Penitência

O PERDÃO E A JUSTIÇA DE DEUS

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Um dos efeitos da justiça vinda do sacrifício de Cristo, é validar o arrependimento necessário ao perdão.

Ora, quem se esforça para corrigir os pecados de sua fraqueza, não deve de modo algum ocultá-los, mas assumi-los e suportá-los sobre os seus ombros, tomando-os por cruz unida à Cruz Maior que é de Cristo: >“Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me.”(São Lucas 9. 23)

Diz a Escritura:

“Quem dissimula suas faltas, não há de prosperar; quem as CONFESSA e as DETESTA obtém misericórdia. (Provérbios 28, 13) ”

Ensinou São Cipriano de Cartago:

“Numerosas são as dádivas da misericórdia Divina, a fim de PRESERVAR o homem já remido (pelo sacrifício do calvário). Na generosidade e opulência que sempre operam para nossa salvação, o Pai mandou o Filho, que quis ser enviado para curar-nos e CONSERVAR-NOS vivificados. (S. Cipriano de Cartago. Ano 259, in Patrística – vol. 35. Livro I, p. 153)”

Uma vez unidos no sacrifício vicário, somos restaurados, e assim CONSERVADOS na remissão dos nossos pecados.

Toda purificação penitencial tem o propósito de preservar ou restituir o indivíduo ao estado de beatitude alcançado na comunhão com Jesus Cristo através do Batismo:

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/11/22/apenas-o-batismo-nos-livra-do-pecado-original/

“Santificamos Deus em nossas vidas, rogando que Ele nos mantenha naquilo que começamos a ser no Batismo, rezando pela santificação permanente em nós, pois é necessária uma purificação contínua do pecado no qual incidimos. ” (S. Cipriano de Cartago. Ano 259, in Patrística – vol. 35. Livro I, p. 111)

A Igreja ensina que a confissão penitencial é o desdobramento do Batismo.[1] E batizar é o primeiro passo para o perdão, pois através dele somos ligados ao sacrifício de Jesus Cristo, o que nos torna FILHOS DE DEUS, aptos a sermos perdoados dos pecados pretéritos, e também futuros, nos quais ainda estaremos sujeitos.

Só após o Batismo, quando renascemos em Cristo como Filhos de Deus, é que nossa confissão passa ter valia:

“Aquele que não nascer da ÁGUA e do ESPÍRITO, não poderá entrar o reino de Deus. ” (São João 3.3)

Daí a importância da confissão penitencial para nos conservar no estado de purificação que alcançamos no Batismo:[i] “Então eu vos CONFESSEI o meu PECADO, e NÃO mais DISSIMULEI a minha culpa. E vós perdoastes a pena do meu pecado. ” (Salmos 31, 5)

“NÃO TE ENVERGONHES de CONFESSAR os teus pecados. ” (Eclesiástico 4, 31)” 

O confesso há de ter plena convicção de que Deus perdoará absolutamente todos os seus delitos, exceto a blasfêmia[2] que é a rejeição consciente do próprio perdão de Deus.

Como ensinou Santo Ambrósio de Milão:

“11. Deus é mais indulgente no perdão, que implacável no castigo. 22. Não é, pois, evidente que o Senhor Jesus se indigna conosco quando pecamos, para chamar-nos à conversão pelo terror da sua indignação? Portanto, a sua indignação não é a administração de um castigo, mas sobretudo uma obra de perdão. (Santo Ambrósio, In Patrística Coleções. Da Penitência, p. 61 e 63. Par. 11 e 22, anos 337 a 339) ”

E também o Profeta:

“Quero mais misericórdia do que sacrifício; e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos. ” (Oséias 6.6)

É certo que todo defeito colide com uma perfeição, e por ela é aniquilado.

Tem-se PERFEITO aquilo que nada lhe falta para alcançar o fim que lhe é colimado.

Do contrário, o defeito é a incompletude que impede o mover do ser a realizar o designo para o qual fora apontado.

