Santidade

O PURGATÓRIO E A GRAÇA DE DEUS

Denomina-se purgatório,1 a finalização do processo de santificação dos salvos, que ocorrerá após a morte, numa das regiões celestiais.

Como disse NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, mestre das sentenças, e Senhor absoluto da Graça, ao explicar que, com exceção do pecado da blasfêmia que é imperdoável, haverá pecados que serão purificados nesta vida, e outros na vida vindoura:

“Todo o que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, NÃO ALCANÇARÁ PERDÃO NEM NESTE MUNDO, NEM NO MUNDO VINDOURO.” (São Mateus 12. 32).

Cabe aqui uma explanação mínima dos níveis do pecado.

No âmbito dos pecados de hábito ou atos, existem os mortais ou capitais, que causam ruptura do indivíduo com Cristo. São aqueles de natureza gravíssima, conforme listou2 o Apóstolo, exemplificativamente:

“Acaso não sabeis que os injustos NÃO HÃO DE POSSUIR O REINO DE DEUS? Não vos enganeis: nem os impuros, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os devassos,” (I Coríntios 6. 9)

Os que morrem neste estado ou condição, morrem distanciados da Graça, e portanto, correndo o risco real da condenação ao suplício eterno.

Noutro ângulo, há pecados que não são para a morte eterna, como registrou outro Apóstolo:

“Toda iniquidade é pecado, E HÁ PECADO QUE NÃO É PARA A MORTE.” (I S. João 5. 17)

É certo que salvo raríssimas exceções, os indivíduos carregarão até a morte a sua natureza pecaminosa.

Mas nem todos os delitos cometidos contra Deus serão considerados mortais.

Os chamados de pecados veniais, embora não impeçam a salvação do que pereceu na comunhão com a Graça Divina, obstruem a consecução do fim último do ser humano que é atingir à perfeição unido a Deus.

Como ens  inou Pe. Erasmo P.S.M:

“Nas almas que entram no Céu, nada deve faltar, de outro modo, faltaria alguma coisa em Deus, e então, a sua Bem Aventurança não seria Perfeita, pois somos chamados para NOS TORNARMOS A GLÓRIA DE DEUS. É um mistério profundo que não posso descrever, só admirar, saber que nos pertencemos a Deus, sendo-lhe os membros. Esta é a razão porque HAVERÁ DE EXISTIR UM PURGATÓRIO, que eu chamaria de Oficia da Reparação.” (O Segredo do Purgatório, p. 12, Ed. 1.946)

Dizem as Escrituras:

“A cidade não necessita de sol nem de lua para iluminar, porque a glória de Deus a ilumina, e a sua luz é o Cordeiro. NELA NÃO ENTRARÁ NADA DE PROFANO, nem ninguém que pratique abominações e mentiras, mas unicamente aqueles cujos nomes estão inscritos no Livro da Vida do Cordeiro.” (Ap. 21. 23 e 27)

Deus não nos receberá no Céu se estivermos com qualquer resquício ainda que mínimo de pecado.

Em sua infinita piedade, concedeu Deus ao homem a oportunidade de se purificar neste mundo, (nos auxílios da Graça, como sacramentos, e em especial, arrependimento e penitência), como também no porvir aos que por mais que lutaram, não lograram a santificação ascética nesta vida terrena.

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/11/07/santidade-ou-malicia-dois-caminhos-a-escolher/?fbclid=IwAR3w-huFy_eWeO8FXpLFoHXRddhS0WZqU7mbyM7ivah1QzqwncCPLqjZB6o

O purgatório é onde a misericórdia Divina realiza a reparação completa dos que, embora tenham morrido na Graça salvífica, morreram com certos vícios de maldade. E mesmo que esses vícios pecaminosos não os impeçam à vida eterna, precisarão ser expurgados, para que se tornem limpos, e possam obter a comunhão plena na incorrupção do Corpo Místico de Cristo, sem a qual não poderão entrar na “Jerusalém Celestial,” nem tomar parte na ressurreição corporal para a felicidade plena e a vida eterna.

