Soteriologia

POR QUE A “SOLA GRATIA” CONTRADIZ COM OS MÉRITOS DE CRISTO, NECESSÁRIOS A NOSSA SALVAÇÃO?

 

Tem-se mérito, como a qualidade ou circunstância que torna alguém apto a receber aquilo que busca, e que lhe é cabível por direito.

Alguém só pode merecer por dignidade de uma conquista, e isso é obvio.

Mas o mérito tanto pode nos tornar dignos de honra e recompensa, como nos fazer merecedores de castigos e perdas.

Temos então, o mérito negativo ou demérito.

A definição de mérito está intrinsecamente unida a justiça da relação obrigacional estabelecida entre débito e crédito.

Somos devedores de Deus por termos escolhido ofendê-lo em sua Glória e Majestade através do pecado, e como pagamento por tão grande prejuízo, Deus poderia nos cobrar a vida que Ele mesmo nos deu, a qual não mais fazemos por merecer.

Logo, Deus é o justo credor que detém o penhor[1] sobre nossas vidas:

“E o Senhor, encolerizado, entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a sua dívida. (São Mateus 18, 34)”

A dívida que temos para com Deus é o obstáculo que nos impede de recebermos Dele, por grandeza ou valia própria, qualquer benefício ou herança.

É certo que toda lesão e prejuízo só pode ser satisfeito por um ganho ou reparação equivalente: “olho por olho; dente por dente, vida por vida.” (Ex. 21, 24)

Mas é certo ainda que se entregássemos a Ele, a vida de toda humanidade nascida ou porvir, jamais saldaríamos o débito, pois não acharíamos nessa oferta de vida nenhum mérito compatível com a repercussão da dívida que livremente contraídos com Deus ao aderirmos ao pecado.[2]

Não havia na humanidade mérito necessário a salvar a dívida contraída por nossos primeiros pais.

Assim, enquanto eternamente devedores, eternamente condenados.

No entanto, não era aprazível a Deus em sua infinita Misericórdia e Amor, abandonar nesta condição a obra-prima de toda sua criação.

Não por outra razão, a salvação do gênero humano foi tarefa confiada e operacionalizada pelo próprio DEUS, mediante o sacrifício da Pessoa do Filho ao morrer na cruz para redenção de todos os nossos pecados e culpa.

Daí, conclui-se que o resgate do nosso débito impagável operou em nosso favor por intermédio do Verbo Encarnado, o Único que detinha a HUMANIDADE SANTA, IMPECÁVEL e IMPOLUTA, como crédito válido a satisfação do débito para com a Divindade.

Crédito não apenas proporcional, mas superior a própria dívida, revogando a pena capital na qual toda humanidade e nós, individualmente, incidimos quando nos colocamos como adversário do nosso Criador.

Agora em Cristo, o Verbo de Deus feito homem, a humanidade passou a ter mérito para servir de sacrifício pelo débito para com Deus.

Tudo que recebemos de Deus, sem mérito próprio, recebemos pela Graça, e desta maneira já não somos “devedores da carne, para que vivamos segundo a carne. (Romanos 8, 12)”

“Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor darei de comer (do fruto) da árvore da vida, que se acha no paraíso de Deus. (Apocalipse 2, 7)”

Neste compasso, forçoso reconhecer que o plano da salvação fora edificado tendo por fundamento os méritos de Cristo, em sua Humanidade Encarnada, sendo a nossa salvação MERITÓRIA da parte Dele.

Diante disto, revela-se gravíssimo o erro da teoria protestante da “sola gratia” de supor, ensinar e proclamar que só existe Graça, e não também MÉRITOS, na salvação da humanidade.

Dentro da macro concepção do plano salvífico, toda redenção particular que chega ao indivíduo gratuitamente, só ocorre pelos Méritos de Cristo no calvário.

A Graça de Deus nunca vem só (sola gratia), por ser ela um canal condutor das demais Virtudes necessárias a nossa salvação.

