Soteriologia

CONVINHA CRISTO SER POSTO NO MEIO DE LADRÕES, LEVANDO UM DELES AO PARAÍSO?

O Enigma da Cruz, pelo qual a Divina Providência colocou CRISTO, em sua pena sacrificial, ladeado por dois malfeitores, é desvendado no âmbito da JUSTIÇA DIVINA: “Crucificaram com Ele DOIS BANDIDOS: um à sua DIREITA e outro à ESQUERDA.

Moldava-se a trágica cena da Morte do CRISTO, com dois coadjuvantes  iníquos  e  um  PROTAGONISTA Santo, Imaculado e Perfeito.  O que muitos não atentam, é que a passagem da crucificação prefigurou o que será, no futuro, o juízo final de toda humanidade.

A crucificação pressagiou o vindouro PODER JUDICIÁRIO DIVINO, Personificado e Executado em CRISTO naquele episódio particular em relação aos dois ladrões, como haverá de ser em relação a todo gênero  humano, no final dos tempos.

Em sua primeira vinda, não tinha NOSSO SENHOR o propósito de julgar a humanidade, mas de lhe revelar e imprimir o caráter da salvação: Eu não vim para julgar o mundo, vim para salvá-lo.” (S. João 12. 47)

Todavia, depois de ascender ao Trono Celestial, sentou-se à Direita de Deus Pai, para com Ele exercer a JUSTIÇA, na oportunidade da sua segunda vinda.

Está Escrito: Ele será ÁRBITRO de numerosas nações e juiz de povos longínquos e poderosos.” (Miquéias 4. 3)

Eu te conjuro em presença de Deus e de JESUS CRISTO, QUE HÁ DE JULGAR OS VIVOS E OS MORTOS, por sua aparição e por seu Reino: (II Timóteo 4, 1)

Nisso ensinou Santo Tomás:

Por onde, estar sentado à Direita do Pai, outra causa não é senão participar simultaneamente com Ele da Glória e do PODER JUDICIÁRIO. E isso de modo imutável, e como Rei.” (Suma Teológica, Q 58 art. 2, Livro IIIa, ano 1.248)

Na crucificação, quis CRISTO apresentar o ensaio, num fragmento representativo da eficiência do seu sacrifício na aplicação da Justiça Divina.

Os dois ladrões representaram dois pontos antagônicos: DIREITA e ESQUERDA,  sendo  a  assembleia dos israelitas, a ilustração do póstero Tribunal Celeste.

E no MEIO dos bandidos, porém acima deles, fincou-se a Cruz mais elevada que albergou o Poder Supremo, capaz de conceder aos malfeitores  o  veredicto  da absolvição ou da condenação.

Essa localização CENTRAL e SUPERIOR da Cruz de Cristo, não surgiu como algo aleatório, mas por ser a exata posição em que se assentam os Tronos dos reis e os Púlpitos dos magistrados, em referência aqueles que seriam julgados:

porque o Senhor é NOSSO JUIZ, o Senhor é nosso Legislador; o Senhor é NOSSO REI QUE NOS SALVARÁ.” (Isaías 33, 22)

Não por outra razão, a Cruz de CRISTO situou-se ao CENTRO das cruzes.

Leciona Santo Tomás:

Se considerarmos a Natureza Divina de Cristo, então é manifesto que TODO O JUÍZO DO PAI, PERTENCE AO FILHO, pois como o Pai faz todas as coisas pelo seu Verbo, também pelo seu Verbo julga todas as coisas.” (Suma Teológica, Q 59 art. 2 Livro IIIa)

E no decorrer da crucificação, um dos conflitantes  contendia com destemor para com o Justo Juiz, exigiu-lhe a liberação da pena sem o  arrependimento dos pecados e a confissão de culpa: – Um dos malfeitores, ali crucificados, BLASFEMAVA contra Ele: Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo E SALVA-NOS A NÓS! (S. Lucas 23. 39)

Noutro sentido, seu oponente lhe contestava, reconhecendo a culpa própria por seus pecados, suplicando repleto de esperança ao Justo Juiz, a indulgência misericordiosa em substituição das sanções penais que lhes seriam aplicadas:

mas o outro o repreendeu: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? PARA NÓS ISTO É JUSTO: RECEBEMOS O QUE MERECERAM PÔS NOSSOS CRIMES, mas este não fez mal algum. E acrescentou: JESUS, LEMBRA-TE DE MIM, quando tiveres entrado no teu Reino!” (S. Lucas 23. 40 à 42)

