Teofania

COMO EXPLICAR A IRA EM DEUS?

Se a ira humana é a desordem do desejo de justiça transformado em vingança, a Ira Santa de Deus é Razão Perfeita concebida no Justo Juízo, acompanhado da Misericórdia e Amor.

Ira é a capacidade de reação contra uma agressão física ou moral, injusta ou mesmo justa praticada contra nós, nossos próximos ou nossos bens.

É um sentimento que frutifica da sensibilidade humana, causando reação natural de revolta e desejo de revanche em retribuição à agressão que nos atinge naquilo que amamos, prezamos ou nos é apenas aprazível.

Como a concupiscência, a ira é uma potência sensitiva, sendo que o que as difere está no fato da ira buscar a reparação da humilhação, do suplício, desgosto ou dores causadas pela crueldade de um ataque, castigo ou insulto, sendo que a concupiscência se restringe a busca do regozijo que pode estar no estado exagerado de autoestima.

Toda ação irascível é pecado, e como todo vício dos hábitos humanos é movida por um certo prazer em recuperar o prestígio magoado.

Mas aquilo que causa a ira e atine ao movimento dos atos irados, é tão ou mais destrutivo quanto a própria hostilidade que sofremos.

Como ensinou Santo Tomás:

“A ira e o ódio convêm no mesmo efeito, pois uma e o outro nos causam dano. O ódio tem o mal como objeto, segundo já se disse. Logo, também a ira.” (Suma Teológica, Q 81, art. 3 Livro I)

O ódio é o combustível da ira humana, pois esta, em regra, se dá no amor magoado, desonrado, o qual se desordena num mal, por cegar o pensamento racional.

Pode ainda confundir o senso de justiça com um desejo incontido por vingança.

Está escrito:

“Não vingueis uns aos outros” (Rom. 12, 19)

“amargura, e ira, e cólera, e gritaria, e blasfêmia e toda a malícia sejam tiradas dentre vós” (Efésios 4.31)

Toda ira cria certa frustração em razão do sentimento do dano não reparado, ou da necessidade da desforra imoderada, a qual nunca sacia.

Quem mata o assassino do filho pode até obter o prazer aparente, mas com o tempo esse prazer se extingue, permanecendo a dor e a sensação de que os efeitos incessantes da perda não puderam ser neutralizados.

A tristeza, a humilhação e desejo de vingança é o que potencializa nossos atos irascíveis.

Aquele que foi morto por um ato de vingança recebeu a máxima punição terrena. 

Mas tal não implica que, depois disto, nossa ira estará saciada, e como já não existe mais o autor da ofensa no qual possamos desforrar, o desejo reprimido da ira causará o mal sem limites no indivíduo.

A simples lembrança do agressor morto é suficiente para despertar ou manter acesa a chama que nos inflama ao pecado da ira.

Assim, dúvida não há que a ira é um pecado.

Mas essa questão se torna tormentosa, porquanto as próprias Escrituras afirmam que em Deus há Ira:

“Pelas quais coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência” (Colossenses 3.6)

“Em minha cólera e furor, tomarei vingança das nações que não obedeceram.” (Miquéias 5, 14)

“Com o hálito de Deus perecem; e com o sopro da sua ira se consomem.” (Jó 4:9)
“Derrama sobre eles a tua indignação, e prenda-os o ardor da tua ira.” (Salmos 69.24)

“Marcharei contra vós em meu furor e vos castigarei sete vezes mais, por causa dos vossos pecados.” (Levítico 26, 28)

Um fato visível da Ira Divina, é o episódio em que JESUS, no templo, expulsa violentamente, mediante chicotadas, os comerciantes, agiotas e vendilhões da fé que utilizavam a desesperança do povo local para lucrarem, elevando o preço dos animais para serem ofertados em sacrifício. (São Mateus 21.12)

Mas existe notável diferença entre a Ira Santa de Deus e a ira humana.

Diferente do ser humano, a Ira não está em Deus como imperfeição, mas VIRTUDE, como aliás, tudo Nele.

Ensina Santo Tomás:

“Não se atribui a ira a Deus como paixão da alma, MAS COMO JUÍZO DA RETA JUSTIÇA, enquanto quer tirar vingança do pecado.” (Suma Teológica, Q 47 art. 2 L Ia IIa)

A Ira santa e perfeita de DEUS, não visa pagar o mal com o mal, e sim tirar dele a transformação num Bem.

Não imputa a Ira de Deus outro objetivo, senão o aperfeiçoamento do ser humano pela santificação, na aplicação da correta Justiça.

A Justiça de Deus, além de reparar o mal pelo Bem, objetiva reprimir o infrator, dando-lhe pelo sofrimento, a noção de que NINGUÉM ESTÁ ISENTO DOS EFEITOS DO PRÓPRIO MAL QUE PRATICA.

Já a ira humana que nos deixa a mercê do sentimento de vingança, sendo desprovida da razão superior, implica retribuir um sofrimento por outro ainda maior, sendo desmedida e além do necessário para reparar o dano, perdurando enquanto durar a dor pessoal que nos move à vingança.

Conforme Santo Tomás de Aquino:

“Ira humana é o desejo de vingança. O motivo que identifica a ira é a satisfação por se ter realizado a punição. Mas esse motivo, corrompido pelo ódio, humilhação e amor frustrado, acaba não identificando as consequências de ser agir contra a Vontade e a Justiça Divina.” (Suma Teológica, Q 81, art. 4 Livro I)

Se muitas vezes julgamos que da parte de Deus não houve Justiça (como na punição de Caim que matou Abel e recebeu como reprimenda o exílio de sua terra), é por estarmos imbuídos da vingança, que não nos deixa enxergar que a satisfação perfeita está dentro dos propósitos Divinos.

Se a ira humana é a desordem do desejo de justiça transformado em vingança, a Ira Santa de Deus é Razão Perfeita concebida no Justo Juízo, acompanhado da Misericórdia e Amor.

“Deus AGE COM MISERICÓRDIA quando faz algo, não contrário, MAS além da sua Justiça.” (Q 15, art. 9 Livro III, in Santo Tomás)

Nisso temos a Misericórdia Divina, porque:

“A ira do homem NÃO CUMPRE a Justiça de Deus. (São Tiago 1, 20)”

A Ira humana pode até aplacar nossa dor, mas não pune de modo exemplar e equilibrado porque não produz o BEM necessário a neutralizar o mal realizado, como sói ocorrer na Ira da Justiça Divina.

Explica Santo Tomás:

“A ira que transgride a ordem da razão, se opõe a mansidão.” (Q 15, art. 9 Livro III, Suma Teológica)

Além disso não se consegue fazer esquecer a dor da ofensa suportada, o que só nos é possível através do PERDÃO.

Não sem razão, a Ira pertence a Deus, pois só Nele há perfeita harmonia entre Misericórdia e Justiça.

A ira humana pode perder a característica de vício se transformada pela Justiça Divina em misericórdia e perdão, que são Bens necessários a nossa salvação.

Por causa disso escreveu o Apóstolo:

“Não vos vingueis uns aos outros, caríssimos, mas deixai agir a ira de Deus, porque está escrito: A MIM A VINGANÇA; A MIM EXERCER A JUSTIÇA, diz o Senhor (Dt 32,35). (Rm 12,19)

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