Como está escrito:

“Se ele não julgasse que os MORTOS RESSUSCITARIAM, TERIA SIDO VÃO E SUPÉRFLUO REZAR POR ELES. Mas, se ele acreditava que uma bela recompensa aguarda os que morrem piedosamente, era esse um bom e religioso pensamento; eis porque ele PEDIU UM SACRIFÍCIO EXPIATÓRIO para que OS MORTOS FOSSEM LIVRES DE SUAS FALTAS.” (II Mac 12, 43-46)

Mesmo sendo um dom místico, disposto a todos, indistintamente, a santidade só é alcançada por alguns, como os santos, místicos, taumaturgos e mártires.

Mas nem por isso devemos negligenciar nossa santificação, porque apesar de estarmos salvaguardados da pena eterna, a passagem pelo purgatório implicará na sujeição às penas temporais que é a privação momentânea do Amor de Deus:

“O fogo do purgatório É TEMPORAL em seu efeito purificador.” (Santo Tomás de Aquino. Suma Teológica, Q 2 Apêndice, art. 1º Do Purgatório).

Explica ainda o Pe. Erasmo:

“É ali que compreenderão como Deus é Amoroso, Bondoso e Grande. Compreenderão que negligenciaram, e muitas vezes agrediram esse Amor e Bondade. Veem agora, diante de si, todas as graças e tesouros que perderam (em vida); e a Paixão e Morte de Cristo pela qual não compadeceram; e ainda reconhecerão a injustiça que fizeram contra o Amor e a Bondade de Deus. E isso lhes queimará a alma, COMO FOGO, e só pelo Precioso Sangue de Jesus (na purificação desses pecados) PODERÁ TER ALÍVIO.” (O Segredo do Purgatório, p. 12, Ed. 1.946)

O fogo, na simbologia escriturística, tanto pode representar o castigo eterno, quanto a obra de assepsia ou purificação que Deus realiza no ser humano.

E no que diz respeito ao FOGO PURIFICADOR está Escrito:

O Senhor terá lavado a imundícia das filhas de Sião e purificado as manchas de sangue de Jerusalém do meio de si por um espírito de juízo e POR UM ESPÍRITO ARDENTE” (Is 4, 4)

o que PASSAR PELO FOGO SERÁ LIMPO. (Nm 31,23)

“Do céu ele permite que ouças a voz dele, para que ele possa disciplinar-te; e na terra te permitiu ver o SEU GRANDE FOGO, e ouvistes as suas palavras do meio do fogo. ”(Dt 4,36);

“Passamos pelo fogo” (Sl 66,12)

“Porque O OURO É PROVADO NO FOGO, e homens aceitáveis na fornalha da humilhação” (Sb 2: 5); 

“se alguém edifica sobre este fundamento, com ouro, ou com prata, ou com pedras preciosas, com madeira, ou com feno, ou com palha, a obra de cada um aparecerá. O DIA (do julgamento) DEMONSTRA-LO-Á. SERÁ DESCOBERTO PELO FOGO; O FOGO PROVARÁ O QUE VALE O TRABALHO DE CADA UM. Se a construção resistir, o construtor receberá a recompensa. SE PEGAR FOGO, ARCARÁ COM OS DANOS. ELE SERÁ SALVO, PORÉM PASSANDO DE ALGUMA MANEIRA ATRAVÉS DO FOGO.” (I Cor 3, 10-15).

“Eu porém vos digo: todo aquele que se encolerizar contra o seu irmão terá de responder no tribunal. Aquele que chamar a seu irmão: ‘cretino’, estará sujeito ao julgamento do Sinédrio. Aquele que lhe chamar: ‘louco’, terá de responder na geena de fogo […] Assume logo uma atitude reconciliadora com o teu adversário, enquanto estás a caminho, para não acontecer que o adversário te entregue ao juiz e o juiz ao oficial de justiça e, assim, sejas lançado na prisão. Em verdade te digo: DALI NÃO SAIRÁS, ENQUANTO NÃO PAGARES O ÚLTIMO CENTAVO.” (São Mateus 5. 22-26).