Esses Méritos estão na Natureza Divina do Cordeiro, unida inseparavelmente a sua Natureza Humana, na qual fora ofertado em sacrifício por nós mediante dois atos específicos: 1) Ato de Obediência ao Pai; 2) Ato de Caridade, por Amor da nossa salvação, sendo incessantes e contínuos os efeitos de seu holocausto humano por todas as gerações:

“Ele vos reconciliou pela MORTE e seu CORPO HUMANO, para que vos possais apresentar santos, imaculados e irrepreensíveis aos olhos do Pai.” (Colossenses 1, 22)

“Este holocausto será perpétuo e será oferecido, EM TODAS AS GERAÇÕES FUTURAS, à entrada da tenda de reunião, diante do Senhor, onde virei a vós, para falar contigo. (Êxodo 29, 42)”

“Que MÉRITO teria alguém se suportasse pacientemente os açoites por ter praticado o mal? Ao contrário, se é por ter feito o bem que sois maltratados, e se o suportardes pacientemente, isto é coisa agradável aos olhos de Deus. (I São Pedro 2, 20)”

“Seu ZELO LHE FOI IMPUTADO COMO MÉRITO, de GERAÇÃO EM GERAÇÃO, para sempre. (Salmos 105, 31) “

“CRISTO, levado da Caridade e da Obediência, se humilha até a morte da cruz (Suma Teológica, art. 1 Q 53, da Ressurreição in Santo Tomás de Aquino)”

A participação nos Méritos do Cordeiro, que só ocorre pelos chamados SETE DONS DO ESPÍRITO SANTO   (sabedoria, conselho, discernimento, piedade, temos, fortaleza e o dom da ciência. IS 2, 11, necessários ao alcance do DOM MAIOR que é o Amor elevado à Perfeição pela Caridade. I Cor 13, 13), nos é oferecida GRATUITAMENTE para nos tornar merecedores da salvação não por mérito próprio, mas exclusivamente por Cristo, e em Cristo:

“toda a misericórdia colocará cada um em seu lugar, CONFORME O MÉRITO de suas obras e a sabedoria de seu comportamento. (Eclesiástico 16, 15)”

A gratuidade está na oferta da salvação, e não em seu conteúdo, que é o próprio Cristo, que sendo Pessoa Divina é detentor de todas as Virtudes e Méritos. E sem a incursão nos Méritos Divinos do Redentor, depositados em sua Humanidade sacrificada, o ser humano nada pode fazer ou merecer de bom, generoso, aprazível e SALVÍFICO aos olhos de Deus.

Esclarece Tanquerey:

“É toda Trindade que nos confere essa PARTICIPAÇÃO da vida Divina, POR CAUSA DOS MÉRITOS e satisfações de Jesus Cristo. Pelos seus Méritos, Cristo reconquistou o nosso direito a Glória, para nos santificarmos e merecermos o céu. JESUS É A CAUSA MERITÓRIA DA NOSSA SALVAÇÃO.” (Compêndio de Teologia Mística e Ascética, Adolph Tanquerey, Cap. II – Da parte de Deus na vida cristã. p. 61 e 81)

A infusão nas virtudes Superiores do Cordeiro nos traz a Comunhão com seu sacrifício no qual nos tornamos seus consortes, em seu Corpo Místico, “a fim de nos tornar, por este meio, PARTICIPANTES DA NATUREZA DIVINA, subtraindo-nos da corrupção que a concupiscência gerou no mundo.” (II Pedro 1.4)”

Mas é certo que a JUSTIÇA PERFEITÍSSIMA de Deus, implica numa certa simetria, numa proporcionalidade entre ação humana e recompensa Divina.

Ora, toda retribuição, em qualquer sistema judiciário, impõe indispensável análise entre conduta e resultado, mérito e recompensa, assim como demérito e punição, conforme Escrito:

“Eis que venho em breve, e a minha RECOMPENSA está comigo, para dar a cada um conforme as suas OBRAS. (Apocalipse 22, 12)”

“Mas, pela tua obstinação e coração impenitente, vais acumulando ira contra ti, para o dia da cólera e da revelação do JUSTO JUÍZO DE DEUS, que RETRIBUIRÁ A CADA UM SEGUNDO AS SUAS OBRAS: a vida eterna aos que, perseverando em fazer o bem, buscam a glória, a honra e a imortalidade; mas ira e indignação aos contumazes, rebeldes à verdade e seguidores do mal.” (Romanos 2. 5, 6, 7 e 8)”

