-220 DC)”

Se é santa a carne humana tomada da Santíssima Virgem na qual a plenitude da Divindade do Filho se Encarnou, porque não seria sagrada a montanhaque tragou em sua terra o sangue Santíssimo do Cristo crucificado? E a tumba de sua ressurreição? E os instrumentos do seu martírio,paixão e sacrifício, tais como os cravos, a coroa de espinhos e a cruz que são as provas do amor que o fez, por nós, aceitar toda sorte de humilhação e sofrimentos? E o ventre da Virgem santa que o concebeu e gerou? E as palavras das Escrituras que conservam a memória escrita da revelação de Deus aos homens?

Ora, a própria Bíblia é uma imagem silábica da manifestação de Deus a toda humanidade. E se todas essas coisas se tornaram santas em Cristo, como seria pecado tais coisas santas serem reproduzidas, vistas e reverenciadas por artefatos, como memorial visível de Cristo?

Tendo Deus se feito imagem no Filho, é certo que toda imagem tem por finalidade ser retratada.

O PAI, agora, TORNOU-SE RETRATÁVEL no FILHO, e Nele apenas poderá ser representado, pois o Filho é a única e exclusiva manifestação pessoal visível do Pai que nos fora dada.

É preciso ainda compreender que a Imagem de Cristo deverá ser retratada de maneira ICÔNICA, e não em seus traços fisionômicos, estatura,cor dos cabelos e olhos. Tais características pessoais são irrelevantes,pois o que importa é a retratação dos sinais materiais, criados para estabelecer um ensino mediante a comunicação visual.

Deus nos fala não só por palavras, mas por todos os nossos sentidos aptos à compreensão de sua mensagem. 

Não por acaso, Cristo é PALAVRA DE DEUS ENCARNADA.

Palavra Perfeita, que não precisa de sons e não se limita ensinar por vocábulos.

Cristo nos deixou magnânimas mensagens, e muitas delas sem utilizar da palavra oral, mas apenas da sua própria imagem.

Dentre elas, talvez a mais importante tenha sido a MENSAGEM DA CRUZ.

Quem não a conhece, até pode olhar para um crucifixo, e ter nele um “ídolo.”

Mas o conhecedor da mensagem sublime vê na cruz outra coisa, como nos lecionou a Tradição Apostólica, explicada por São João Belarmino (1.542-1.621) na obra “As sete Palavras de Cristo na Cruz.

Reparemos que a cruz é uma bifurcação, composta de duas tábuas retas em madeiro que se cruzam.

A primeira tábua, para lhe dar equilíbrio deverá ser fincada no chão com a outra extremidade apontada para o Céu, testificando que Cristo em seu sacrifício liga o Céu e a terra, o homem a Deus.

A segundo tábua, posta em transversal, aponta do oriente para o ocidente. A inscrição Inri (abreviação de Iesus Nazarenus Rex Iudeorum= Jesus Nazareno Rei dos Judeus, escrita com palavras em hebraico, latim e grego), fora COLOCADA EXATAMENTE NO MEIO DO CRUZAMENTO DOS MADEIROS, para indicar ser Ele o REI SUPREMO,tanto de judeus (oriente), quanto de gentios (ocidente). 

Rei Celestial, portanto, de todos os povos.

A Coroa de Espinhos simboliza que o seu Reino e Autoridade como Redentor Universal, estão edificados sobre o sangue sacrificial.

Morrendo com os membros superiores esticados, sinalizou que Ele morrera de BRAÇOS ABERTOS para a conversão e o perdão a todos nós, pecadores.

Por último, ter sido sacrificado num SÍMBOLO ROMANO prediz o sinal que identificará que sua Igreja seria romana, e não judaica. A remissão dos pecados acontece justo num símbolo latino (Tau),ensinando que o Corpo Místico de Cristo QUE É A IGREJA (Efésios 5.3), está definitivamente ligado à ROMA.

Não fosse a imagem, essa mensagem majestosa da Cruz já teria se perdido.

Por isso, a Cruz para nós católicos, não é um símbolo pagão, mas símbolo da nossa salvação.

