Fé e Caridade

A CARIDADE É A ESSÊNCIA DA FÉ.

francisco

Defendem os que se opõem à caridade, e sustentam haver divisão entre fé e ação, que toda boa obra seria inútil ao plano salvífico, por ser mera “consequência humana da fé sobrenatural.

Retiravam, assim, toda a transcendência e santidade possível do conteúdo dos atos humanos, proclamando que a Caridade (boas obras) possuia apenas efeito temporal, devendo ser realizada tão somente para louvar e agrado a Deus, não contendo infusão da graça, nem a transcendência necessária ao juízo final.

Em vários documentos históricos do protestantismo[1] extraímos a síntese dessa proclamação: “[…] só vale perante Deus a obra “humana” que for  “consequência” da fé.” (in Vocábulos Bíblicos, p. 234, ed. 1963. Jean-Jacques Von Allmen)

“Ensina-se, ademais, que boas obras devem e têm de ser feitas, não para que nelas se confie a fim de merecer graça, mas por amor de Deus e em seu louvor. Sempre é a fé somente que apreende a graça e o perdão dos pecados. (Confissão Luterana de Augusburgo, ano 1.530. Art. 20)

Tal proclamação teórica da fé, camufla de modo sutil, e sob a aparência de uma “verdade lógica” erro quase imperceptível, mas que coloca em risco a salvação de muitos. Ora, tem-se por obra humana inservível ao plano da salvação, aquela que não é produzida por Deus, e que não tem Deus como fim ultimo da conduta humana, mas apenas interesses filantropos e humanistas.

Não é uma coisa a fé, e outra os frutos dela produzidos.

Sendo a fé puro dom de Deus, não pode produzir obra alguma que também não tenha a mesma chancela substancial da Divindade.

Toda fé tende a morrer na esterilidade das boas ações. A boa obra ou CARIDADE não é “obra humana, ” mas ações livres de Deus, as quais, Ele realiza no ser humano por intermédio da fé: “[…] vosso ingresso e progresso na obra de Deus NÃO SÃO OBRAS HUMANAS, mas a intervenção do Poder Divino, que não cessa de vos assistir.” (Manuscritos, de Santo Antão do Deserto, ano 251-356)

O juízo final de Deus não separará o ser humano de sua história, razão porque, a fé não poderá ser separada de suas ações, sendo que, por esta razão, crer que as boas obras se separam da fé, conduzirá a morte da própria fé, levando-nos à condenação eterna:  “De que aproveitará, irmãos, A ALGUÉM DIZER QUE TEM FÉ, SE NÃO TIVER OBRAS? Acaso ESTA FÉ PODERÁ SALVÁ-LO? (São Tiago 2.14)

Sendo a fé, a causa motora que que nos vincula a Jesus Cristo, em seu sacrifício, torna-se praticamente impossível crer Nele, sem participar das suas virtudes e caráter. Crer em Cristo, é viver a busca pela santidade e perfeição, as quais nos permitem a comunhão com Deus.

A Caridade é essencial para a VITALIDADE da fé. Está na ESSÊNCIA DA FÉ o renascimento espiritual para o progresso da perfeição de todos os nossos atos, para nos imprimir a beatitude necessária para sermos imitação de Cristo: “Portanto, SEDE PERFEITOS, assim como vosso Pai Celeste é perfeito. ” (São Mateus 5. 48).

A fé nos impõe de modo misterioso, a aceitação dos méritos de Cristo em nossas vidas, para consecução das boas ações proativas. Deus identifica, mede e julga a nossa fé por meio das nossas ações caritativas cotidianas, externadas no pulsar das virtudes de Cristo, infusas naqueles que aderiram ao seu sacrifício:

“Tu tens fé, e eu tenho obras. Mostra-me a tua fé sem obras, e eu te MOSTRAREI A MINHA FÉ PELAS MINHAS OBRAS. ” (São Tiago 2, 18)

TUA FÉ, que compartilhas conosco, SEJA ATUANTE E FAÇA CONHECER TODO O BEM QUE SE REALIZA entre nós POR CAUSA DE CRISTO.” (Filemôn 1. 6)

“E os mortos FORAM JULGADOS conforme o que estava escrito nesse livro, SEGUNDO AS SUAS OBRAS. ” (Apocalipse 20. 11 a 15)

A Caridade é o ativismo da fé que a transforma em realidade vivaz e eficaz para nos justificar perante o juízo final.

