Penitência

O PERDÃO E A JUSTIÇA

Madonna de Leto, obra de Caravaggio (1.593 – 1.610)

Um dos efeitos da justiça, vinda do sacrifício de Cristo, é validar o arrependimento necessário ao perdão. Ora, aquele que se esforça para corrigir os pecados da sua fraqueza, não deve de modo algum ocultá-los, mas assumi-los, e suportá-los sobre os seus ombros, tomando-os por cruz, unida à Cruz maior que é de Cristo:  — “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. ” (São Lucas 9. 23)

Diz a Escritura:

“Quem dissimula suas faltas, não há de prosperar; quem as CONFESSA e as DETESTA obtém misericórdia.” (Provérbios 28, 13)

Ensinou São Cipriano de Cartago:

“Numerosas são as dádivas da misericórdia Divina, a fim de PRESERVAR o homem já remido (pelo sacrifício do calvário). Na generosidade e opulência que sempre operam para nossa salvação, o Pai mandou o Filho, que quis ser enviado para curar-nos e CONSERVAR-NOS vivificados. ” (S. Cipriano de Cartago. Ano 259, in Patrística – vol. 35. Livro I, p. 153)

Uma vez unidos o sacrifício vicário, somos restaurados, e assim CONSERVADOS na remissão dos nossos pecados, pois toda purificação, tem o propósito de preservar ou restituir o indivíduo ao estado de beatitude alcançado na comunhão com Cristo, através do Batismo: “Santificamos Deus em nossas vidas, rogando que Ele nos mantenha naquilo que começamos a ser no Batismo, rezando pela santificação permanente em nós, pois é necessária uma purificação contínua do pecado no qual incidimos. ” (S. Cipriano de Cartago. Ano 259, in Patrística – vol. 35. Livro I, p. 111)

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/11/22/apenas-o-batismo-nos-livra-do-pecado-original/

A Igreja ensina que a confissão penitencial é o desdobramento do batismo.[1]

Batizar é o primeiro passo para a reparação dos vícios espirituais, pois através dele, somos ligados ao sacrifício de Jesus, o que nos torna FILHOS DE DEUS, aptos a sermos perdoados dos pecados pretéritos, e futuros, nos quais ainda estaremos sujeitos.

Somente após o batismo, quando renascemos em Cristo como filhos de Deus, é que nossa confissão terá valia: — “Aquele que não nascer da ÁGUA e do ESPÍRITO, não poderá entrar o reino de Deus. ” (São João 3.3)

Daí a importância da confissão penitencial, para nos conservar no estado de purificação que alcançamos no Batismo: — “Então eu vos CONFESSEI o meu PECADO, e NÃO mais DISSIMULEI a minha culpa. E vós perdoastes a pena do meu pecado. ” (Salmos 31, 5) “NÃO TE ENVERGONHES de CONFESSAR os teus pecados. ” (Eclesiástico 4, 31)”

O confesso há de ter plena convicção de que Deus perdoará absolutamente todos os seus delitos, exceto a blasfêmia[2] que é a rejeição consciente do próprio perdão de Deus.

Ensinou Santo Ambrósio de Milão:

“Deus é mais indulgente no perdão, que implacável no castigo. Não é, pois, evidente que o Senhor Jesus se indigna conosco quando pecamos, para chamar-nos à conversão pelo terror da sua indignação? Portanto, sua indignação não é a administração de um castigo, mas sobretudo uma obra de perdão. ” (Santo Ambrósio, In Patrística Coleções. Da Penitência, p. 61 e 63. Par. 11 e 22, anos 337 a 339)

Como diz o profeta:

“Quero mais misericórdia do que sacrifício; e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos. ” (Oséias 6.6)

É certo que todo defeito colide com uma perfeição, e por ela é aniquilado.

Tem-se perfeito aquilo que nada lhe falta para alcançar o fim que lhe é colimado.

