Matrimônio

A NOVA ALIANÇA EM CRISTO CONDENOU DEFINITIVAMENTE O DIVÓRCIO.

Sendo o divórcio pecado grave contra o matrimônio, equivalente ao adultério, estariam então condenados aqueles que se divorciaram, e contraíram novas núpcias? O que o Magistério da Santa Igreja nos ensina sobre essa situação e sobre a natureza sacramental do Matrimônio?

O Matrimônio une o homem e a mulher numa mesma carne, num propósito de vivência indivisível, levando dois seres a uma unidade de vidas até o fim.

É o mais profundo e intrigante mistério de uma unidade que não extingue a dualidade, e de uma dualidade ligada indissoluvelmente à unidade.

Ora, tudo que se une eternamente em dois, já não pode se unir em três ou mais.

O consórcio entre homem e mulher deixou de ser apenas uma realidade da natureza e dos afetos, quando, por Cristo, fora alçado ao patamar de instrumento para santificação e deificação do casal e sua prole.

A verdadeira Felicidade, enquanto Virtude Divina, a qual nos permite regozijar na contemplação da Beleza e Perfeição de Deus, não nos cabe individualmente, pois o pilar de ser feliz está no ato de partilhar essa Beleza e Perfeição com aqueles que amamos.

Deus instituiu a Felicidade num conjunto, não numa singularidade.

Instituiu-a na solidariedade, não no egocentrismo, porquanto fora dito por ocasião da criação da raça humana que não era bom “que o homem estivesse só”, razão porque, tomando da sua carne e dos ossos de sua costela,[1] lhe insculpiu uma companheira chamada “mulher”. (Gênesis 2.18)

O ato de amar não pode ser contido, nascendo e findando apenas num indivíduo, pois o Bem Maior do Amor que temos ou recebemos, está na Felicidade que proporcionamos ao próximo. (Mt 12, 30-40) 

E nada há de mais próximo na criação que a união matrimonial, celebrada na Unidade com Deus para formação de uma família:

“Por isso o homem deixa o seu pai e sua mãe para se unir à sua mulher; e já não são mais que UMA SÓ CARNE.” (Gênesis 2. 24)

Ao criar o ser humano, Deus o pensou dentro da família porque a Santíssima TRINDADE (Pai, Filho e Espírito Santo) é uma família.

A IGREJA (Esposa) e CRISTO (Esposo) formam igualmente uma família, e assim como homem e mulher geram os filhos naturais, Cristo e a Igreja geram os filhos espirituais para Deus, no conjunto de indivíduos ligados às verdades produzidos pelo sacrifício que o Esposo suportou em seu próprio corpo para salvar a Esposa:

“Felizes os convidados para a CEIA DAS NÚPCIAS[2] do Cordeiro. ” (Apocalipse 19, 9)

“Cristo é o chefe da Igreja, SEU CORPO, da qual ele é o Salvador (Efésios 5, 23) “Assim os maridos devem amar as suas mulheres, COMO A SEU PRÓPRIO CORPO. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo. ” (Efésios 5, 28)

“MARIDOS, amai as vossas mulheres, como CRISTO amou a IGREJA e se entregou por ela, (Efésios 5, 25) ”

“Consequentemente, já não sois hóspedes, nem peregrinos, mas sois concidadãos dos santos e membros da FAMÍLIA DE DEUS (Efésios 2, 19), ao qual deve a sua existência toda família no céu e na terra. (Efésios 3, 15)”

Também toda criação, obra de um conjunto perfeito, equilibrado e harmônico, é em sentido amplo família:

“Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. (Romanos 8, 22)”

A perfeição está na harmonia que podemos encontrar na união complementar entre os opostos; e o imperfeito, por sua vez, reside na desarmonia entre os similares, a qual jamais permitirá o alcance de qualquer fim útil à posteridade.

Como no âmbito da Trindade, da Igreja e da criação não pode haver divisão que lhes rompa a perfeição, beleza e harmonia, tal inseparabilidade, semelhantemente, é aplicável ao Matrimônio.

Se na Santíssima Trindade não há ruptura; e se entre Igreja (Digníssima Esposa) e Cristo (Digníssimo Esposo) há união eterna, também entre homem e mulher que se casam, tal qual, não lhes é dado direito ao desfazimento da unidade.

