Atributos de Deus

DEUS SE ARREPENDE?

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Tudo que Deus fez por sua sapiência infinita, o fez de maneira perfeitíssima.

Em todo âmbito da obra criada, infundiu o Criador a plenitude da sua perfeição, até que a criatura feita sua imagem,1 escolhendo o pecado, desprezou a perfeição, tornando não apenas a si mesma, mas toda criação defectível e desalinhada do Bem Supremo e Único.2

Toda perfeição das obras e atos Divinos é aplanada pelo atributo da Onisciência.

Em sua Onisciência, Deus conhece não apenas o futuro inexorável e certo que se realizará, mas também os futuros contidos3 em todas as suas possibilidades, ainda que não venham a acontecer.

Assim, Deus não faz o que não previu em todos os seus efeitos, nem o que não preordenou antecipadamente.

E se previu e preordenou, fez o que é perfeito e certo, razão porque, o ato de se arrepender, da maneira como o concebemos na esfera da falibilidade do juízo e da consciência intelectual humana, é incompatível com os atributos Divinos.

O arrependimento é a variação ou mudança na vontade e atitude, decorrente de um juízo equivocado e precário que veio a produzir uma realidade inconveniente ou lesiva.

Como ensina Santo Tomás de Aquino:

“Deus sendo infinito, contendo em si a plenitude da perfeição da totalidade do ser, nada pode adquirir, e nada atingir do que anteriormente não tinha. Logo, de nenhum modo as atitudes de Deus são suscetíveis de movimento (mudança).” (Suma Teológica. Q 9 Da Imutabilidade de Deus, art. 1° Livro)

Está Escrito: > “PORQUE EU SOU O SENHOR, E NÃO MUDO. (Malaquias 3, 6)”

Na intenção de desfazer, seguida do ato de desfazimento do que obrou incorreto, temos o arrependimento EFICAZ; e na vontade de desfazer, seguida da impossibilidade de desfazimento, temos o arrependimento INEFICAZ.

Ora, nenhuma dessas possibilidades aplica-se aos atos perfeitos praticados por Deus, obviamente, porque aos atos perfeitos nada lhes falta, não necessitando que sejam corrigidos ou desfeitos, pois se assim fosse, não seriam perfeitos.

A vontade Excelsa de Deus, segue o seu intelecto também Excelso.

Em Deus há o Inteligir perfeito, o Querer certeiro e a Ciência inequívoca sobre todas as coisas as quais domina no tempo, espaço, na ordem natural e sobrenatural.

A imperfeição do Criador macularia a sua criação, e se hoje testemunhamos nódoas e vicissitudes na obra criada, estas são o resultado de fatores acidentais por intervenção de terceiros (o diabo e o próprio ser humano, no uso errado de sua liberdade),4já que tudo fora criado na mais precisa harmonia.

O Criador não estava impossibilitado em desfazer e destruir completamente a sua criação, e nem agiu neste sentido após a queda do ser humano, do que resulta claro que não se arrependeu no sentido de que o ato da criação poderia ter sido realizado de um modo melhor.

A vontade de Deus é imutável, porque atua mediante a sua Onisciência, que não lhe faculta frustrações em razão da imprevisibilidade do efeito catastrófico e do acontecimento final desordenado.

> “DEUS não é homem para que minta, nem  filho do homem PARA QUE SE ARREPENDA. (Números 23. 19)”

E tendo Presciência eterna de que a raça humana pecaria, tinha também vontade eterna e imutável de salvá-la mediante a maior prova de Amor, que é dar a si próprio em sacrifício da Justiça.

A mudança na vontade é a dinâmica da variação na apetência e no intelecto, que permite atuar de vários modos e formas ainda que contraditórios e conflitantes, o que não há em Deus por ser Ele a SUPREMA magistralidade e maestria.

Contradições e conflitos são comportamento típicos e exclusivos dos seres imperfeitos.

Ensinou Santo Agostinho:

“Só Deus é IMUTÁVEL. Tudo o que fez é mutável porque veio do nada. (De Natura Boni c.1)” 

A vontade imutável de Deus sempre se cumpre de modo perfeito e pleno, e nisto podemos ter segurança, pois Ele não entra em contradição com a sua vontade, nem revoga os seus compromissos, conforme diz a Escritura:

“[…] amais tudo que existe, e NÃO ODIAIS NADA DO QUE FIZESTES, PORQUANTO, SE O ODIÁSSEIS, NÃO O TERÍEIS FEITO DE MODO ALGUM; como poderia subsistir qualquer coisa, se não o tivésseis querido, e conservar a existência, se por vós não tivesse sido chamada?(Sabedoria 11, 25 e 26)”

Mas em sentido oposto, é certo que o texto canônico também diz sobre Deus:

“Exterminarei da superfície da terra o homem que criei, e com ele os animais, os répteis e as aves dos céus, PORQUE EU ME ARREPENDO DE OS HAVER CRIADO.” (Gênesis 6, 7)

Antes de qualquer coisa, é preciso explicar os sentidos distintos do arrependimento no homem e em Deus.

O arrependimento no ser humano é fruto da deficiência de suas escolhas, e da incapacidade de prever os eventos futuros, que se previstos, se evitaria a prática de determinado ato no pretérito.