Do contrário, o defeito é a incompletude, que impede o mover do ser a realizar o designo para o qual fora apontado.

No âmbito teológico, pecado é defeito, pois impede o ser humano de cumprir o seu destino de se unir a Deus.

Já a perfeição, está nas virtudes, que permitem a comunhão entre o Divino e o natural, o Criador e a criatura. Por isso, todo defeito que colide com a perfeição é por ela encerrado, como aniquilado será todo pecado que se opõe aos atos virtuosos.

O arrependimento que nos redime então, haverá de ser perfeito. Nele, nada pode faltar, sob pena de não atingir o efeito útil que é o perdão não divorciado da justiça. Mas para perfeição do arrependimento, não se pode dispensar a contrição, a confissão e a penitência.

Tem-se a contrição, como a profunda dor na alma que nos faz detestar o ato pecaminoso cometido, o qual agrediu aquele que mais nos ama, quando aproveitamos nossa vida para buscar a morte, desprezando o sofrimento do que morreu para nos dar a vida:

“Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. ” (São João 3.16)

“Se te CONVERTERES, e CHORARES, então estarás salvo. ” (Isaías 30.15)

Consiste num impulso da Graça, que nos dá disposição em não repetir o pecado no futuro. A dor causada pela detestação do pecado cometido, não pode ser guardada, pois há de ser expulsa de nosso âmago por intermédio da Igreja:

“Até quando aninharei a angústia na minha alma, e, dia após dia, a tristeza no coração? (Salmos 12, 3)”

“Chora de tristeza a minha alma; reconfortai-me segundo vossa promessa. (Salmos 118, 28)”

Surge assim, a necessidade de arremessar os “filhos da Babilônia” (figura dos pecados e vícios) contra o rochedo (figuras Cristo – 61, 8 e 61,3, e da sua Igreja – Mt 26. 13 a 18 e Efésios 2. 10 à 22),[3] consoante o disse o salmista:

“Ó filha de Babilônia,[4] a devastadora, feliz aquele que te retribuir o mal que nos fizeste! Feliz aquele que se apoderar de teus filhinhos, para os esmagar contra o rochedo!” (Salmo 136. 8 e 9)

A confissão ao sacerdote é o ato exterior da contrição, no qual, provamos a Deus, que estamos dispostos a nos humilharmos para que Ele, após, nos exalte: — “[…] se exalta será humilhado, e que se humilha será exaltado. (São Lucas 18.14)

Todo pecado é cometido contra o sacrifício que Cristo fez por seu Corpo Humano, razão porque, pelo Corpo Místico de Cristo que é a Igreja,[5] haverá de ser delido.

O pecado tem como causa a soberba, na supremacia das nossas vontades depravadas e perversas, sobre a vontade justa e reta de Deus, o que sói ocorrer por conta do orgulho que nos impede de enfrentar e assumir nossos próprios erros. Essa situação, faz com que muitos prefiram para recorrer a invencionice da chamada “confissão íntima e direta com Deus” na comodidade da consciência acovardada, sem bravura de assumir os pecados cometidos diante de um sacerdote, o que incentivará a pecar novamente, pois o erro perpetrado às escondidas sem o constrangimento reparador, tende se repetir. Nos colocarmos diante de outro pecador para confissão auricular, tem por almejo eliminar a soberba que perfaz a matriz de todo pecado nascido.[6]

O antídoto contra toda soberba é a humildade:

“Aos humildes salvais; os semblantes soberbos humilhais.” (II Samuel 22, 28)

“A soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda. (Provérbios 16, 18) ”

“Humilha profundamente o teu espírito, pois o fogo e o verme são o castigo da carne do ímpio. (Eclesiástico 7, 19)”

Confessar dignamente, significa nos colocarmos à disposição do juízo de Deus, atestando nossa miserabilidade, para que o piedoso juiz, possa nos agraciar com seus méritos, nos dando suas virtudes necessárias à absolvição. Mas não há como confessar, e declarar os pecados, sem ter quem os ouça com a Autoridade celestial para nos confortar, confirmando o perdão de Deus:

“Oh! Quanto melhor é admoestar que irritar-se, e não impedir de falar aquele que quer confessar a sua falta! (Eclesiástico 20, 1)”

O desprezo a confissão sacramental é fruto da soberba, e da ausência de fé na Igreja, negando autoridade às Palavras do Nosso Senhor e o Poder das Chaves que Ele delegou ao seu Corpo Místico Apostólico:

“Àqueles A QUEM PERDOARDES os pecados, SER-LHES-ÃO PERDOADOS; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos. ” (São João 20, 23) — “Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que LIGARES na TERRA será LIGADO nos CÉUS, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus. (São Mateus 16, 19)”

Não por outra razão, os santos Apóstolos realizavam as confissões penitenciais e indulgentes: —  “Muitos dos que haviam acreditado, vinham CONFESSAR e DECLARAR as suas obras. (Atos dos Apóstolos 19, 18) ”

Tal como os fariseus, que negaram em Cristo o poder para perdoar os pecados, porque não o viam como DEUS, agindo na dispensação do perdão através de sua humanidade, muitos hoje repetem o arcaico chavão de que “só Deus perdoa” apenas para se eximir da confissão sacramental:

“Quem é ESTE HOMEM que blasfema contra Deus desta maneira?  NINGUÉM PODE PERDOAR PECADOS; SÓ DEUS TEM ESSE PODER. ” (São Lucas 5. 21)

Mas a questão não é se só Deus perdoa, pois isto é uma obviedade. O ponto singular neste contexto, é a ciência de COMO, e de que FORMA Deus age para ministrar seu perdão.

Pela Encarnação do Verbo, Deus atua através de uma Humanidade, na qual o Filho tomou, e se deixou sacrificar para nos salvar.

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Se pelo Corpo humano do Cristo somos salvos, por seu Corpo Místico, chamado Igreja somos chamados à confissão e ao perdão.  Se no Corpo de Cristo[7] podemos ser liberados de toda dívida do pecado, por seu Corpo Místico ainda presente na história humana, somos convidados a confissão, para podermos receber a libertação vinda da cruz.

Não por outra razão, Cristo quando perdoava os pecadores, assim fazia se proclamando homem: —  “Ora, para que saibais que O FILHO DO HOMEM tem NA TERRA poder de perdoar pecados (disse ele ao paralítico), eu te ordeno: levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. No mesmo instante, levantou-se ele à vista deles, tomou o leito e partiu para casa, glorificando a Deus. ” (São Lucas 5. 25)

Quando disse do Filho do homem na terra, não estava falando apenas Dele, em sua natureza humana, mas dos filhos dos homens, dos líderes temporais da Igreja, que herdariam o seu sacerdócio no mundo após sua ascensão ao céu: — “Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que EU ESTOU CONVOSCO TODOS OS DIAS, até a consumação dos séculos. ” (São Mateus 28. 20)

Na humanidade tomada por Cristo nos foi dada a remissão dos pecados, e por corolário, o poder de perdoá-los. Essa humanidade ou Corpo Místico, que ainda está na história humana, numa realidade visível e palpável que é Igreja Católica, representada na sucessão apostólica: — “E quando já era dia, chamou a si os seus discípulos e escolheu doze deles, a quem também deu o nome de Apóstolos: Simão, ao qual também chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João; Felipe e Bartolomeu; e Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelotes; e Judas de Tiago; e Judas Iscariotes, que foi o traidor” (São Lucas 6. 13-16) “

“E convocando os seus doze discípulos, DEU-LHES AUTORIDADE e PODER. ”  (São Lucas 9,1) “E disse-lhes outra vez: ‘A paz esteja convosco. Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio’. Dito isto, soprou sobre eles e lhes disse: ‘Recebei o Espírito Santo. Aqueles a QUEM PERDOARDES OS PECADOS, ESTES LHES SERÃO PERDOADOS; AQUELES A QUEM OS RETIVERDES, ESTES LHES SERÃO RETIDOS” (São João 20. 21 -23)

“Conforme iam passando pelas cidades, iam também entregando, para que observassem, as decisões tomadas pelos Apóstolos e presbíteros em Jerusalém”  (Atos 16,4).