“Assim, já não são dois, MAS UMA SÓ CARNE. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu. ” (São Mateus 19, 6)

Matrimônio é criação Divina, não uma invenção intelectual, política, religiosa, ideológica ou social.

Deus em sua Onipotência podia ter criado toda a humanidade de uma só vez, e todos nós já poderíamos ter nascido no Éden.

Mas criou apenas UM CASAL, homem e mulher, e assim o fez porque desejou nos chamar a participar da obra mais importante da sua criação, quando então o casal, formado em comunhão com Ele, gera os santos e santas que o amarão, honrarão e o adorarão em Amor eterno.

Por este sacramento, somos chamados a participar do Gênesis, sendo o Matrimônio, a continuação da criação, a qual agora acontece em nós através desse sacramento.

Na Eucaristia Cristo disse expressamente:”— isto é meu Corpo que é dado por vós para remissão dos pecados. ” (São Lucas 22, 19)

No Matrimônio é manifestado implicitamente pelos nubentes: “— este é meu corpo, dado a ti para elevação das nossas vidas e almas:

“A mulher não pode dispor de seu corpo: ele pertence ao seu marido. E da mesma forma o marido não pode dispor do seu corpo: ele pertence à sua esposa. ” (I Coríntios 7, 4)

“… e os dois constituirão uma só carne (Gênesis 2,24)

Eucaristia e Matrimônio são sinais sagrados da Comunhão entre o ser humano e Deus.

Por isso, o mundo e os demônios odeiam o Matrimônio, porque antes de tudo, odeiam a Eucaristia pois detestam toda e qualquer ideia de humanidade ofertada a Deus para santificação (Matrimônio) ou remissão dos pecados (Eucaristia).

“Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja.” (Efésios 5. 30, 31 e 32)

Os nossos sentidos captam apenas a dualidade dos sujeitos, o marido e a mulher individualmente, por deficiência em vislumbrar a realidade miraculosa que está muito além da percepção sensível, e que é a Unidade dos Corpos instituída por Deus:

“FÉ é a CERTEZA daquilo que esperamos e a prova das coisas que NÃO VEMOS. ” (Hebreus 11, 5)

A finalidade do Matrimônio é nos honrar mediante a participação na obra da perpetuação dos únicos seres que trazem em si, a imagem e semelhança de Deus.

“Os filhos deste mundo casam-se, e dão-se em casamento, mas os que serão julgados dignos do século futuro e da ressurreição dos mortos NÃO TERÃO MULHER, NEM MARIDO. ” (S. Lucas 20, 34)

Essas palavras de CRISTO aparentam contradizer o propósito matrimonial instituído por Deus Pai, de que o “homem deixasse pai e mãe para SE UNIR À SUA MULHER; e já não fossem mais que UMA SÓ CARNE. ” (Gênesis 2, 24) 

E que fossem “fecundos, enchessem e multiplicassem sobre toda terra. ” (Gênesis 9. 1)

A explicação é que Cristo parte do ser pecador para o ser remido na vida eterna, onde não havendo pecado e morte, também não haverá matrimônio, cujo fim último é a preservação da espécie.

Já Deus Pai, parte do ser puro, em estado de inocência no paraíso, para o degenerado, antevendo no futuro o pecado que o mataria, matando assim, toda espécie humana.

A ONISCIÊNCIA de Deus, antecipando-se a existência do pecado no Éden, o fez projetar desde o princípio o Santíssimo Matrimônio, criando homem e mulher, para que no consórcio de um com outro a criação pecadora não morresse, mas se conservasse na descendência das suas gerações.

O sacramento do Matrimônio nos faz cooperadores com a obra do Gênese, tornando-nos partícipes da Divina Criação pela dádiva que nenhum outro ser vivente possui, que é conceber aqueles que, como nós, são imagem e semelhança de Deus na terra.

Imprime no homem e na mulher o atributivo do criacionismo, transformando-os em especiais colaboradores da obra-prima da criação.