São João Crisóstomo (anos 345-404), escreveu:

“O ladrão não ousou fazer essa prece, sem antes, pela confissão, se ter libertado do fardo dos pecados. Ele confessou os pecados, e o Paraíso abriu-se-lhe. (Homilia da Cruz e o Bom Ladrão, 2, 3 e 4 cap.12)”

E assim, colocadas as obras de cada um, (Rm 2.6) colheu-se do Justo Juiz, um Magnífico Veredicto em relação ao bom ladrão:

“Jesus respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.” (S. Lucas 23.43)

https://afecatolicanasescrituras.blogspot.com.br/2017/01/o-reino-de-deus-e-o-mesmo-que-paraiso.html

Assim será também o nosso julgamento, no Tribunal Celestial, naquilo que figuradamente Cristo já realizou na Cruz, particularmente no que diz respeito aos ladrões, separando o fiel do infiel, o esquerdo do direito e o joio do trigo. (Mt 13. 24 à 30)

“Assim será no FIM DO MUNDO: os anjos virão SEPARAR OS MAUS DO MEIO DOS JUSTOS.” (Mt 13.9)”

Entretanto, não é próprio de Deus ser imperfeito.

E ainda que no exercício de um juízo restrito aqueles ladrões, esse juízo não poderia ser incompleto.

Diz-se de incompleta, toda causa que não produz o necessário e natural efeito.

Tem-se assim, um juízo incompleto e imperfeito, quando após analisar o mérito e o demérito de cada um, deixar o magistrado de lhe atribuir o regular EFEITO JUSTO, que tanto pode consistir na recompensa, quanto na punição. Logo, para a Perfeição da Justiça Divina, convinha que o ladrão, santificado em Cristo, seguisse com Ele até o Paraíso.

Conforme ensinou Santo Tomás de Aquino:  chamamos perfeita, à que passa da potência para o ato, essa palavra (perfeito), foi empregada para significar AQUILO QUE NÃO FALTA O SER ATUAL. (Suma Teológica, Q 4, art. 1 Livro Ia)

No momento em que São Dimas, o ladrão arrependido, suplicou de Cristo a Graça misericordiosa, a cruz do ladrão tornou-se a Cruz de Cristo.

Salvando pela Cruz de Jesus, nem por isso se tornou desnecessária a cruz daquele ladrão, vez que pela Cruz do Cordeiro, e também por sua própria cruz, lhe fora permitido seguir à Cristo, rumo ao Paraíso:

“Quem não toma a SUA CRUZ E NÃO ME SEGUE, não é digno de mim.” (Mt 10.38)”

Conforme Santo Tomás:

“A pessoa de Cristo está toda em qualquer lugar, mas não totalmente por não ser circunscrita por nenhum lugar.  Essas palavras do Senhor (Lc 23.43) devem entender-se, não do paraíso terrestre material, mas do Paraíso Espiritual, ONDE DIZEMOS QUE ESTÃO TODOS OS QUE GOZAM DA GLÓRIA DIVINA. (Suma Teológica, Q 52, art. 3 e 4 Livro IIIa)”

Para que o Juízo de Cristo prefigurasse na crucificação, foi necessário ANTECIPAR A MORTE1 dos ladrões, para que os mesmos, não morrendo num sábado, consequentemente morressem na sexta-feira, dia da morte de  NOSSO SENHOR.

E tal fizeram os algozes, quebrando-lhes as pernas, para que perdessem o sustento da base de cruz e se asfixiassem com o peso de seus próprios corpos: “Vieram os soldados e quebraram as pernas do primeiro e do outro, que com ele foram crucificados.” (São João 19, 32)

Deste modo, convindo Cristo exercer uma prefiguração do Poder Judiciário que executará no final dos tempos, convinha também que o ladrão salvo fosse com Ele naquele dia para o Paraíso.

E assim, um dos ladrões tornou-se blasfemo e o outro justificou-se, cumprindo o que haverá de ser no Apocalipse 22.11:

“O injusto, pratica mais injustiça, o impuro, pratique mais impurezas. Mas o justo faça justiça, e o santo santifique-se mais.