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/07/13/podemos-ser-justificados-diante-de-deus-por-uma-fe-que-nao-produza-frutos/

A CARIDADE é a própria FÉ em movimento: “Estar circuncidado ou incircunciso de nada vale em Cristo Jesus, mas sim a FÉ que OPERA ATRAVÉS DA CARIDADE. ” (Gálatas 5-6)

A virtude da fé cristã está exatamente na capacidade de obrar segundo o Amor aquiescido pela vontade e a Justiça discernida pela razão. A vontade está sob o domínio da razão, na qual Deus infundiu o dom gratuito da fé (Efésios 2.8) para que na junção entre Fé, Razão e Vontade, tenhamos o Ato que nos distingue dos infiéis, gerado de quando nos tornamos imitadores de Cristo, cumprindo o preceito da Graça que é amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos:

“[…] meu mandamento é este: amai-vos uns aos outros COMO EU VOS AMEI. SEREIS MEUS AMIGOS SE FIZERDES O QUE VOS MANDO. O que vos mando é que vos AMEIS UNS AOS OUTROS. (São João 15. 13, 14 e 17) ”

No âmbito da fé está inserida a capacidade de obrar, segundo os preceitos dessa mesma fé, ao passo que, o que somos, não se distingue daquilo que fazemos. Por causa disso, torna-se impossível haver fé sem que em sua ESSÊNCIA não esteja a Caridade.

Há na Escolástica notável distinção entre ESSÊNCIA e CONSEQUÊNCIA.

Diz-se de ESSÊNCIA aquilo que é natural de um ser ou de um objeto, cuja supressão o desnatura, tornando-o noutra coisa ou deixando-o INCOMPLETO, imperfeito, e em certos casos, ensejando sua morte ou extinção. É da essência dos animais vertebrados o conjunto de vértebras, ossos, colunas e cartilagens, os quais formam o esqueleto. Ausente essa sustentação ossuosa não estaremos diante de indivíduo do grupo dos vertebrados, de onde se concluiu que não poderá haver um vertebrado sem estrutura óssea.

Por isso, o sistema esquelético é essencial para a existência do ser vertebrado.

Também temos, no ser humano, o indivíduo formado inseparavelmente por corpo e alma. Tirando a alma do corpo teremos um cadáver; assim como a alma sem corpo é apenas uma alma. Neste caso, corpo e alma concorrem para formar um ser uno.

Ora, naquele que crê, e é, portanto, fiel em Cristo, é natural agir conforme os mandamentos do Mestre: “A glória de meu Pai manifesta-se quando DAIS MUITOS FRUTOS E VOS TORNAIS MEUS DISCÍPULOS. Se obedeceis aos meus mandamentos, permanecereis no meu amor. (São João 15. 8, 9 e 10) ”

Logo, é a caridade essencial para o vigor da fé, pois se Deus escolheu ser amado no próximo, “a Caridade é o pleno cumprimento da Lei. ” (Romanos 13.10)

Toda  que não produz um ato que lhe corresponda é MORTA, e, portanto, inservível para salvação: “Preguei […] para que se arrependessem e SE CONVERTESSEM a Deus, FAZENDO DIGNAS OBRAS CORRESPONDENTES. ” (Atos 26. 20)

Sendo a FÉ AUTENTICADA e VIVIFICADA nas boas obras, conclui-se que Fé e Caridade não são elementos distintos, separados, pois a fé existe para frutificar em obras, e se não frutifica, está fadada a morte: “Todo o ramo QUE NÃO DÁ FRUTO EM MIM, O PAI CORTA-O. Os ramos que dão fruto, poda-os para que deem mais fruto ainda. ” (São João 15. 2 e 3)

Antes, perfazem UM ÚNICO ELEMENTO, cooperando em conjunto, em harmonia, assim como uma pedra fundamental e o restando da construção formam uma coisa só, que é o edifício: “EDIFICAI-VOS MUTUAMENTE sobre o FUNDAMENTO da vossa santíssima FÉ. ” (São Judas 1. 20) “Queres ver, ó homem vão, como a fé sem obras é vã. Vês como A FÉ COOPERAVA COM AS SUAS OBRAS E ERA COMPLETADA POR ELAS. (São Tiago 2.22)

Noutro sentido, é impossível que a caridade seja a consequência da fé.