Há no Matrimônio um sinal indireto que é a água do Batismo; e outro direto que são os corpos dos noivos doados de livre e espontânea vontade ao tempo da idade e da razão, em sacrifício de renúncia perpétua em favor de Deus e do outro cônjuge:

“O pacto matrimonial pelo qual o homem e a mulher constituem entre si o consórcio de toda a vida, por sua índole natural ORDENADO AO BEM dos cônjuges e a geração e educação da prole, entre BATIZADOS foi por Cristo Senhor elevado à dignidade de sacramento”. (Código de Direito Canônico, Cân. 1055 § 1).

“Portanto, entre BATIZADOS, não pode haver contrato matrimonial válido que não seja, ao mesmo tempo, sacramento” (Idem, § 2). É, pois, uma elevação do casamento ao plano sobrenatural. ”

O Matrimônio ratificado e consumado não pode ser dissolvido por nenhum poder (ou ato) humano, nem por nenhuma causa, exceto a morte” (Código de Direito Canônico, Cân. 1141)

Quando Deus criou o homem, Ele já havia pensado na mulher; e quando criou do homem a mulher, também já havia pensado nos filhos e filhas que estes lhes dariam, como prova de Amor.

Tal como Cristo se sacrificou até a morte por sua Esposa que é a Igreja, os nubentes se sacrificarão uns pelos outros até que a morte os separe:

“NÃO SEPARA O HOMEM aquilo que DEUS UNIU. ” (São Mateus 19, 6)

Esse sacramento é a participação dos esposos no MISTÉRIO DA CRUCIFICAÇÃO, por meio do legado de si mesmos a Deus para continuidade da humanidade vindoura.

Ofertando os cônjuges, um ao outro, numa só carne como dádiva eterna de Amor e Caridade, também se ofertam a Deus eternamente.

A união indissolúvel entre homem e mulher figura a SALVAÇÃO dada por Cristo à sua Esposa, a Igreja, de modo irrevogável.

Mas dentro do acervo patrimonial comum do casal não existem apenas os chamados bens temporais, mas um certo bem eterno chamado atemporal. [3]

Temporais são os necessários apenas no âmbito terreno, como a mútua assistência material, afetiva, espiritual, fidelidade e todas as virtudes morais que destes provenham.

Já o bem atemporal está na honra que nos fora dada, de COOPERAR COM DEUS EM SUA CRIAÇÃO MAIS SUBLIME QUE É O SER HUMANO. ” (Art. 2 Q 1, Suma Teológica de S. Tomás de Aquino. Dos Sacramentos em Geral)

Sendo atemporal a formação e educação espiritual da prole, torna-se, portanto, o bem mais importante e precioso do Matrimônio.

Considerando todo esse quadro, podemos dizer que nisto consiste na essência deste sacramento, e por essência se diz de tudo que é indispensável a existência de algo.

Mas toda essência só se constitui, se mostra e se realiza no mundo sensível e material mediante uma forma.

Na formalização do ato matrimonial é que se constitui a sua indissolubilidade.

O Matrimônio não é uma simples manifestação da vontade de “querer, desejar, ter uma intenção” de ficar casado até o fim.

É muito maior do que isso.

É uma autêntica profissão de fé, porque assim Cristo o instituiu.

O que distingue o Matrimônio da simples união natural puramente animal entre homem e mulher está no JURAMENTO que se faz no altar, na presença de Deus, de se sacrificarem até o fim um pelo outro, como Cristo fez por sua Igreja, além de se unirem numa vida comum por meio de Cristo, por causa de Cristo e no propósito de Cristo.

Sem juramento de vida a dois até o fim não há Matrimônio, pois não há compromisso firmado perante os noivos, nem perante Deus.

E sem Deus nenhum ato matrimonial se realiza.

Não é o aconchego ou o prazer do bem-estar conjugal aqui nesta terra, o objetivo do Matrimônio.

Deus o criou, e Cristo o santificou em seu Corpo, para que os cônjuges pudessem engrandecer, respeitar, renunciar, cuidar, fomentar e compartilhar o amor recíproco e elevarem a Deus suas vidas.

Foi para que cada um pudesse inclinar a vida do outro rumo à salvação que a união entre homem e mulher fora santificada, para que os nubentes pudessem se colocar contrários ao instinto humano do qual se origina todo pecado.