E quanto a Justiça Divina e sua Lei imutável e eterna, ensinou Santo Agostinho:

“Lei eterna é chamada a Razão Suprema (em Deus), a qual é preciso obedecer sempre, e através da qual os obedientes dispõe da felicidade eterna, e os desobedientes a infelicidade. Na lei temporal dos homens, nada existe de justo e legítimo que não se tenha tirado da Lei Eterna. (Do Livre Arbítrio, Cap. VI Part. I, A Essência do Mal p. 41)”

Os Mérito de Cristo são dispensados GRATUITAMENTE a toda raça humana.

Os atos sacrificiais do Cordeiro são satisfatórios para Justiça, e meritórios para recompensa. 

Pela satisfação da dívida pelo Mérito do Cordeiro, somos excluídos da Justiça Punitiva Divina através da isenção da culpa, que decorre na invalidação das penas provenientes da agressão a Deus nas vezes em que pecamos. 

Somos assim, elevados a um ESTADO DE PERFEIÇÃO, SANTIDADE E JUSTIÇA que nos permite acesso a Deus para usufruirmos dos Bens que Ele criou para todos nós, como a Felicidade plena e Vida eterna. 

Se os nossos atos e condutas jamais poderão pressupor mérito, justiça ou benignidade, senão quando movidos pelo próprio Deus, é a Graça, pois, a própria natureza Divina participada em nós, regenerando-nos, e nos fazendo perseverar no reto caminho, gerando em nosso ser os atos deiformes pelos quais são tornados imitadores de Cristo:

“Tornai-vos os meus imitadores, como eu o sou de Cristo. (I Coríntios 11.1)”

A Graça de Deus é uma vertente do Amor Benigno, ou como enfatizava Santo Agostinho: “a Graça é a luz da alma, a nos guiar rumo ao Amor de Deus e ao Amor ao próximo.”

Graça e Amor de Deus (Ágape) não se diferenciam, sendo aquela, o Amor de Deus em movimento rumo ao ser humano para lhe permitir realizar os principais preceitos da Lei Divina: Caridade e Justiça.

Esses preceitos excedem a capacidade natural do indivíduo, cuja ausência da Graça, torna-se apenas capaz do cumprimento de certas leis morais.

Ora, a LEI DIVINA distingue da lei moral humana posto lhe ser muitíssimo superior.

O ser humano decaído naturalmente se inclina em transgredir a Lei Eterna de Deus, cujo preceito maior é o AMOR, em razão, basicamente, de duas espécies de amores imperfeitos.

O primeiro é “amar” ao outro por benefício próprio (Eros), mediante seus adornos externos e físicos.

Já o segundo se predica no “amar” ao próximo pelo que este é (Filos), pelas virtudes e semelhança do ser amante encontradas no ser amado. 

Mas o movimento que a Graça de Deus nos infunde, orienta no AMOR CARIDOSO ou PERFEITO (Ágape), quando se ama independente do mérito do que é amado, mas por ser ele uma imagem de Deus, por mais errante e transgressor que também possa vir a ser:

“27.Digo-vos a vós que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, 28.abençoai os que vos maldizem e orai pelos que vos injuriam. 29.Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra. E ao que te tirar a capa, não impeças de levar também a túnica. 30.Dá a todo o que te pedir; e ao que tomar o que é teu, não lho reclames. 31.O que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles. 32.Se amais os que vos amam, que recompensa mereceis? Também os pecadores amam aqueles que os amam. 33.E SE FAZEIS BEM AOS QUE VOS FAZEM BEM, QUE RECOMPENSA MERECEIS? Pois o mesmo fazem também os infiéis.” (São Lucas 6)

A Lei Antiga, embora justa, santa e perfeita em sua essência e natureza, era imperfeita em sua eficácia, pois imprimia no indivíduo a busca por Deus e a salvação por mérito próprio. Isso foi necessária para fomentar nele, a consciência de que mérito algum tem, e que nada pode sem Deus.

