Eucaristia

POR QUE NA EUCARISTIA, APÓS A CONSAGRAÇÃO, NÃO HÁ MAIS PÃO E VINHO?

O sacramento do Altar, a Santíssima Ceia instituída por Cristo, cujo alimento supranatural é a sua própria carne (pão) e sangue (vinho), consiste especialmente num sinal visível e material da Comunhão Perfeita entre a nossa humanidade e a Dele.

Comunhão perfeita é aquela que é plena naquilo que une, nada lhe escapando. E sendo Cristo Espírito e Matéria por ser o DEUS ENCARNADO HOMEM, convinha assim, dessa maneira harmônica unir-se ao ser humano, o qual é também espírito e matéria:

“Assim, NÓS embora sejamos muitos, formando UM SÓ CORPO (uma só humanidade) em Cristo.” (Rm 12.4, 5)

Numa união plena e indefectível, também não pode haver supérfluos que alterem, adulterem ou contaminem a união, desvirtuando-a do propósito ou daquilo que pretende unir.

A finalidade da Eucaristia é unir em comunhão a nossa humanidade com a humanidade que está em Deus através do Filho Divino, que é Deus feito homem, gerado em carne e sangue.

Inexiste comunhão sacramental entre humanidade e comida comum.

Ensina a Igreja que no Altar não há lugar para simples comida, mas para o sacrossanto sinal da Nova Aliança, “porque o reino de Deus NÃO é de COMIDA, NEM de BEBIDA”. (Rm 14, 17)

Consagrados pelos sacerdotes da linha sucessória Petrina, não mais permanecem as espécies primitivas do pão e vinho natural, pois o que remanescerá será um cálice de VINHO CELESTIAL da Taça de Deus, e um PÃO ETERNO que nunca acaba, nem finda, porque a carne de Cristo é a verdadeira comida sem acréscimos, e seu sangue verdadeira bebida sem mistura:

“Há na MÃO do SENHOR uma taça de VINHO espumante e aromático. DELA DÁ DE BEBER. HÃO de SORVÊ-LA os ÍMPIOS TODOS da TERRA.” (Salmo 74. 9)

sobre a MESA[1] dos pães da proposição, o PÃO PERPÉTUO estará sobre ela. (Números 7. 4)

“Eu sou o PÃO VIVO que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a MINHA CARNE para a salvação do mundo. Em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não BEBERDES o seu SANGUE, não tereis a vida em vós mesmos.” (São João 6, 51 a 53)

Quis Cristo unir-se apenas e exclusivamente ao ser humano, cuja humanidade é o objeto único da oferta sacrificial para redenção e salvação.

Não quis se unir a comida que apenas sacia as apetências naturais.

Os profetas predisseram de um Altar maculado, repudiado por Deus, pois sobre esse Altar haveriam elementos estranhos, distintos da humanidade e da Divindade:

“A MESA do SENHOR está MANCHADA; o que nela se oferece é ALIMENTO COMUM.” (Malaquias 1. 12 e 13)

Qualquer alimento natural dentre os elementos da Ceia Eucarística seria totalmente inútil, e inutilidade é defeito, traço de imperfeição incompatível com toda excelência e virtuosidade que se requer, e se tem na Comunhão sacramental.

Ao perfeito nada lhe falta, e nada lhe excede.

Tudo que falta gera deficiência; assim como tudo que excede gera confusão, e Deus não é Deus de confusão. (I Cor 14, 33)

Por esse motivo, na consagração da Eucaristia não há lugar para alimento natural.

“Não é, entretanto, a COMIDA que nos torna agradáveis a Deus: COMENDO, NÃO GANHAMOS NADA; e não comendo, NADA PERDEMOS. ” (I Coríntios 8, 8)

O pão e o vinho enquanto alimento comum, de nada servem a redenção humana.

Tudo que é excesso é abusivo, dificultando o equilíbrio entre os harmônicos, e não raras vezes, contamina os elementos primários da mesma espécie que se alinham perfeitamente.

