Livre Arbítrio

O LIVRE ARBÍTRIO É INDISPENSÁVEL PARA AMAR A DEUS.

livre

Para entender que o livre arbítrio manteve-se intacto após a queda, mister distinguir a razão,vontade e a operação. Qualquer Bem que o ser humano escolhe realizar através da  razão  e  da vontade,  ele não consegue praticar por mérito próprio, mas pela Graça de Deus. Por isso, a incapacidade de realizar não pode ser confundida com a inabilidade ou incapacidade gerada da ausência de liberdade para se conceber uma boa escolha, como ensinou o Apóstolo:

“Eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita o Bem, PORQUE O QUERER O BEM ESTÁ EM MIM, MAS NÃO SOU CAPAZ DE EFETUÁ-LO.”  (Romanos 7,18)”

Neste sentido, é que não se deve confundir  o  livre  ARBÍTRIO  com a livre AGÊNCIA, como faz a teologia dos calvinistas.

A incapacidade de operar não retira a liberdade racional e cônscia da escolha,  posto que os seres racionais foram por Deus dotados de razão e vontade, e não somente de instinto. A escolha é dada aqueles que possuem, pela razão, a capacidade de exercer um juízo ainda que superficial entre múltiplas opções.

Orígenes ensina que livre arbítrio “[…] é uma FACULDADE DA RAZÃO, pela qual se pode DISCERNIR O BEM E O MAL, e da VONTADE pela qual se pode ESCOLHER um ou outro. (De Principiis, anos 258)”

Conforme está Escrito: “Olha que HOJE PONHO DIANTE DE TI, a vida com o BEM, e a morte com o MAL. […] “Tomo hoje por testemunhas o céu e a terra contra vós: ponho diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição. ESCOLHE POIS, A VIDA, para que vivas com a tua posteridade,”

A liberdade da razão está em poder  discernir e na  vontade  poder  buscar, estando a GRAÇA DE DEUS em realizar em consórcio com indivíduo,  todo Bem que este discerniu pela razão, e o quis pela vontade. (Jr. 13, 23; ef. 2.1-10; Rom. 3.9-18; Cl 2.13; Tt 3.3-5 e outros)

Assim fora Escrito: – “Somos obra sua, criados em Jesus Cristo PARA AS BOAS AÇÕES, QUE DEUS DE ANTEMÃO PREPAROU PARA QUE NÓS AS PRATICÁSSEMOS.” (Efésios 2. 10)

Ao indivíduo, entretanto, é impossível realizar qualquer Bem em mérito próprio no estado de pecado no qual se encontra. Por outro lado, também Deus realizar nele qualquer Bem sem o seu  consórcio e participação pela vontade e razão, não  livraria este indivíduo  do estado de condenação.

Cristo não quis apenas Merecer por nós, mas nos tornar merecedores por participação nos Méritos Dele. Neste contexto, o livre arbítrio NÃO É incompatível com a ONIPOTÊNCIA DE DEUS, antes, a Onipotência atua e age no indivíduo por meio da liberdade conferida na razão e vontade humana, ordenando-as à Perfeição e ao Bem Supremo que é a salvação.

Santo Agostinho leciona (354-430): – “Julgas que a paixão seja mais poderosa que a razão, pela qual por Lei Eterna nos foi dado o domínio sobre todas as paixões? De modo algum, pois caso fosse, seria a NEGAÇÃO DA ORDEM PERFEITA de Deus, em que o Maior domine sobre o menor. Então haverás de hesitar em colocar as Virtudes acima dos vícios? (Do Livre Arbítrio, Cap. 10. p. 25)” E ainda: – “não há nenhuma outra realidade que torna a mente cúmplice da paixão, a não ser a própria vontade E O LIVRE ARBÍTRIO. (Do Livre Arbítrio p. 55. Cap.12)”

Arremata Santo Tomás: – “Como já disse antes (Q 81, ª 3 ad. 2), o apetite sensitivo, embora obediente a razão, pode contudo, recalcitrar, desejando o que a razão proíbe. O bem que o homem não faz quando quer é o que consiste em ser concupiscente contra a razão.” (Suma Teológica, art. 1º Q 83 – Livro IIa. Se o homem tem Livre Arbítrio)”

O ato de livre arbítrio é o prévio exame, certo juízo ainda que superficial entre no mínimo duas realidades distintas. Se o ser humano não tivesse apto em discernir entre essas realidades, em vão teria sido preservada a razão após a queda. pecado não entrou no mundo por outro pecado, mas pelo livre arbítrio. Não tem assim, o pecado, causa em si mesmo, mas na liberdade de agir pela razão e pela vontade, inata em nós desde os nossos primeiros pais. (Gênesis, capítulo  III)

Mas, se outrora nos foi dada liberdade para escolher sair do estado de justiça para o pecado, como negar que Deus não preservou essa liberdade, para que participássemos do plano de exclusão do pecado, e retorno ao estado de justiça?