A missão mais sublime dos casados é servir de instrumento que possa conduzir o outro a salvação, para que um dia, juntos, possam usufruir da verdadeira Felicidade com Deus.

Não por outra razão, se não houver o voto de que só a morte os separará, não haverá Matrimônio perfeito.

Mas havendo voto recíproco e espontâneo que se faz a Deus, por Deus, e em Nome de Deus, este não pode ser quebrado sem consequência grave.

Tem-se o juramento eclesiástico como modo de invocar Deus como testemunha de uma promessa (juramento promissário), bem como, usar da Autoridade do seu Santo Nome para prática de um ato (juramente representativo).

Essas duas espécies compõe o juramento matrimonial.

O divórcio ou libelo de repúdio do esposo contra a esposa, e vice-versa, é pecado porque consiste na quebra de juramento feito ao próprio Deus, e em Nome de Deus.

E assim como Deus Glorificará todo aquele que jurou, e honrou o seu juramento, também castigará aquele que o jurou em falso sobre o seu Santo Nome, o desonrando pela ausência de convicção e vontade de realizar aquilo que prometera: 

“Será glorificado o que jurar pelo seu Nome, enquanto aos mendazes lhes será tapada a boca. ” (Salmos 62, 12)

“Se jurar em vão, sua casa será cheia de castigos. ” (Eclesiástico 23, 14)”

“Eles já não guardam a honestidade, nem na vida, nem no casamento, mas um faz desaparecer o outro pelo ardil, ou o ultraja pelo adultério. (Sabedoria 14, 24″)

“E, se a mulher deixar a seu marido, e casar com outro, adultera. ”  (São Marcos 10, 12)

“Ora, eu vos declaro que todo aquele que rejeitar sua mulher, exceto no caso de relacionamento sexual ilícito, e desposa outra comete adultério. ” (Mt 19, 9)

“ADÚLTEROS, não sabeis que o amor do mundo é abominado por Deus? Todo aquele que quer ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. ” (São Tiago 4, 4) 

Além da infidelidade com o cônjuge, o divórcio implica trair Deus, cujo Nome Santo fora invocado em vão para o juramento.

O compromisso que se contrai em Nome, e por Meio de Deus, não pode estar subordinado aos caprichos, deleites, satisfações próprias, regalos e comodidades da vontade humana.

Ensina Santo Tomás de Aquino:

“Estamos obrigado a fazer aquilo que afirmamos sob juramento, para fazer ser verdadeiro o que juramos, pois do contrário, faltaria a verdade em nosso juramento, * e mentir diante de Deus consiste numa grave fraude, grave pecado contra sua Graça. * (Suma Teológica, Q art. Do Juramento)

Desta forma, por um único ato de divórcio, se infringe simultaneamente dois Mandamentos, incorrendo em estado de pecado mortal, conforme o Livro de Êxodo 22, versos 1 a 17.:

1) – não tomar seu Santo Nome em vão;

2) – não adulterarás;

São os votos sagrados perante Deus que conferem segurança e a estabilidade necessária ao convívio sadio do casal, na certeza de que, seja na saúde ou doença; pobreza ou riqueza; bonança ou dificuldade, nenhum deles jamais deixará o outro, porque A GRAÇA DIVINA LHES AUXILIARÁ neste propósito.

O que se jura a Deus é perpétuo.

Mas o que juramos entre nós, mais dia, menos dia se rompe, pois somos falíveis, sujeitos a busca insensata pela renovação das sensações, paixões, prazeres carnais, vaidades profanas e emoções, e sem os votos santos, Deus não estará conosco para nos afastar das tentações, nem para nos sustentar em nosso juramento do Altar.

Escreveu o Apóstolo:

“Aos casados, mando (não eu, mas o Senhor) que a mulher não se separe do marido. (I Coríntios 7, 10)”

“E, se ela estiver separada, que fique sem se casar, ou que se reconcilie com seu marido. Igualmente, o marido não repudie sua mulher. (I Coríntios 7, 11)”

E o próprio CRISTO:

“Foi também dito: Todo aquele que rejeitar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo: todo aquele que rejeita sua mulher, A FAZ TORNAR-SE ADÚLTERA, a não ser que se trate de matrimônio falso; e todo aquele que DESPOSA UMA MULHER REJEITADA COMETE UM ADULTÉRIO. Ouvistes ainda o que foi dito aos antigos: NÃO JURARÁS FALSO, MAS CUMPRIRÁS para com o Senhor OS TEUS JURAMENTOS. (Mt 5, 31 até 33)