No âmbito teológico, pecado é defeito, pois impede o ser humano de cumprir o seu destino de se unir a Deus.

Já a perfeição está nas virtudes que permitem a comunhão entre o Divino e o natural, o Criador e a criatura.

Por isso, todo defeito que colide com a perfeição é por ela encerrado, como aniquilado será todo pecado que se opõe aos atos virtuosos.

O arrependimento que nos redime há de ser perfeito.

Nele, nada pode faltar, sob pena de não atingir o efeito útil que é um perdão não divorciado da justiça. E para perfeição do arrependimento não se pode dispensar a CONTRIÇÃO, a CONFISSÃO e a PENITÊNCIA.

Tem-se a contrição, como a profunda dor na alma que nos faz detestar o ato pecaminoso cometido, o qual agrediu aquele que mais nos ama, quando aproveitamos nossa vida para buscar a morte, desprezando o sofrimento do que morreu para nos dar a vida: 

“Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. ” (São João 3.16)

“Se te CONVERTERES, e CHORARES, então estarás salvo. ” (Isaías 30.15)

Consiste num impulso da Graça que nos dá disposição em não repetir o pecado no futuro.

A dor causada pela detestação do pecado cometido não pode ser guardada, pois há de ser expulsa de nosso âmago por intermédio da Igreja.

“Até quando aninharei a angústia na minha alma, e, dia após dia, a tristeza no coração? (Salmos 12, 3)”

“Chora de tristeza a minha alma; reconfortai-me segundo vossa promessa. (Salmos 118, 28)” 

Surge assim, a necessidade de arremessar os “filhos da Babilônia” (figura dos pecados e vícios) contra o Rochedo (figuras Cristo – 61, 8 e 61,3, e da sua Igreja – Mt 26. 13 a 18 e Efésios 2. 10 à 22),[3] consoante o disse o salmista:

“Ó filha de Babilônia,[4] a devastadora, feliz aquele que te retribuir o mal que nos fizeste! Feliz aquele que se apoderar de teus filhinhos, para os esmagar contra o rochedo!” (Salmo 136. 8 e 9)

A confissão ao sacerdote é o ato exterior da contrição, no qual provamos a Deus que estamos dispostos a nos humilharmos, para que após, Ele nos exalte:

“[…] se exalta será humilhado, e que se humilha será exaltado. (São Lucas 18.14)

Todo pecado é cometido contra o sacrifício que Cristo fez por seu Corpo Humano, razão porque, pelo Corpo Místico de Cristo, que é a Igreja,[5] haverá de ser delido.

O pecado tem como causa a soberba, na supremacia das nossas vontades depravadas e perversas sobre a vontade justa e reta de Deus, o que sói ocorrer por conta do orgulho que nos impede de enfrentar e assumir nossos erros.

Essa situação faz com que muitos prefiram desprezar a confissão sacramental para recorrer a invencionice da chamada “confissão íntima e direta com Deus” na comodidade da consciência acovardada, sem bravura de assumir os pecados cometidos diante de um sacerdote, o que incentivará a pecar novamente, pois o erro perpetrado às escondidas, sem o constrangimento reparador, tende a se repetir.

Nos colocarmos diante de outro pecador para confissão auricular, tem por almejo eliminar a soberba, que perfaz a matriz de todo pecado nascido.[6]

E o antídoto contra toda soberba é a humildade:

“Aos humildes salvais; os semblantes soberbos humilhais. (II Samuel 22, 28) ” 

“A soberba precede à ruína; e o orgulho, à queda. (Provérbios 16, 18) “

“Humilha profundamente o teu espírito, pois o fogo e o verme são o castigo da carne do ímpio. (Eclesiástico 7, 19)” 

Confessar dignamente, significa nos colocarmos à disposição do juízo de Deus, atestando nossa miserabilidade para que o piedoso juiz possa nos agraciar com seus méritos, nos dando suas virtudes necessárias à absolvição.