Com o advento da Graça, a eficiência da Lei fora aperfeiçoada, pois agora ela seria cumprida não pelo valor dos seres humanos comuns e decaídos, mas por estes com o auxílio de uma manifestação Divina realizada na Humanidade do Verbo tornado Homem, e que agora os moveria de maneira espontaneamente ao cumprimento da Lei eterna, independente dos meros esforços humanos vãos e inúteis.

O que há de bom no ser humano pode até vir exclusivamente da sua condição moral.

Mas o que há de SUBLIME só pode ocorrer pela Graça de Deus, que lhe move o seu arbítrio ao Bem perfeito que visa Deus como última ratio, razão principal e final do seu movimento.

Eis ai a distinção: o bom relativo existe sem a Graça de Deus; mas a BONDADE SUBLIME somente através dela.

Toda raiz de BONDADE SUBLIME nos indivíduos é obra puramente de Deus.

Mas para correspondermos a essa Graça, devemos nos entregar de maneira plena e livremente ao Cristo.

Entrega plena significa entrega ao CORPO MÍSTICO DE CRISTO, formado por sua IGREJA, Depositária das Verdades Reveladas aos Apóstolos (II Tm 3, 15 e Efésios 2, 19 e 20), e transmitidas aos seus sucessores, além da relação UNITIVA com a SANTÍSSIMA TRINDADE, e com os membros santificados que são os anjos e os santos, poderosos intercessores de bençãos, que nos ajudarão a trilhar o caminho da perseverança e santidade, promovendo adesão ao Caráter de CRISTO, que nos tornará justos, caridosos, santos, humildes, contritos e amorosos, sendo que nesses Atributos Messiânicos, nos aperfeiçoarmos dia após dia.

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/09/12/o-amor-eterno-e-a-base-da-fe-na-intercessao-dos-santos/

 https://afecatolicanasescrituras.blogspot.com.br/2016/12/a-intercessao-de-abel-em-favor-de-caim.html e https://afecatolicanasescrituras.blogspot.com.br/2016/12/mediacao-salvifica-e-intercessao-dos.html

Através da comunhão com o seu sacrifício, Cristo infundiu em nós o Dom Espiritual de dar satisfação pelos nossos pecados, e ainda merecer Vida e Felicidade eterna. 

Nisto reside a Graça, tomada em seu sentido mais importante, o sentido salvífico.

Cristo não se contentou apenas em merecer por nós, mas desejou nos participar dos seus Méritos.

Mas é indispensável usar os Méritos de CRISTO participados, em todo nosso ser, quer nas ações espirituais, pensamentos, vontade e na conduta concreta.

O refúgio do devedor, onde ele poderá encontrar perdão e remissão de sua dívida, é, e será sempre a Igreja, que NÃO É TEMPLO EM SENTIDO DE ESTRUTURA ARQUITETÔNICA, nem uma denominação, mas Templo no sentido espiritual, que se traduz no conjunto das Verdades que Cristo produziu em sua carne, Verdades essas, necessárias para nos levar até Ele, o único que detém o crédito para purgar nossos débitos.

“Todo aquele que se REFUGIAR NO TEMPLO de Jerusalém ou no seu recinto, por motivo de dívida ao fisco, ou por qualquer coisa que seja, será poupado, bem como tudo o que ele possui no meu reino.” (I Macabeus 10, 43)

Essas verdades estão depositadas apenas na FÉ CATÓLICA, APOSTÓLICA e ROMANA. (Romanos 1.1 à 8)

Por isso, pelos méritos de Cristo dispensados a todos os que não lhe rejeitam, e não rejeitam as verdades que Ele produziu, proclamou e mostrou, é que “cheio de compaixão, o Senhor nos deixou ir embora, e perdoou a dívida.” (São Mateus 18, 27)”

_______________________

[1]  Penhor é a entrega de um bem do devedor a disposição, posse e domínio do credor, para fins de garantia de uma dívida.  

[2] Quando no Éden, resolveram nossos pais colocarem suas vontades acima da Vontade do Criador, e assim, quiseram ser como Ele: – “E sereis como deuses.” (Gn 3,5)

 

2015_06_29_10_31_20

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