  1. Um Médico Descreve a Crucificação de Cristo – Pierre Barbet – Bálsamo de Gileade. 

4 comentários

  1. Prezado e Exmo. fiel católico, Sr. Dr.Menandro “Salve Maria”!

    Como verdadeiro juíz de Direito o Sr. reconhece o verdadeiro Supremo Tribunal. Muito pertinente o texto com seu sacerdócio. Maravilha!

    Parabéns pelo estupendo artigo! Oxalá mais juristas católicos sejam santamente humildes a ponto de sempre se reconhecerem necessitados da graça de Deus e presentear-nos com textos tão profundamente belos!

    Oxalá todos os fiéis católicos se permitam desejar a verdadeira ‘fofoca’ da vida da única pessoa que nos faz eternamente felizes, Cristo Nosso Senhor.

    Mais uma vez parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Querido amigo Máximo, paz e bem. Muitíssimo obrigado por sua atenção e o conteúdo do seu comentário. Como eu mesmo já escrevi num outro artigo aqui do site, chamado “É licito julgar”: – “Essa delegação de Deus, que é um poder transmitido temporalmente a alguns para proferir decisões pessoais e diretas sobre seus semelhantes, fora outorgada aos Magistrados e Sacerdotes.

    Todo juiz, membro da Magistratura, embora agente estatal, é também ministro de Deus, porque a ele incumbe julgar pelo reto juízo que disciplina a Lei Divina, Perfeita e Eterna, segundo a autoridade que lhe fora atribuída.

    Embora a Justiça dos santos seja mais perfeita que a justiça institucionalizada; e a Justiça Perfeitíssima de Deus transcender tanto uma, quanto outra, é certo que ao buscar a Justiça nos casos individuais, trazem os Magistrados como efeito, a Justiça coletiva como Bem Comum.

    A ordem, disciplina, licitude, decência, equidade e honestidade que há eternamente na Perfeição de Deus, haverá de se refletir também nesta terra:[1]

    “ Terão de julgar; e o farão conforme ao meu Direito. (Ezequiel 44.24) ”

    Do sistema jurídico terreno estabelecido por Deus, depende todo mecanismo que sustenta a conservação da ordem e da subsistência de todas coisas criadas.

    “Junta-me setenta homens entre os anciãos de Israel, que sabes serem os anciãos do povo e tenham autoridade sobre ele. Conduze-os à tenda de reunião, onde estarão contigo. (Números 11, 16)” Fique com Deus, e seja bem vindo.

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  3. Gostaria de adicionar três pontos sobre esse post que li no livro do Fabrice Hadjadj “O Paraíso à Porta” (a partir da pág. 201) que fiquei muito impactado da primeira vez que li. Transcrevo praticamente literalmente, pois Fabrice escreve muito bem:

    *Os dois ladrões estavam previamente blasfemando contra Cristo (Marcos 15, 32 e Mateus 27,44). Ou seja, Dimas começou tão malvado quanto Gestas. Dimas mudou e foi transformado pela primeira palavra de Cristo na Cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. Ele sente de um golpe o quanto esse malfeitor é mais puro do que seus juízes.

    **Dimas dirige-se primeiro a Gestas (olhando por entre Jesus que estava no meio de ambos) para arrancá-lo da amarga superfície de suas blasfêmias e levá-lo ao fundo de sua aflição comum nos indica que esse eu (do lembra-te de mim) não seria capaz de ser exclusivo ou egoísta. O “lembra-te de mim” vem logo depois de “para nós isso é justiça”. Quando Dimas fala por si, é só depois e dando continuidade a esse “para nós”. Ele de algum modo dá o exemplo. Ele diz aquilo que ele não seria capaz de dizer no lugar de seu companheiro (sem o que ele o confortaria em sua presunção de ser salvo passivamente), e assim ele convida Gestas a também fazer, pessoalmente, insubstituivelmente, o mesmo pedido.

    ***”Por que Dimas diz ‘Lembra-te de mim’ e não ‘salva-me’ como se poderia ter esperado? Por que a lembrança do lugar da salvação? Esse é o sinal de humildade onde o ladrão se abandona ao bel-prazer do Senhor: ele não se afirma digno do Reino que virá, pedindo apenas que Jesus se lembre dele. Não me esqueça, talvez porque eu vá me jogar no inferno, não sei nada, só tu sonda os rins e os corações, e aliás mesmos que eu vá acabar na geena, será minha alegria manifestar ali a tua justiça, desde que teu reino venha, e que tu se lembres de mim, e que em mim se faça a verdade…”

    Curtido por 1 pessoa

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