Eucaristia tem por fim ligar plena e perfeitamente nossa humanidade débil e pecadora com a humanidade impoluta e incorrupta de Cristo num mesmo CORPO, para que unidos ao seu sacrifício possamos ser, Nele, oferta santa, viva e justa a Deus para remissão dos pecados. E isso ocorre para que haja ressurreição do nosso corpo físico, até então regido pela “lei da morte”.

Por isso, sobre o legítimo culto cristão de adoração (latria) nos fora ensinado:

https://magisteriotradicaoescrituras.com/2018/07/15/o-que-e-adoracao/

“Eu vos exorto, pois, irmãos, pela Misericórdia de Deus, a OFERTARDES VOSSOS CORPOS EM SACRIFÍCIO vivo, santo e agradável a Deus: é esse o vosso CULTO racional. (Romanos 12.1)”

E como poderemos oferecer nossos corpos santos em sacrifício a Deus?

“O CÁLICE de bênção, que benzemos, NÃO É A COMUNHÃO DO SANGUE DE CRISTO?

“E O PÃO QUE PARTIMOS NÃO É A COMUNHÃO COM O CORPO DE CRISTO? (I Cor. 10. 16, 17 e 18)

“NÃO ENTRAM EM COMUNHÃO COM O ALTAR OS QUE COMEM AS VÍTIMAS.” ( II Cor 10, 16, 17 e 18)

Noutra profecia, é reportado que só a carne e o sangue vertidos do sacrifício do Cordeiro, do Príncipe ocorrido numa montanha, é que nos serviriam, e nos seriam dados de comer como alimento sobrenatural, sem misturas ou composições:

“… reuni-vos para UM GRANDE SACRIFÍCIO NAS MONTANHAS DE ISRAEL. Ireis COMER A CARNE dos heróis e BEBER O SANGUE dos príncipes da terra: carneiros, cordeiros, cabritos, touros robustos de Basã; NESSE SACRIFÍCIO ao qual vos convido, COMEREIS GORDURA até vos fartardes, e BEBEREIS SANGUE até a EMBRIAGUEZ2 do SACRIFÍCIO que OFERECI por vós.” (Ezequiel 39. 17, 18 e 19)

Aquilo que recebem os fiéis, após a consagração do pão e vinho, já não é mais nem pão, nem vinho, senão apenas CORPO e SANGUE de CRISTO como alimento espiritual sempiterno, debaixo das aparências de pão e vinho:

“Trabalhai, não pela COMIDA QUE PERECE, mas pela que DURA ATÉ A VIDA ETERNA, que o Filho do Homem vos dará. Pois nele Deus Pai imprimiu o seu SINAL. (São João 6, 27)” 

“Pois a MINHA CARNE é verdadeiramente uma COMIDA e o MEU SANGUE, verdadeiramente uma BEBIDA. (São João 6, 55)”

Como ensinou o Apóstolo ao distinguir o que é simples comida do que é carne e sangue de Cristo:

“De maneira que, quando vos reunis, já NÃO É a refeição do Senhor que celebrais. Porque cada um se antecipa a comer a sua ceia. E uns tem na verdade fome, enquanto outros estão excessivamente saciados. Não tendes O QUE COMER e BEBER? (I Cor 11. 21.22)

“aquele que comer do pão ou beber do Cálice do Senhor indignamente, SERÁ RÉU DO CORPO E DO SANGUE DO SENHOR; portanto, cada um examine a si mesmo antes de comer deste pão e beber deste cálice, pois aquele que COME E BEBE SEM DISCERNIR O CORPO, COME E BEBE A PRÓPRIA CONDENAÇÃO.” (1 Cor. 11, 27 à 29)

Ora, através das espécies do PÃO e VINHO que vemos e recebemos, honramos as REALIDADES INVISÍVEIS da carne e sangue.

Percebemos pelos sentidos aquilo que é próprio e limitado aos sentidos, no caso, pão e vinho, e não a carne, e nem o sangue.

Todavia, convém as coisas da fé se mostrarem invisíveis para a autenticidade, honra e mérito da própria fé.