Não há como confessar e declarar os pecados, sem ter quem os ouça com Autoridade dada por Deus para nos confortar, confirmando o perdão de Deus, recebido por intermédio daquele que os ouve:

“Oh! Quanto melhor é admoestar que irritar-se, e não impedir de falar aquele que quer confessar a sua falta! (Eclesiástico 20, 1)”

O desprezo a confissão sacramental é fruto da soberba e da ausência de fé na Igreja, negando autoridade às Palavras do Nosso Senhor e o Poder das Chaves que Ele delegou ao seu Corpo Místico Apostólico:

“Àqueles A QUEM PERDOARDES os pecados, SER-LHES-ÃO PERDOADOS; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos. ” (São João 20, 23)

“Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que LIGARES na TERRA será LIGADO nos CÉUS, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus. (São Mateus 16, 19)” 

Não por outra razão, os santos Apóstolos realizavam as confissões penitenciais e indulgentes:

“Muitos dos que haviam acreditado vinham CONFESSAR e DECLARAR as suas obras. (Atos dos Apóstolos 19, 18) ” 

Tal como os fariseus, que negaram em Cristo o poder para perdoar os pecados porque não o viam como DEUS agindo na dispensação do perdão através de sua HUMANIDADE, muitos, hoje, repetem o arcaico chavão farisaico descontextualizado de que “só Deus perdoa” apenas para se eximir da confissão sacramental: “Quem é ESTE HOMEM que blasfema contra Deus desta maneira? NINGUÉM PODE PERDOAR PECADOS; SÓ DEUS TEM ESSE PODER. (São Lucas 5. 21)

Mas a questão não é discutir se só Deus perdoa, mas COMO, e de que FORMA Deus ainda age na humanidade para ministrar seu perdão.

Pela Encarnação do Verbo, Deus atua através de uma Humanidade na qual o Filho tomou e se deixou sacrificar para nos salvar.

https://magisteriotradicaoescrituras.com/category/sacramentos/

Se mediante o se Corpo Humano somos salvos, por seu Corpo Místico chamado Igreja somos chamados a confissão e ao perdão.

Se no Corpo Humano de Cristo[7] podemos ser liberados de todos os pecados, pelo Corpo Místico de Cristo ainda presente na história humana, chamado IGREJA, somos convidados a confessar esses pecados para, então, podermos receber a libertação vinda da cruz.

Por isso, ao responder aos escribas e doutores da lei, Cristo quando perdoava os pecadores, o fazia se proclamando HOMEM:

“Ora, para que saibais que O FILHO DO HOMEM tem NA TERRA poder de perdoar pecados (disse ele ao paralítico), eu te ordeno: levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. No mesmo instante, levantou-se ele à vista deles, tomou o leito e partiu para casa, glorificando a Deus. ” (São Lucas 5. 25)

Quando disse do “FILHO DO HOMEM NA TERRA” não estava falando apenas Dele, em sua natureza humana, mas também de todos os “filhos dos homens” líderes temporais da Igreja, que herdariam o seu sacerdócio no mundo após sua ascensão ao Céu:

“Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que EU ESTOU CONVOSCO TODOS OS DIAS, até a consumação dos séculos. ” (São Mateus 28. 20)

Essa humanidade, que EM CRISTO foi dado o poder de perdoar os pecados, se faz agora presente na Igreja Católica, que é o Corpo Sobrenatural de Cristo, representada nos sucessores dos Apóstolos:

“E quando já era dia, chamou a si os seus discípulos e escolheu doze deles, a quem também deu o nome de Apóstolos: Simão, ao qual também chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João; Felipe e Bartolomeu; e Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelotes; e Judas de Tiago; e Judas Iscariotes, que foi o traidor” (São Lucas 6. 13-16) “

“E convocando os seus doze discípulos, DEU-LHES AUTORIDADE e PODER. ”  (São Lucas 9,1)

“E disse-lhes outra vez: ‘A paz esteja convosco. Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio’. Dito isto, soprou sobre eles e lhes disse: ‘Recebei o Espírito Santo. Aqueles a QUEM PERDOARDES OS PECADOS, ESTES LHES SERÃO PERDOADOS; AQUELES A QUEM OS RETIVERDES, ESTES LHES SERÃO RETIDOS” (São João 20. 21 -23)

“Conforme iam passando pelas cidades, iam também entregando, para que observassem, as decisões tomadas pelos Apóstolos e presbíteros em Jerusalém” (Atos 16,4).