Diz-se CONSEQUÊNCIA, tudo o que é acidental a uma causa.

Tem-se por acidente[2] aquele efeito próprio que poderá ou não advir de determinada causa. É certo que todo efeito pressupõe a causa, mas é certo também, que a recíproca NÃO é verdadeira porque pode haver uma causa estéril.

A união corporal ente homem e mulher é causa da geração de um outro ser. Mas tal não implica que uma união genésica entre macho e fêmea não possa estar revestida de circunstancias externas ou internas, que impeçam sua consequência ou efeito natural. Todavia, neste caso, não poderíamos jamais dizer que a causa não existiu em razão da ausência do seu efeito natural. Esse princípio, explica o equívoco em pregar que as boas obras são mera consequência (efeitos) da fé, pois se assim fosse, poderia existir uma fé que causa a salvação, independente dos atos de bondade:: —  “Acaso ESTA FÉ PODERÁ SALVÁ-LO?

Uma causa, como alhures mencionado, poderá existir independente de seus efeitos ou consequências. Mas a fé jamais poderá existir divorciada dos atos da caridade, de onde conclui, que a boa ação não é a consequência da fé, mas sua própria ESSÊNCIA, vez que fé sem caridade é nula, MORTA, porquanto, tem-se por pecado mortal negar-se à caridade: “Aquele pois, QUE SABE FAZER O BEM E NÃO O FAZ, COMETE PECADO.” (São Tiago 4.17)

E todo pecado grave se opõe a fé, matando-a.

A fé direciona o agente rumo à prática de atos justos através da santidade de Deus. Daí, não haver fé sem a caridade que lhe corresponda, pois se a consequência é um acidente, efeito possível e incerto do ato, estaríamos negando as Escrituras, afirmando existir uma fé que coexiste com a negligência da prática do Bem.

A caridade nasce pela fé, e dela não se separa jamais, perfazendo a “cara e a coroa” da mesma moeda: “Esta recomendação só visa a ESTABELECER A CARIDADE, NASCIDA DE um coração puro, de uma boa consciência e de UMA FÉ SINCERA. ” (I Timóteo 1.5).

Onde não há caridade, não há fé, e onde há caridade, lá estará a verdadeira e autêntica fé cristã.

A Doutrina Apostólica da única e verdadeira Igreja jamais ensinou existir DIVISÃO entre FÉ e OBRAS.

Por sua vez, boa ação sem crer em Cristo não é Caridade, mas filantropia,[3] já que caridade é um dom espiritual, inserido no âmbito da fé.

Deus concede ao homem, pela Graça do sacrifício, a fé que lhe salva; e o homem reage a fé recebida através da caridade.

A fé existe para que o ser humano através de Cristo, possa cumprir os mandamentos de Amor da Graça:

“Aquele que TEM OS MEUS MANDAMENTOS E OS GUARDA, esse é que me ama. “. (São João 14,21)

“Aquele que diz conhecê-lo E NÃO GUARDA OS SEUS MANDAMENTOS É MENTIROSO e a verdade não está nele”. (I São João 2,4)

“Se queres entrar na VIDA ETERNA, GUARDA OS MANDAMENTOS. (São Mateus 19.17) ”

Aquele que negligencia o mandamento da caridade, achando que sua fé imperfeita lhe salvará, incorre em grave pecado, como também falsos  ensinamentos que ministram tal doutrina humana, incorrem em pecado ainda maior.

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[1] II Confissão Helvética, ano 1566; Catecismo de Heidelberg, ano 1563; Cânones de Dort, ano 1518; Confissão Luterana de Augusburgo, ano 1530; Confissão Escocesa ano 1560, Confissão Menonnitas e Confissão de Westminster, ano 1643.

[2] Aristóteles, in Metafísica.

[3] FILANTROPIA é o amor ao homem por causa do homem (filantropia social), e que não raras vezes se realiza para promoção religiosa, como faziam os fariseus (filantropia de prosélitos) ou para algum tipo de ganho próprio (filantropia egocêntrica) Caridade é Dom espiritual, que nos capacita a renúncia própria em favor de outrem.

 

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