Feliz aquele que não viu, e creu, disse o Cristo para São Tomé. (São João 20, 14)

A fé é a certeza das realidades invisíveis, disse o Apóstolo. (Hebreus 11, 1)

“PARECIA-VOS que eu comia e bebia convosco, mas o meu alimento é um MANJAR INVISÍVEL, e minha bebida NÃO PODE SER VISTA pelos homens. (Tobias 12, 19)

De certo que Cristo é, em regra, visível em sua natureza humana, e invisível em sua natureza Divina. Mas dotado de Poder Soberano sobre todas as coisas, e sobre si próprio, pode também tornar-se invisível em sua humanidade, e visível em sua Divindade.

E tal como se revelou visivelmente sua natureza Divina a São Pedro e São João, no episódio da Transfiguração[2] (Mt 17. 1-9; Mc 9.2-8 e Lc 9. 28-36), se apresenta agora invisível em sua humanidade, sob nova forma e aspecto, posto que o Corpo de Cristo não figura na Eucaristia do modo e forma própria, mas de modo e forma específica.

Só uma defesa de acréscimo ilícito de elemento inútil que retiraria a harmonia e perfeição do ato, é que se pode sustentar a permanência do pão e vinho como alimento natural, após a consagração no Altar.

Além da inutilidade, outro ponto que nos chama atenção, tornando insustentável a permanência do pão e vinho natural junto a carne e sangue sacrificial de Cristo, é que sua conservação implicaria contaminação, tornando a oferta impura.

O que celebramos na Eucaristia é o Corpo de Cristo em ato LATRIA ou adoração puríssima e santíssima.

Devotamos aos elementos da Ceia Eucarística a ADORAÇÃO só devotada a Pessoa Divina e mais ninguém, e mais nada.

Ora, não poderíamos jamais adorar a Cristo Eucarístico, sem Dele distinguir o pão comum e o vinho natural, pois do contrário, estaremos devotando adoração latrêutica per relationem a comida e bebida.

Santo Tomás leciona, citando Santo Ambrósio (século III):

“Embora vejamos imagem do pão e vinho, devemos crer que depois da consagração não são mais que a carne e o sangue de Cristo. Contrariaria a excelência desse sacramento, se nele existisse alguma substancia criada que não pudesse ser ADORADA em Latria. Deus tomou o pão e o vinho, não para que eles permanecessem assim neste sacramento, mas para torná-los no seu corpo e no seu sangue.” (Suma Teológica Q  75, art. 2, Livro III Pars – Da Eucaristia)

Qualquer oferta de comida ou bebida comum a divindades é característica de culto pagão:

“Não te alegres, Israel! Não exultes COMO OS PAGÃOS! Porque te prostituíste, afastando-te de teu Deus; e amaste o salário impuro em todas as eiras de TRIGO; Não farão ao Senhor libações de VINHO, nem oferecerão sacrifícios em sua honra. O SEU PÃO SERÁ COMO UM PÃO DE LUTO: todos os que dele comerem se contaminarão. Essa REFEIÇÃO é para seus APETITES não para ser apresentada na Casa do Senhor” (Oséias 9.1 e 4)

Não lhe ofertamos refeições, mas um sacrifício de efeito perpétuo, o qual é simultaneamente Divino e humano, cabendo somente esses dois elementos em Comunhão:

SACRIFICAM a mim em TODO LUGAR e oferecem em MEU NOME uma OBLAÇÃO TODA PURA, pois grande é o Meu Nome em TODAS as nações. (Malaquias 1,11).”

“Este holocausto será PERPÉTUO; e oferecido, EM TODAS AS GERAÇÕES FUTURAS, à entrada da tenda de reunião, diante do Senhor, ONDE VIREI A VÓS, PARA FALAR CONTIGO.[3] (Êxodo 29, 43)”

Por onde, tomou Cristo o pão e vinho, e disse: “ISTO É meu CORPO; e ISTO É meu SANGUE.”

Ora, se é carne e sangue já não é o que era antes.