E assim, aconteceu a SUCESSÃO dos santos Apóstolos até os nossos dias:
” Designavam presbíteros em cada igreja, e após fazerem orações e jejuns, os encomendavam ao Senhor no qual haviam crido. (Atos 14. 23) “

” Deste testemunho de mim em Jerusalém, assim importa também que o dês em Roma. (Atos dos Apóstolos 23, 11)”

Uma vez realizada a contrição e a confissão, nos tornamos habilitamos em realizar a PENITÊNCIA.

Penitência ou SATISFAÇÃO, é o fruto visível e eficiente da Justiça que se realiza pelo arrependimento, pois o que se lesou POR ATO, há de ser reparado por OUTRO ATO.

Todo sacramento, tal como a confissão, possui matéria e forma.

A forma na penitência são as palavras sacerdotais, confirmando a absolvição depois de apurado o autêntico arrependimento.

Já a matéria direta[8] são os ATOS DE JUSTIÇA que realizamos após confessarmos.

Todo mal há de ser satisfeito por um Bem que o anule.

Não basta arrepender e confessar, deixando intactos os efeitos do mal que causou.

O mal que se realizou só será solvido pelo dom CARIDADE, presente naqueles que estão com comunhão lícita com Cristo:

“[…] a Caridade cobre todos os delitos. ” (Provérbios 10.12)

https://magisteriotradicaoescrituras.com/category/fe-e-caridade/

Essa é a verdade Divina do Amor.

Sem justiça não haverá perdão válido, porque o ato de não agir para cessar os efeitos do mal que causou, ou, não havendo possibilidade de cessá-los, vir a deixar de praticar um Bem que o compense, é, portanto, um novo pecado.

“Não te deixes vencer pelo mal, mas TRIUNFA DO MAL COM O BEM. (Rm 12.21) ”

“Renunciai a todas as VOSSAS FALTAS! Que não haja mais em vós o mal que vos faça cair. (Ezequiel 18, 30) ” 

“Porém, se SE PERDOAR O ÍMPIO, ELE NÃO APRENDERÁ A JUSTIÇA; na terra da retidão ele se entregará ao mal e não verá a majestade do Senhor. (Isaías 26, 10)

Lembrando que só após Zaqueu, o corrupto coletor de impostos que hospedava Jesus, ter dito que venderia os bens adquiridos em fraude para doar aos pobres e indenizar aqueles que ele lesou, é que Cristo lhe diz:

” HOJE ENTROU A SALVAÇÃO NESTA CASA.” (São Lucas 19. 8 e 9) “

“O Senhor é paciente; façamos, pois, PENITÊNCIA por isso e peçamos-lhe perdão com lágrimas nos olhos”, (Judite 8, 14)

[1]Par. 35.1 Catecismo.

[2] Mt 12.31.

[3]“Ele é meu rochedo protetor, meu refúgio está nele.” (Salmos 61, 8)

[4]“Babilônia, a Grande, a mãe da prostituição e das abominações da terra”. (Apocalipse 17, 5)”

[5]Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador.” (Efésios 5, 23)

[6]O primeiro pecado surgido, foi o pecado da soberba, pelo qual o diabo revoltou-se contra DEUS. (Ez 28.11-19)”

[7]“[…] ele vos reconciliou pela morte de seu corpo humano, para que vos possais apresentar santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai. (Colossenses 1, 22)”

[8]A matéria indireta é a água do Batismo, sem o qual não teria valor nosso arrependimento.

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