Havendo impossibilidade da vida em comum ou coabitação por condutas atentatórias aos fins matrimoniais, como vícios em entorpecentes, conflitos contumazes, incompatibilidades, violência doméstica, abandono material, afetivo e infidelidade, dentre outros, para não colocar um dos cônjuges em perigo lhe é facultado o remédio espiritual do “Desquite Eclesiástico[4]”, o qual NÃO DISSOLVE O MATRIMÔNIO, apenas autoriza temporariamente a separação de corpos, a fim de que o consorte, SEMPRE COM O AUXÍLIO E ORIENTAÇÃO DA IGREJA, possa ajudar o outro, sem incorrer em perigo próprio.

O desquite não é o desfazimento divórcio, nem anulação do Matrimônio, enquanto declaração eclesiástica de que lhe faltou algum requisito necessário a validade. (Ex. o consentimento livre)

Consiste numa situação excepcional de separação de leito, mesa e habitação, conservando o vínculo e todas as obrigações conjugais, inclusive fidelidade.

Frise-se que a situação do cônjuge descumpridor dos deveres conjugais, sendo irreversível, não permite ao cônjuge afetado romper o voto perpétuo feito a Deus, devendo trocar a santidade do Matrimônio pela santidade da Castidade.

O ser humano só se livra do pecado da concupiscência da carne vivendo a licitude da sexualidade conjugal ou castidade.

Não existe meio termo:

“Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos céus. Quem puder compreender, compreenda. ”  (São Mateus 19, 12)

Assim é o Matrimônio Santo, e o que é Santo não pode ser maculado pelo divórcio.

Divorciar é desatar os laços, desprezar os votos feitos a Deus e ao cônjuge.

Entretanto, com o surgimento do movimento de cisão chamado protestantismo (1.530), surge a heresia perigosa e desastrosa que atenta até hoje contra a preservação e continuidade das famílias.

Surgia a heresia “contratualista”.

O protestantismo, inegavelmente, fora influenciado pelo modernismo pagão da filosofia romântica e iluminista de JJ Rousseau (1.762), John Locke (1.689) e Thomas Hobbes (1.588), este em especial, que desaguou na chamada teoria rousseauniana do “Contrato Social”.

Pelo contrato social, o Matrimônio não mais seria uma profissão de fé, mas simples ATO JURÍDICO instituído e regulamento somente pelas leis do Estado laico.

Para Lutero, em seu pessimismo antropológico e eclesiástico, o Matrimônio, por causa do pecado, não poderia mais ser sacramento, apenas uma realidade mundana, doméstica e natural.[5]

Não haveria no Matrimônio nenhum Bem ou efeito transcendente ao céu, mas simplesmente, uma administração de situações privadas e patrimoniais, visando sempre o aconchego e a comodidade cotidiana, individual e social, mirando o bel prazer dos casados, segundo a conveniência da vontade egocêntrica de cada um.

Sendo apenas realidade natural e social, não teria a Igreja qualquer autoridade ou papel no ato matrimonial, reservando-se apenas ao Estado, dispor das leis necessárias a regular o começo e o término da relação conjugal, bem como, das normas relativas aos direitos patrimoniais dos casados.

Aderindo a filosofia pré-contratualista, o protestantismo esvaziou o Matrimônio de todo e qualquer sentido transcendental, para nele prevalecer exclusivamente à vontade humana em detrimento à Vontade de Deus.

Além de aceitar o divórcio, aceita-se também a possibilidade de inúmeras núpcias, com inúmeros cônjuges, “desde que não simultâneos”.

No âmbito desse movimento religioso, tem-se até nossos dias a defesa quase uníssona do “direito ao divórcio”, e embora, para eles,  o “matrimônio”  seja  “ordenança[6] de Deus”, deve, no entanto, ser realizado pelo Estado (sic), e regido pela vontade livre e independente.

O “matrimônio protestante” é CONTRATO.