Cristo não disse que: “nisto ESTÁ o meu corpo, e nisto ESTÁ o meu sangue” mas sim — “isto É meu corpo e sangue.” (Mt 26.26 -29)

Conhecendo a natureza humana, e sabendo que repugnava a decência e a sensibilidade, ingerir em antropofagia a carne e sangue in natura, é que Cristo, por meio de sua Divindade nos dá sua verdadeira carne, e seu verdadeiro sangue nas aparência e sabores do vinho e pão, sem que o vinho e o pão estejam Nele contido.

Ensinou Santo Tomás de Aquino:

“… não são os homens acostumados, antes, tem eles horror a comer carne e beber o sangue humano. Por isso, nos é proposto que tomemos sua carne e seu sangue sob as espécies do pão e do vinho.” (Suma Teológica, Q 75, art 5 Livro III Pars – Da Eucaristia)

Por não compreenderem que a Natureza Divina atuaria pela Natureza Humana, é que os judeus cafarnaistas rotularam por loucas as palavras de Cristo:

“POIS A MINHA CARNE É VERDADEIRAMENTE UMA COMIDA E O MEU SANGUE, VERDADEIRAMENTE UMA BEBIDA; ‘Muitos dos seus discípulos, ouvindo-o, disseram: ISTO É MUITO DURO! QUEM O PODE ADMITIR?  Essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: COMO PODE ESTE HOMEM DAR-NOS DE COMER A SUA CARNE? (São João 6. 52, 55, 60 a 63)

A humanidade de Cristo, sendo ONIPRESENTE,[4] pode estar no Céu e também no Altar.

Agasalhar que há comida comum na Eucaristia, na qual Cristo se contém ou repousa, implica ferir a latria do ato Eucarístico e o equilíbrio na perfeição dos elementos da Comunhão.

Sequer por hipótese, pode a Igreja cogitar admitir a teoria da “união sacramental” de Lutero[5] (1.530), que diz que os elementos de comida natural permanecem; nem a consubstanciação de Berengário de Tours (1.036), que diz que Cristo está contido localmente dentro do pão e do vinho, ou a teoria memorialista[6] de Zuínglio (1.529) que diz que a “ceia do senhor” é apenas teatro figurativo de memória póstuma de Jesus, sem presença real.

O fato é que todas essas teorias, que de alguma maneira negam a Transubstanciação, decorrem da tentativa de restringir a fé ao âmbito da razão humana, que por sua limitação não alcança as questões da fé. É quando então, a razão torna-se refém dos sentidos, e não consegue buscar a harmonia com o transcendente, cujas teorias, pensamentos e movimentos ditos reformistas, nasceram  no século 16, junto com Filosofia Moderna que ensina como verdade só aquilo que se tenha uma explicação racional provada pelo método científico, artístico ou empírico.

Se Deus se fez homem, sua humanidade pode se fazer pão.

Duvidar de um, é duvidar do outro.

 

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[1]  A palavra MESA, TRAPEZA no grego (τράπεζα), é empregada no sentido de Altar, local mais elevado, monte sagrado. (MESA DOS TEMPLOS, MESA DOS ÍDOLOS e MESA DO SENHOR. I Cor 8, 10 e I Cor 10, 21)

[2] Pois não seguimos fábulas engenhosas, quando vos fizemos conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo; mas nós fomos testemunhas oculares da sua majestade. (II Pe I, 16).

[3]“Onde virei para falar contigo.” Anuncio da PRESENÇA REAL na Eucaristia.

[4] “Estarei com vocês até o fim dos tempos (Mt 28, 20); Isto é meu corpo. (Mt 26.26)

[5] Formula of Concord Solid Declaration VII.36-38: em adição às expressões de Cristo e São Paulo (o pão na Ceia é o corpo de Cristo ou a comunhão do corpo de Cristo) também as formas: sob o pão, com o pão e no pão [o corpo de Cristo está presente e é ofertado], são empregadas; é por meio delas que a transubstanciação papista pode ser rejeitada e a união sacramental da essência inalterada do pão e do corpo de Cristo, [pode ser] indicada.

[6] Quanto a teoria puramente “memorialista” adotada pelos dissidentes do luteranismo, será objeto de outra postagem.

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