Em Deus, pelo contrário, é fruto justamente da infalibilidade de suas conclusões.

Por ser Onisciente sobre todas as coisas, e por ter essa Onisciência, é que previu que do seu arrependimento é que se revelaria toda plenitude da sua Compaixão que o levaria a salvar à raça humana do estado de corrupção e morte no qual decaiu.

A ciência de que no futuro, por conta da doença do pecado, a criatura se voltaria contra o seu Criador, o fez assumir totalmente a responsabilidade da cura para essa doença, como demonstração de apreço.

Deus então, PREVIU O SEU PRÓPRIO ARREPENDIMENTO, e DESEJOU SE ARREPENDER de nos ter criado, pois do seu arrependimento, manifestou todo o seu Amor e toda sua Misericórdia para conosco, gerando a oportunidade para a prática dos atos da nossa redenção através do seu próprio sacrifício na cruz.

Deus quis ser arrepender, porque sempre quis a chance de demonstrar por nós todo o seu Amor e Compaixão.

Deus ao se arrepender de ter criado o ser humano, imediatamente se compadeceu de sua criatura.

Ele quis se arrepender, porque queria, mediante isto, compartilhar conosco a sua grande benevolência para com a humanidade decaída.

Neste contexto, leciona Santo Tomás:

“[…] a vontade se mudaria, se começássemos a querer o que antes não queríamos, ou deixássemos de querer o que queríamos, o que não pode se dar, senão, por mudança do conhecimento (sobre as coisas) ou da disposição da pessoa que quer. Logo, é forçoso que seja a vontade de Deus absolutamente imutável”. (Suma Teológica, Q 9 art. 7ºDa Imutabilidade de Deus)

Deus quis, necessariamente, tudo que desejou e realizou, inclusive o seu próprio arrependimento, pois através disso, elevaria o ser humano a uma condição de perfeição superior à do próprio Adão, antes do pecado.

Mas quis também que essa elevação só se realizasse através de uma manifestação de candura e piedade em sua forma mais sublime, qual seja, encarnando-se em nossa própria humanidade para se tornar oferta de sacrifício de morte para que retomássemos o direito à vida eterna, sem a possibilidade de delinquirmos novamente.

Assim, não se pode dizer que Deus se arrependeu por falhar em suas conclusões, ou por um conhecimento limitado do efeito futuro de suas ações.

Do mesmo modo que sendo Onipotente, Deus pôde morrer no Filho sem que com sua morte  perdesse a imortalidade, também pôde ser arrepender sem jamais ter desejado fazer diferente ou se desfazer o que havia feito, no caso, o ser humano, obra magna de sua criação.

A palavra hebraica “nau-kham (nHm)” traduzida para “arrependo” não expressa a transformação da vontade em relação aquilo que se fez, mas do juízo sobre aquilo que fora criado.5

Se antes do pecado o juízo de Deus para o ser humano era a vida eterna e a beatitude, depois da transgressão assumiu um juízo de condenação e morte.

Entretanto, podemos ainda dizer que Deus “mudou” o modo de enxergar a raça humana pelos olhos da Santa Justiça.

Mudança do juízo não implica mudança na vontade, pois Deus sempre quis recompensar os bons, e punir os maus.

E mesmo essa “mudança” no juízo e opinião sobre a humanidade, não se diz ocorrida em Deus, posto que se originou na transformação do próprio ser humano ao aceitar o pacto com a velha serpente, despindo-se totalmente da comunhão com a santidade Divina.

O que mudou efetivamente foi o ser humano, no reflexo de sua livre opção pelo pecado, sendo o juízo condenatório de Deus sobre o mal, a sua vontade desde sempre, por ser Ele Perfeito, como ensina a Sagrada Tradição:

“[…]os filhos se revoltaram contra Deus, blasfemaram o Senhor, traíram o Pai com muita maldade. Sua traição de nada lhes aproveitou, e ainda continuaram acrescentando aos seus pecados a impureza e as contaminações da maldade e, desse modo, suas iniquidades chegaram ao máximo. (Hermas, o Pastor. Cap. II, Par. IV. século I)”

Tanto o juízo condenatório, quanto o juízo da salvação, por óbvio, estavam no âmbito da vontade e da previsibilidade Divina, em razão, repetimos, de sua ONISCIÊNCIA:

“[…] não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele comeres, morrerás indubitavelmente.” (Gênesis 2, 17)”

Do arrepender em Deus, decorreu a profunda compaixão e lamento, por ter a humanidade por sua opção pela desobediência, chegado a deplorável condição de morte.

O descontentamento e dissabor causados em Deus, revelaram Nele a Misericórdia e Graça: >“O Senhor arrependeu-se de ter criado o homem na terra, E TEVE O CORAÇÃO FERIDO DE ÍNTIMA DOR. (Gênesis 6, 6)”>  sendo que daí, “[…] onde abundou o pecado, SUPERABUNDOU A GRAÇA.” (Romanos 5,20)

É neste sentido o ensino do Magistério da SANTA IGREJA, quanto ao exato entendimento do chamado “arrependimento” de Deus.

1Gn 1, 27.

2Gn 3. 8 -10.

3Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, Livro Ia. Q 14 art.7.

4Gn 3,4.

5http://biblehub.com/hebrew/5162.htm

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