Ora, contrato é o ajuste entre os particulares, onde prevalece a autonomia das vontades dos contratantes e nada mais, sendo regido e tutelado somente pelo Estado, e não pelas leis eclesiásticas.

Talvez por isso, os evangélicos ainda hoje acreditam equivocadamente que aquilo que eles realizam no cartório, mediante juiz de paz ou tabelião, jurando PERANTE O ESTADO (não perante DEUS), honrar os compromissos da legislação humana (até que o divórcio os separe), seja ato de fé cristã.

Podemos ver esse conceito errôneo em documentos históricos do protestantismo, que equiparam um simples contrato ou pacto antenupcial ao pacto pós nupciais chamado CASAMENTO:

“Art. 5º – O adultério ou fornicação cometido depois de UM CONTRATO, sendo descoberto antes do casamento, dá a parte inocente justo motivo de dissolver o contrato; no caso de adultério depois do casamento, a parte inocente é lícito, depois de obter o divórcio, casar novamente com outrem, como se a parte infiel FOSSE MORTA. (I Catecismo de Westminster, ano 1.643)

A declaração da fé dos batistas (1.639) e declaração de Savoy (1.658) dos protestantes confessionais, diz apenas não ser lícito ter outra relação sexual e afetiva, simultaneamente com quem já esteja casado.

Por óbvio então, ser lícito ter diferentes cônjuges, desde que em tempo intercalado:

“Art. 1º – Do Matrimônio: O casamento é para ser entre um homem e uma mulher. Não é lícito ao homem ter mais de uma esposa, e nem a mulher ter mais de um esposo AO MESMO TEMPO. ”

Nota-se, o único bem a ser tutelado é a comodidade das partes, e não a Vontade de Deus cuja fé nos moveria a cumpri-la.

No matrimônio à moda protestante, prevalecerá a independência da vontade humana e o fim social do casamento, não o seu fim celestial e transcendente, que no caso, é totalmente esquecido.

Ora, se a autonomia da vontade é o fundamento principal do matrimônio, nada obsta que a vontade humana queira o divórcio.

Indo mais além, nada obsta então, que a mesma vontade que deseja repudiar o esposo ou esposa, deseje saciar seus instintos na prática da poligamia, poliandria, relação poliamorosa ou homoafetiva, pois todas essas, são manifestações puramente afetivas, atreladas ao bem-estar da felicidade temporal.

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Do protestantismo surgiram todas as ideologia religiosas anticristãs contra o Matrimônio, como na poligamia dos mórmons, praticada de 1.850 à 1.890; na poligamia do líder protestante alemão, Felipe I, príncipe de Hesse[7] (1.504 à 1.567), no adultério assassino do rei Henrique XVIII, fundador da seita dos anglicanos (1.491 à 1.547), que condenou, e matou o padre John Fischer, Bispo de Rochester (1.469 à 1.535), por ter lhe negado o divórcio e segunda núpcias com sua cortesã e amante, Ana Bolena (1.507 à 1.536); até os atuais “casamentos homoafetivos” das “igrejas” evangélicas contemporâneas.

Fundam-se os evangélicos, em erro crasso de interpretação das Escrituras, na tentativa de justificar perante Deus o divórcio e segunda núpcias.

O primeiro erro está em considerar como Vontade de Deus o divórcio, porque a antiga lei mosaica permitia o libelo de repúdio do homem contra sua esposa:

“Se um homem, tendo escolhido uma mulher, casar-se com ela, “e vier a odiá-la” por descobrir nela qualquer “coisa inconveniente”, escreverá uma letra de divórcio, lhe entregará na mão e a despedirá de sua casa. (Deuteronômio 24, 1)”

Ora, o que se tinha era uma lei de tolerância, de natureza temporária, cujo objetivo era não cobrar uma conduta antes de ensinar sobre o seu valor, e principalmente, para evitar que o marido assassinasse a esposa com quem já não queria coabitar.

Não se pode condenar sem que antes se explique, e se dê ciência do porquê de uma proibição.

Tolerou-se o divórcio na lei antiga, por conta da ignorância da mente, e dureza dos corações dos homens no trato com as mulheres, implicando que haveria um tempo em que essa realidade já não poderia ser tolerada, sendo esse, o tempo em que o Verbo Encarnado santificaria, na cruz, a relação matrimonial.