E assim, aconteceu a SUCESSÃO dos santos Apóstolos até os nossos dias:

“Designavam presbíteros em cada igreja, e após fazerem orações e jejuns, os encomendavam ao Senhor no qual haviam crido.” (Atos 14. 23)

“Deste testemunho de mim em Jerusalém, assim importa também que o dês em Roma.” (Atos dos Apóstolos 23, 11)

Assim sendo, realizada a contrição mediante sua exteriorização pela confissão, nos tornamos habilitamos à PENITÊNCIA.

Penitência ou reparação é o fruto visível e eficiente da Justiça, que se realiza pelo arrependimento, pois o que se lesou por ato, há de ser satisfeito por outro ato.

Todo sacramento, tal como a confissão, possui matéria e forma.

A forma na penitência são as palavras sacerdotais, confirmando a absolvição depois de apurado o autêntico arrependimento. A matéria direta[8] por seu turno, são os atos de justiça que realizamos após confessarmos.

Todo mal há de ser satisfeito por um Bem que o anule.

Não basta arrepender e confessar, deixando intactos os efeitos do malefício que se causou.

O mal que se realizou, só será solvido pelo dom CARIDADE, presente naqueles que estão com comunhão lícita com Cristo: “[…] a Caridade cobre todos os delitos. ” (Provérbios 10.12)

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Essa é a verdade Divina do Amor.

Sem justiça não haverá perdão válido, porque o ato de não agir para cessar os efeitos do mal que causou, ou na impossibilidade de cessá-los, deixar de praticar um Bem que o compense, é, portanto, um novo pecado: — “Não te deixes vencer pelo mal, mas TRIUNFA DO MAL COM O BEM. (Romanos 12.21) ”

“Renunciai a todas as VOSSAS FALTAS! Que não haja mais em vós o mal que vos faça cair. (Ezequiel 18, 30) ” — “Porém, se SE PERDOAR O ÍMPIO, ELE NÃO APRENDERÁ A JUSTIÇA; na terra da retidão ele se entregará ao mal e não verá a majestade do Senhor. (Isaías 26, 10)

Lembrando que só após Zaqueu, o corrupto coletor de impostos que hospedava Jesus, ter dito que venderia os seus bens, adquiridos em fraude, para doar aos pobres e indenizar aqueles a quem ele lesou, é que Cristo lhe diz: ” HOJE ENTROU A SALVAÇÃO NESTA CASA.” (São Lucas 19. 8 e 9)

“O Senhor é paciente; façamos, pois, PENITÊNCIA por isso e peçamos-lhe perdão com lágrimas nos olhos”, (Judite 8, 14)

___________________

[1]  Parágrafo 35.1 do Catecismo.

[2]  Mt 12.31

[3]  Ele é meu rochedo protetor, meu refúgio está nele. (Salmos 61, 8)

[4]  Babilônia, a Grande, a mãe da prostituição e das abominações da terra. (Apocalipse 17, 5)”

[5]  Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador. (Efésios 5, 23)

[6]  O primeiro pecado surgido, foi o pecado da soberba, pelo qual o diabo revoltou-se contra DEUS. (Ez 28.11-19)

[7] [ …] ele vos reconciliou pela morte de seu corpo humano, para que vos possais apresentar santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai. (Colossenses 1, 22)”

[8]  A matéria indireta é a água do Batismo, sem o qual não teria valor nosso arrependimento.

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