Esclareceu Santo Agostinho:

“Logo, já é para ti uma certeza bem definida haver Deus concedido ao homem esse Dom. (LIVRO O LIVRE ARBÍTRIO E A ORIGEM DO MAL. Deus é o Autor do Livre Arbítrio, p. 36 cap. 1)”

E consta nas Escrituras:

“Vede. PONHO-VOS HOJE BENÇÃO ou MALDIÇÃO.” (Deuteronômio 11. 26)”

A liberdade do arbítrio supõe ainda a Dignidade do Juízo de Deus sobre a humanidade, pois se não houvesse  livre  escolha entre o erro e a Virtude não haveria justa causa para a recompensa ou castigo.

Ensina novamente Santo Agostinho: – “se o homem carecesse do livre arbítrio da vontade, como poderia existir o Bem da Justiça, condenando os pecadores, e premiando as boas ações? A conduta desse homem não seria pecado, nem boa ação, caso não fosse voluntária. O castigo, como a recompensa, seria injusto se o homem não fosse dotado da vontade livre. (Livro II –  DO LIVRE ARBITRIO. cap. I p. 39, Deus é o Autor do Livre Arbítrio)”

E Santo Tomás de Aquino: – “O homem tem livre arbítrio, do contrário, seriam inúteis os conselhos, as exortações, os preceitos, as proibições, os prêmios e as penas. O homem age com discernimento, pois pela Virtude da razão, discerne o que deve buscar e o que deve evitar. (Suma Teológica, art. 1° Q 83. Do Livre Arbítrio)”

O mover de Deus é simultaneamente causa e efeito da vontade e da razão humana. É assim, causa,  por ter lhe dado o livre arbítrio; e efeito por atuar nessa razão e nessa vontade, que escolhe e discerne o Bem, para assim, realizar por ação Divina, o Bem propriamente dito. 

ELE é a causa de todo Bem que se ele realiza no ser, sem que este ser tenha que se despir do livre arbítrio entre o Bem e o mal.Pela vontade livre, o homem se coloca a disposição de Deus para realização do Bem. 

O livre arbítrio implica no livre discernir da razão, a virtude inata que se contrapõe à inclinação dos atos  humanos à imperfeição por efeito da natureza pecaminosa adquirida. Logo, a existência da razão e intelecto, importa na possibilidade de exercer juízo valorativo sobre malefício e benefício. E por ser o ato humano natural, desprovido da Graça, penderá à prática do pecado, ainda que a vontade e/ou a razão não consintam. 

Por isso, dize-se que perdera a livre agência, mas não o livre arbítrio.

O homem não perdeu, com a queda, a capacidade em discernir entre o mal e o bem, podendo sua vontade ainda buscar fazer o Bem, como está escrito: APARTE-SE DO MAL e faça o Bem, BUSQUE a paz e siga-a.” (I Pe 3, 11)

Mas o Bem que se executa, o qual só é possível existir porque Deus nos auxilia a realizá-lo, é a meta principal e finalística da obra divina sobre nós, a qual só se realiza, entretanto,  porque o homem é livre para querê-la ou não: – “ vós outros estáveis mortos por vossas faltas, pelos pecados que cometestes outrora seguindo o modo de viver deste mundo, do príncipe das potestades do ar, do espírito que agora atua nos rebeldes. (Efésios 2. 1, 2)”

Livre arbítrio não é virtude operativa, e sim cognitiva e volitiva.

Todo Bem que vem de Deus se realiza no âmbito da vontade humana. E o mover de Deus é causa da vontade humana por lhe ter dado a livre escolha, como também causa do Bem que na vontade humana Ele realiza.

A limitação do ser humano pelo pecado, consistiu na incapacidade de  realizar o Bem, sem recorrer ao auxílio da Graça Divina. 

Na visão aristotélica, o Bem que o ser discerne e quer realizar, não logra êxito sair da potência para o ato.

Noutra mira, todo ato finalístico do ser humano tem como meta amar a Deus sobre todas as coisas.

Mas o amor perfeito é ato livre, posto que não se consegue ser amado ou amar mediante coação, sendo que qualquer coação empregada para amar, não visa o Amor Perfeito, mas o puro egoísmo. O amor de Deus é Perfeito, e sendo Perfeito, não aniquilou a liberdade humana na qual se realiza.

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