Sendo Cristo um Legislador com Maior Autoridade que Moisés, restou abolida a lei do repúdio:

“Porque o Senhor é nosso juiz, o Senhor é nosso LEGISLADOR; o Senhor é nosso rei que nos salvará. ” (Isaías 33, 22)

“Foi DEVIDO À DUREZA DO VOSSO CORAÇÃO que ele vos deu essa lei; 6.mas, no princípio da criação, Deus os fez homem e mulher. 7.Por isso, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher; 8.e os dois não serão senão uma só carne. Assim, já não são dois, mas uma só carne. 9.NÃO SEPARE, pois, o homem o que Deus uniu.” 10.Em casa, os discípulos fizeram-lhe perguntas sobre o mesmo assunto. 11.E ele disse-lhes: “Quem repudia sua mulher e se casa com outra, COMETE ADULTÉRIO contra a primeira. 12.E se a mulher repudia o marido e se casa com outro, COMETE ADULTÉRIO. ” (São Marcos, 10)

Lecionou Santo Tomás de Aquino:

“Para não resultar num mal maior, que Moisés, apoiado pela Autoridade Divina, não proibiu o libelo de repúdio. Não era isso uma ordem do Espírito Santo, mas apenas uma tolerância para evitar maiores males. ” (Suma Teológica, Livro Suplementar, Q 67, art. 3. Do Matrimônio)

Outro equívoco das seitas para tentar legalizar o pensamento divorcista perante Deus está na interpretação deturpada das palavras de Cristo, em Mateus 19, 9, onde se tem:

“ Ora, eu vos declaro que todo aquele que rejeitar sua mulher, exceto no caso de relacionamento sexual ilícito, e desposa outra comete adultério. ” (Mt 19, 9)

A palavra usada por São Mateus, no verso 19, do capítulo 9 de seu evangelho para relação ilícita é no grego pornéia:[8]

“exceto no caso de relação sexual ilícita”

(legw de umin oti oV an apolush thn gunaika autou ei mh epi PORNEIA kai gamhsh allhn moicatai kai o apolelumenhn gamhsaV moicatai)

Já para a palavra adultério, no mesmo texto, utiliza-se o termo moichéia:

“e desposa outra comete adultério”

(amhsh allhn moicatai kai o apolelumenhn gamhsaV MOICATAI)

Pornéia não era a palavra usada para indicar adultério, e sim falso matrimônio de um casal que vivia socialmente e intimamente em situação de casados, sem nunca ter casado (concubinato).

Cristo ensina que nesta condição, pela lei natural e DIVINA, inexiste obrigação de vivência eterna, nem qualquer compromisso de fidelidade, estando, pois, liberados de vínculos perenes dada ausência de votos matrimoniais diante de Deus, conforme a FÉ CRISTÃ, por incredulidade ou mero descuido das partes.

Nos ensinos de São Paulo podemos entender as palavras do CRISTO:

“Se uma mulher desposou um marido pagão e este consente em coabitar com ela, não repudie o marido. (I Cor 7, 13)

“Mas, se o PAGÃO QUISER SE SEPARAR, que se separe; em tal caso, NEM O IRMÃO, NEM A IRMÃ ESTÃO LIGADOS. (I Cor 7, 15)

Mas alguns grupos evangélicos querem entender o relacionamento sexual ilícito ou estado de união natural entre homem e mulher, mencionado em São Mateus 19, 9, como condição equivalente ao adultério.

Tal tese é absurda.

É dito que o que DEUS UNE o homem não pode SEPARAR.

E adultério é causado por ato humano, não por Obra Divina.

Então bastaria que o esposo ou esposa, interessados em outros amores, maculasse o dever de fidelidade para que pudessem obter o “direito ao divórcio” e fossem premiados com novas núpcias.

Confirma-se assim, que a única exceção dita por Cristo, está no matrimônio inexistente ou união natural, onde não há matrimônio válido.

Lamentavelmente é da natureza das heresias, santificar o profano; e profanar o que é santo e imaculado, como no caso, o ato matrimonial.

Por isso, recomenda a Igreja aos casais em união natural, que procurem elevar essa união a condição sagrada.