Por essa razão, é salutar e necessário que rezemos pelas almas do purgatório, para que suas aflições sejam reduzidas, vez que nos é dado, pela Graça, o dom de purgar com as nossas Orações, Penitência e Caridade, os pecados próprio e também de nossos irmãos:

“Se alguém vir pecar seu irmão, PECADO QUE NÃO É PARA MORTE, ORARÁ, E DEUS DARÁ A VIDA ÀQUELES QUE NÃO PECAREM PARA MORTE. Há pecado para morte, e por esse não digo que ore.” (I São João 5.16)

Assim rezou São Paulo em favor de Onesíforo após a morte deste:

“O Senhor conceda sua misericórdia à casa de Onesíforo, que muitas vezes me reconfortou e não se envergonhou das minhas cadeias! Pelo contrário, quando veio a Roma, procurou-me com solicitude e me encontrou. O Senhor lhe conceda a graça de OBTER MISERICÓRDIA junto do Senhor NAQUELE DIA. Sabes melhor que ninguém quantos bons serviços ele prestou em Éfeso.” (II Tm 1. 16 à 18)

Acrescenta o Pe. Erasmo:

“No purgatório aprendemos a Gratidão para com o PRECIOSO SANGUE. Ali tudo é AGRACIADO POR ESSE SANGUE. Também nós poderemos consolar as almas benditas só pelo PRECIOSO SANGUE. Tudo que nos foi perdido, será restituído, para a Glória e Magnificência de Deus.” (O Segredo do Purgatório, Ed. 1.946 p. 13)

E ainda:

“Por Amor e Graça de Deus, as almas são mandadas para o purgatório, pois se não fossem puras não entrariam no Céu. (O Segredo do Purgatório, Ed. 1.946 p. 15)”

Conforme as Escrituras e o Magistério Infalível da Igreja, o tempo no estado de purificação dependerá do quantitativo e intensidade dos pecados veniais a serem purgados.

A demora no período de purificação, infligindo a dor de ainda não poder ver Deus em plenitude, e com Ele comungar plenamente, será para lhes garantir a felicidade eterna, quando após o expurgo, tiverem acesso pleno a todos os Bens Celestiais.

Neste sentido, as penas temporárias do purgatório são voluntárias, pois garantirão o acesso seguro ao Céu e a vida eterna com Deus.

Diferente pois, da pena eterna da condenação infernal, que não são desejadas pelos condenados, mas imposta contra a vontade destes.

O tempo do expurgo celestial será proporcional ao prazer do pecado não redimido no tempo terreno.

Resume a questão, São Gregório Niceno (ano 329):

“Quem vive na amizade de Jesus Cristo, e não pode inteiramente se purificar do pecado nesta vida, DEPOIS DA MORTE PURGÁ-LO-Á NAS CHAMAS DO PURGATÓRIO.” (in Patrologia Grega)

Como dito, nem todos passarão pelo expurgo final, mas só aqueles que não se socorreram da confissão penitencial nesta vida.

Santo Estevão, por exemplo, primeiro mártir do cristianismo, não passou pelo purgatório, posto que entregou sua vida ao martírio por honra e imitação de Cristo, e por isso, teve o Céu aberto à sua disposição:

“Eis que vejo” – disse ele – “os Céus abertos e o Filho do Homem, de pé, à direi­ta de Deus” (Atos 7, 56)

A Justiça de Deus seria falha se aceitasse no Céu um pecador, sem lhe remir totalmente do seu pecado na Graça do sacrifício de Cristo.

Como restou Escrito:

“Eis o que diz o Senhor Javé: no dia em que eu vos PURIFICAR de todas as vossas iniquidades, repovoarei as cidades; as ruínas serão reerguidas” (Ezequiel 36, 33)

“se entregou por nós, a fim de nos resgatar de toda a iniquidade, NOS PURIFICAR e nos constituir seu povo de predileção, zeloso na prática do bem.” (Tito 2, 14)

“Se reconhecemos os nossos pecados, (Deus aí está) fiel e justo para nos perdoar os pecados E PARA NOS PURIFICAR de toda iniquidade.” (I São João 1, 9)

_________________

1. Um dos primeiros registros na Patrologia sobre o Dogma do Purgatório, está em TERTULIANO – (160-220) na Carta (De Monogamia X);

2. São Gregório Magno, Papa, no século IV, exercendo o Magistério da Igreja, definiu outros sete pecados capitais: gula, avareza, ira, luxúria, inveja preguiça e vaidade.

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