A mensagem visível da Cruz, é apenas um fragmento da importância da mensagem visual no plano da revelação Divina que estabelece a comunicação entre Deus e o homem.

Obviamente que uma imagem artificial não deve ser confundida com seu modelo original, razão porque, nenhuma imagem de Cristo deve ser adorada,vez que a única imagem digna de adoração (latria) é o próprio Cristo, o Deus Filho, imagem autentica e perfeita do Pai.

https://magisteriotradicaoescrituras.com/category/adoracao/

Entretanto, a imagem de coisa santa ou de uma autoridade deve ser respeitada,venerada, não por sua substância, ou seja, não pela madeira, gessou ou outro material na qual fora esculpida, mas porque representa algo santo ou oficial.

Ensinou Santo Atanásio (ano 373):

“[…] como na ausência do rei, é a sua imagem é homenageada em vez de si mesmo, o desrespeito a sua imagem também é um desrespeito do seu original.” (Súmula Contra os Pagãos)

Ensinou São Dionísio, o areopagita, discípulo de São Paulo, citado em Atos 17.34:

“[…] em vez de anexar a concepção comum as imagens, devemos olhar para o que elas simbolizam, e não desprezes a marca divina e o caráter que elas retratam, como sendo imagens sensíveis de visões misteriosas e celestiais.”(Epístola a Tito, ano 65)

O respeito a imagem demonstra o respeito que temos para com o seu modelo.

Deus invisível, antes de sua Encarnação através do Filho, também mostrou-se a alguns santos em certos sinais e imagens.

Daniel viu a Deus numa semelhança de um homem (7.9-13); Moisés viu Deus em forma de uma sarça que ardia em fogo mas não se queimava (3. 1 à 17);  Isaías viu Deus como um velho, um ancião assentado em seu Trono (Is 6.1)

Ora, é certo que nenhum desses viu Deus como modelo autentico de sua substância e forma, senão, apenas por intermédio de sinais enigmáticos como a sarça ou imagens que o próprio Deus reproduziu de si mesmo para ser visto, imagens de homens, preanunciando a Encarnação do Verbo.

O respeito e devoção dirigidos a imagem é em razão do seu modelo original.

Do mesmo modo que quando veneramos e honrados as imagens sagradas honramos a Deus,também é possível desonrar Deus desonrando sua imagem.

O diabo exerce o seu ódio contra Deus, odiando sua imagem e semelhança que está no homem.

Como desonramos uma pessoa agredindo e destruindo o seu retrato, também a honramos respeitando a sua fotografia.

Por isso, a iconoclastia é a heresia que desonra Deus, desonrando as suas imagens e os seus sinais visíveis deixados para a humanidade.

A primeira imagem sagrada existente no universo foi a imagem de Deus na matéria humana, no homem,  imagem essa que se refletiu também na mulher, gerada dos ossos e da carne desse homem, e quando a Divindade ordenou ao casal que se multiplicasse, tacitamente, ordenou que pelos filhos, eles gerassem  outras imagens de Deus.

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1“Nossos pais comeram o maná no deserto, segundo o que está escrito:Deu-lhes de comer o pão vindo do céu” (Sl 77,24). (São João 6, 31)” Eu sou o Pão Vivo que desceu do Céu. (Jo 6. 51); “Toma em tua mão esta vara, com a qual operarás prodígios”.(Êxodo 4, 17)” Tu és sacerdote eternamente. (Hb 5.6); “porque o Senhor é nosso juiz, o Senhor é nosso legislador; o Senhor é nosso rei que nos salvará. (Isaías 33, 22)”

2Violento movimento político-religioso iniciado em Bizâncio, ano 730, por judeus e árabes influentes que se apresentavam como convertidos ao cristianismo. Eles defendiam a heresia de considerar ídolo toda imagem sacra (iconoclasmo), razão pela qual, por ordem do Imperador Julião (Juliano I, o apóstata) houve proibição de suas confecções, e punição severa a sua exposição e veneração,inclusive, fora no âmbito da Igreja. Essa antiga heresia, condenada no II Concílio de Nicéia (ano 717), é ressuscitada no protestantismo através de João Calvino. (1.564)

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