Mas então indaga-se:

Estariam definitivamente condenados ao inferno, aqueles que por algum motivo abandonaram os seus respectivos consortes e contraíram uma união natural, conforme alertou o Apóstolo?

“Acaso não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis; nem fornicários, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados. ” (I Cor 6.9)

Em tese, não, pois podem optar pela Castidade ou retomada da convivência conjugal, necessitando que o auxílio da Graça Divina possa lhes mover a realizar esse propósito.

Mas se nenhuma dessas soluções for viável, como na união ilícita já ter uma prole ou situação familiar de fato consolidada, recomenda-se manterem-se num estado contínuo de santificação mediante a fé que opera através da Caridade, vez que o desfazimento do casamento e segundas núpcias é também uma ação permanente no tempo e no espaço.

 “a Caridade cobre todas as transgressões”.[9] (Provérbios )

Diante da seriedade e ortodoxia da Doutrina do Matrimônio, os fariseus reclamaram:

“Se tal é a condição do homem diante da mulher, melhor que ele não se case. ” (Mt 19, 10)

Respondeu-lhes CRISTO:

“Nem todos são capazes de compreender; quem puder compreender, que compreenda. ” (Mt 19, 11 e 12)

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[1] Nem da cabeça; nem dos pés. A costela que significa nem mais, nem menos, mas o total equilíbrio entre homem e mulher. Implica na mensagem de que em termos de Dignidade humana, não há diferença entre homens e mulheres, conforme já lecionava Santo Tomas de Aquino, no século 12.

[2]Em Apocalipse 19.7, a DESPOSADA DO CORDEIRO é apresentada como sendo uma FIGURA TERRENA, a qual abrigou o sangue dos mártires dos primeiros séculos que morreram em Nome de Cristo para não lhe negar a Fé durante a perseguição do Império Romano, numa clara alusão a Igreja Católica, Apostólica Romana dos tempos primitivos. Já no capítulo 12, verso 2, do mesmo Livro, ela é apresentada como uma FIGURA CELESTIAL, a Jerusalém que vem do Céu, não a Jerusalém terrena dos judeus, do Estado sionista e da religião judaica herética, farisaica e apóstata, mas a verdadeira, cujos habitantes se produziu da referida figura terra (Igreja Militante), os quais ressuscitarão com Cristo, e virão com Ele julgar o mundo no fim dos tempos: “Então virá o Senhor meu Deus, e todos os santos contigo. (Zacarias 14, 5)

[3]Santo Agostinho, in “Dos Bens do Matrimônio”.

[4] Catecismo§2383 A separação dos esposos com a manutenção do vínculo matrimonial pode ser legítima em certos casos previstos pelo Direito canônico (cf. CIC, cânones 1151-1155).

[5] Citado por Bernard Sesboüé, O Matrimônio, in História dos Dogmas, tomo 3, Edições Loyola, São Paulo 2005, página 171.

[6] A heresia do matrimônio como “ordenança” é também de matriz protestante. Ordenança é tudo que se ordena a prática, sem possibilidade de outra alternativa. Por isso, é ORDEM, IMPOSIÇÃO COERCITIVA, sob pena. Não fazer o mal é ordenança. Mas não o Matrimônio não, porque é VOCAÇÃO, vez que é facultado ao ser humano, a guarda da castidade e dos votos monásticos, logo, não tem natureza “ordenatória” como querem os cismáticos com suas toscas doutrinas humanas: “Cada um fique na vocação que foi chamado. Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu. Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se. (I Cor 7. 20, 7 e 8)

[7] Conforme mencionado pelo próprio Lutero, in “The Life of Luther”, de Himself.

[8]https://biblehub.com/lexicon/matthew/19-9.htm

[9] CATECISMO: D.37.6 Obra de caridade para com os divorciados:

  • 1651 A respeito dos cristãos que vivem nesta situação e geralmente conservam a fé e desejam educar cristãmente seus filhos, os sacerdotes e toda a comunidade devem dar prova de uma solicitude atenta, a fim de não se considerarem separados da Igreja, pois, como batizados, podem e devem participar da vida da Igreja:

Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a freqüentar o sacrifício da missa, a perseverar na oração, a dar sua contribuição às obras de caridade e às iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorar, dia a dia, a graça de Deus.

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